domingo, 19 de dezembro de 2010

devalssa


imagem: red nails;wrong city/flickr

maria das dores.
dolores.
dorinha.
dodô. dorzinha.
sozinha. No vai da valsa
o tempo
de novo. carne fresca,
boca em rosa,
carmim,
lenços brancos,
rodas
de saias,
corpo oculto
embaixo. fogo em brasa
Brisa e aragem
a dissipar calores
de moça.

mas na valsa
se entregava, imaginava
alcovas,rodopios,
camélias, mãos afoitas,
suores,
ai que morro!
E se dava sem medo
se abrindo,
rosa encarnada
entrevendo
os degraus
de paraísos
incontidos.

e na alcova era fêmea
cadela no cio
bicho
encolhida sob os machos
debaixo
de toneladas de peso
de carne nervos e músculos
e ela gostava, gemia,
ardia,
urdia,
e queria
muito mais.

no vai da valsa
o tempo
no compasso
dos passos
e rodopios.
o que era ontem
frescor
cara vermelha, assanho,
o que então era
vertigens
hoje é nada
pó, sem eira,beira
carne murcha, corpo
plácido
(só prá inglês ver)
dentro-puro vulcão
carmim
inda explodindo
Mas sem rubores nas faces
Da falsas valsas de então.

Tempo tempo tempo
Corpo corpo corpos
Que se desvanecem
Que se desfazem
No ar:
...hoje, como Eleanor, das dores se posta na janela, esperando, esperando, não sabe o quê...
e guarda todos os seus sonhos ( sim, sonhos, ainda e apesar) num jarro, como hieróglifos, como manuscritos de um mar morto, como grifos míticos e imaginários, para que um dia alguém deslacre esses vasos e descubra esses sonhos, perdidos, fendidos, esta massa de sensações
e movimentos, de momentos e mementos-
dores, das dores, dorinha, dorzinha,
em ebulição, em contração, em queda livre para dentro de si mesma,
esperando os outros. o outro. a outra.
a mão que virá salvá-la.
no desvão da valsa.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

um outro blues


imagem: DailyPic/Flickr

A paisagem se desdobra à minha frente
feita de brilhos e barulhos matinais.
Mas não me importo. Não me interessam
estas mornas tardes outonais.
Em meu peito chove. Rugem vendavais.

ela não. sente-se sozinha senta-se no vão da escada e começa a pensar. pensar.
“Eu me perco na minha própria perdição. Ando muito desligada, buscando trilhas, maravilhas e não vejo a vida que corre ao meu lado, cobrando, cobrando, feito cobra serpenteando ora fria ora quente o bote armado... Nada me importa e a viagem não tem fim. Fui. Fim. “

Ela lembra os velhos filmes e os desgarrados personagens de Nazarin e os figurantes do banquete dos mendigos. Putas, abandonados, cães vadios saídos dos becos de Brecht, gente sofredora que desfila por seus olhos pedindo uma chance de se mostrar, de se revelar, de poder soltar os seus clamores.


Ele deitado. Na cama um tédio sem remédio.
Ontem foi sexta e ele só chegou no sábado noite selvagem sexo sexo sexo foi amor foi paixão?
Não, foi só tesão , desejo de outro corpo, desejo estimulado pela mídia e pelo vício álcool na veia paraísos artificiais que luta o que é que eu busco
afinal onde é que eu vou para que estou aqui?
São tantas e tontas perguntas e a vida corre,
sorry. a vida corre, a noite escorre, o mundo é um grande porre,
cadê as adocicadas lovistoris onde é que eu entro nesta história?
Cansei, dancei.nem sei.
Penso e vomito meus medos escarro meus medos e meus medos me invadem
e se materializam e voam, soltos nos ares, feito vampiros feito nosferatus desiludidos e desesperados
querendo sangue mas muito mais que sangue querendo afetos
e afoitos se desintegram aos primeiros raios de sol
e aos mínimos sinais de carinhos ou caricias em suas faces túrgidas
e lívidas de habitantes da noite.
caralho, que pesadelos são estes que agora me atormentam?


Ela no vão da escada. Ele, deitado na cama, em seu tédio sem remédio,
ouvindo canções que não se usa mais,
valsas vienenses, bosques de imperadores, se esta rua fosse minha porra,
eu mandava te buscar... foda-se, eu quero e gosto das canções antigas...
ah, que tédio estes baticuns de hoje em dia....

ela se levanta do vão da escada, borra boca de baton. Vermelho vivo, como a vontade de se entregar ao primeiro cara que encontrar pela rua. Ela se levanta e vai ao encontro do inesperado. Quem? Ele, o cara do tédio sem remédio, das músicas que não se ouve mais do sexo selvagem que não tem a ver com paixão e com amor?
Ele mesmo.
Ele, a esmo,
sai da cama e se veste, feito um robô.mudo.
Bota a bermuda. A cena muda.

Um encontro romântico nos bosques de Viena ao som de strauss longos vetidos brancos rodopiando sonhos
enquanto vampiros negros nosferatus e dráculas sobrevoam os salões guardiões do cara do tédio.
Ele. Ela. Eles. E daí?
Daí, há de sair alguma coisa de concreto sangrando a cena,
alguma carícia mais afoita, uma noite de prazer,
duas ou três noites de trepadas, sim, e daí?
A vida é só isso aí?
Onde ficam os sonhos, os devaneios, as buscas, a esperança, a estrada de tijolos amarelos e os castelos de sissi e o palácio de esmeraldas e os poderes do anel?
Onde os poetas podem colocar seus versos e seus segredos
se não perdurarem sonhos e paragens outras, além, muito além?
ondde os poemas estendidos nos varais
dos quintais
prenunciando galos e autoras?
Não podem.
Ele. Ela. Eles.
E ávida a vida é assim. Seca.
Nua. Crua.
assim.

domingo, 12 de dezembro de 2010

tango


imagem: pedro buridi/flickr

gostava que lhe mordessem os peitos
que gotejavam aos toques
de línguas ásperas
dedos calejados
grossos
ensebados.
gostava.
que lhe cobrissem
com baba, cuspe,
suores e secreções:
era santa, tonta, era
rainha e escrava- cravo
encravado unha roxa
e rosa:
bota e espora
tinindo trincando.
gostava. gozava.
da posse e do poder.
ensaiava depois
passos de tango, sozinha,
dmaginando os corpos ao lado
do seu. ensaiava lânguidos
movimentos lúbricos
tango e tragédia:
o tango é belo
por ser tão trágico
ou trágico
por ser tão belo?
toda beleza é trágica
desde o desertar. toda
tragédia é bela
ao traduzir
as inconstâncias do humano
refazer.

tengo te ango triste e trágico
belo e terrivel
movuimento de corpos
se esfregando, se esfolando,
follando
fundindo-se
nestas fodas inferceles
tiais.

gostava. que lhe mordessem os peitos
que gotejavam aos toques
de línguas ásperas
e dedos calejados

na solidão do quatro.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

se a porta se abrir


imagem: flickr/cedro

subverter o sentido
das palavras.verter águas
em vértices obtusos,largos,
pronfusos
profundamente mergulhar
no amargo do desejo.
sagrar a geografia
singrada
dos corpos em ebulição
subinverter,

subverter a palavra
dos sentidos
anarquizar a ranhura
do desejo
encenar sonhos,
engendrar vontades
destroçar realidades.
zonear
o concreto das idéias
e lancelivrar
salivar
nas escalas do corpo
dos corpos
sem metáforas
ou mandrágoras
venenosas,

a palavra que estava aqui,agora,
solidificou-sem esquecimento
cimento de ausências
semente de urgências
que chegam como
os dias que correm, que passam,
que devoram
pssarinhos tontos, avoando
ímpares, díspares,

subverter os sentidos
os desejos,
anarquizar os quereres:
somos soma assim:
cavacando sonhos
e presenças prenhes
de tanta espera.

jogar-se do alto, mergulhar
sem escafandro
sem paraquedas
sem angústias
nesse mundo vasto,]
de gentes tantas.

tontas também. mas não importa
se a porta se abrir.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

monicelli,cavaleiro.


imagem: screenweek/Flickr

,e acabo de ler no jornal
que monicelli se jogou
feito pacote flácido
ou passarinho plácido
do alto dos seus noventa
e cinco,
acabo de ler no jornal
que aterrisou como nave
se esborrachou como ave
sobre um canteiro
de flores.
monicelli, mário,
uma ária de risos
a busca pelo cielo
céu, azul, horrores,
dores, onde o mal
pode acabar?

,acabo de ler no jornal
quer o mário se jogou
assim, de uma janela
indiscreta
fugindo do riso antigo
buscando asas de pássaros
ou inebriantes azuis..
a dor, ah! a dor
essa fica, nas guerras
de brancaleone
e de amigos traparceiros.

,acabo de ler no jornal:
o mário se jogou.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

hima(l)aias


imagem: travelmeasia/flickr

cadernos de viagem, álbuns,
rosas secas, flores mortas,
lendas, rumos,
cacos, caos e casos
muito desfeito
mitos mortos
outros tempos.
...são apenas álbuns. cadernos velhos. descorados.meias úídas. sandálias rotas.
descoladas idéias
desolados cantos
de quem nem se sabe mais:
Te ter é bom
É bom te ter,assim,
Fresca e exangue
Carne e sangue
Em minhas mãos
Traçar carícias
Em tua geografia
Mais profunda
Desenhar o prazer
Em tua pele clara
É o que me dá prazer:
Penetrar, adentrar,
Ancorar em tua alma:
Alma?
Território inexplorado
E proibido
Aos desavisados:
Aqui, não se chegfa a esmo
nem impunemente:
é como sorver
ares rarefeitos
de himalaias

domingo, 31 de outubro de 2010

chiaroscuro


imagem: sgirolimetto/flickr

Sou um poeta barroco
e pendo
entre céus e infernos
entre verões e invernos.
Navego
cego
no brilho opaco do olho.
Colho flores do espírito
nos jardins do Eden
e frutos sensoriais
nos rastros da serpente.

Sou barroco
e me entrego
aos prazeres do corpo
buscando saciar a alma
que derrapa, inconsequente
entre o quente da carne
e a calma da chama
que arde, eterna.

É terno meu caminhar
mas são volúveis meus passos
que passam
às vezes lentos
às vezes tensos
entre vicios e virtudes
entre luzes e sombras
numa zona cinzenta
de idéias indefinidas.

Oscilo
entre o vazio e o pleno
entre o puro e o obsceno.
Aceno
ao ubíquo
e ao ambíguo
desejo obliquo.
Divago
entre a superfície e o fundo
entre o agudo e o obtuso.
Intruso
indecifro-me
no âmago da escuridão
buscando as imensidões
da sombra e da luz.
Sou paz, sou pus
componho-me e decomponho-me
numa antítese imperfeita.

Em um mundo óbvio
sem mitos e metáforas
sou palavra em transe
transmutando-me
em multiplicidades.

Sou um anjo torto
de asa quebrada
e sorriso morto
sem norte, sem porto.

Sou anjo barroco
que sobreviveu
às intempéries
e que busca um caminho
um destino num mundo
onde anjos já não tem vez
nem voz.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

era setembro


imagem: dominics pics/flickr

Era setembro, acho, e ainda não havia chegado a chuva. chovia sim, mas em meus olhos e em meu coração empedrado minando saudades e ausências. e setembro era pleno de belezas ipês amarelando e arroxeando os horizontes contra os céus azuis muito azuis às vezes chumbos às vezes bronzes derretendo sobre as cabeças calor de 40 graus e nós todos dizendo caralho que calor é esse que tá derretendo a gente saía dançando pelas ruas, nas madrugadas, bebia, bebia, e depois saía dançando nas noites amenas daquele calor manso das madrugas e a só ia dormir tarde da noite manhã quase e brincava de namaorar todo mundo meio riponga é ainda era tempo de ser hippie sabe final dos anos 70 e todo mundo na onda de Woodstock de Hendrix de Joplin de mammas and the pappas e de toda aquela puta ilusão de paz e amor e concertos ao ar livre e nós cá nos trópicos e os ídolos todos lá, nas fazendas americanas nas ilhas inglesas naqueles frios de gelo e nós aqui nos trópicos querendo imitar ah mas era tão bom- paz, amor, rock and roll e as viagens- sim, era tão bom mas nada ficou sabe pras gerações de hoje que nem sabem o que foi aquilo tudo- hoje no máximo ouvem nas raves uns DJs tocando revivals remixados dos sons daquele tempo diluídos nesses batuques tribais essa coisa coletiva engolindo as individualides- ah! as dores dos desencontros cantadas nos blues eternos, o choro de um sax perdido numas noites de ontem, riffs de guitarra chorando dilaceradas histórias de amor doidas viagens psicodélicas pelos desertos na voz de Morrison- tudo isso hoje é nada neste tempo de batuque coletivo-

Álbum
caderno cartonado onde se colocam fotos ou recortes de jornais


cadernos de viagem: outras eras, papéis descoloridos
pétalas de flores, cacos de louça, papoulas murchas
manchas de vinho e sangue, trechos de castaneda,
poemas de Dylan Thomas, palavras de burroughs,
velhas canções do roberto
e alucinações dos beatles:
penny Lane, eleanor,
Sgt peppers e lucy, ah, aquela no céu
com diamantes e fogo derrandando sonhos
e ressecando pesadelos gelationosos

cadernos de viagens: anos sessenta, setenta,
anos oitenta
pó de estrada, restos de yoga,
lenços sujos, lágrimas salgadas,
partidas, partidas, partidas,
cabelos em dealinho:
elefantes rosa, rosas carnívoras,
cabeças pulsantes
veias e viagens
loucos cadernos de non sense
Zen:
budismo, nudismo, luas
luas luas e girassóis
girando gôndolas na noite escura
brilhos matinais devassando as noites
ancestrais:

cadernos de viagem, álbuns,
rosas secass, flores mortas,
lendas, rumos,
cacos, caos e casos
muito desfeito
mitos mortos
outros tempos.
...são apenas álbuns. cadernos velhos. descorados
descoladas idéias
de quem nem se sabe mais:

era setembro, acho, e ainda não havia chegado a chuva. nem sei que ano era.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

de:liriums


imagem: Jnarin/flickr

solidão- sólida como pedra
rocha voadora que veio se abater aqui,
no meio do meu coração
branca como parede de cal soprando ausências:

A solidão é uma parede branca
Caiada de ausências
Que germinam no corpo
Rememorando dores:
Tudo o que podia ter sido.
Não foi.
É uma ária de Bach
Adejando os ares
Num stradivarius
Sem ouvintes:
Antes, o corpo dançava
Ao som de estrelas
E os lençóis amassados
Eram nosso presente
De natal.
Hoje, não más marcas
Nos panos ou no pescoço
Beijos, flores mortas,
Murtas secas, no jardim:
A solidão é uma parede caiada
Branca de ausências
Onde a luz reflete
Promessas vãs:
A solidão.
vi
Porra, acho que deliro
em lírios mortos:
foda-se: estou vivo
tanto
do começo
ao fim
e tropeço
nas esquinas
de nós tudo, todos,
tantos,
imagem: sex bomb-lovepie
não te querer assim: sonhadora, romântica,
buscando alhures o que aqui não se encontra:
o sonho martelava idéias sobre a cabeça e o coração
enquanto o corpo apenas se jogava inteiro
naquele jogo de sedução avacalhado:
mão na mão olho no olho pele na pele
calor e tesão: um avanço, um recuo,
outras idas e vindas, lindas as palavras ditas
e os sussurros gemidos ao pé do ouvido gargantas secas bocas sedentas mordidas lambidas salivas lânguidas escorrendo pelos cantos

Colados
Calados
Selados
Suados
Su(surrados)
O corpo encontra outro corpo:
Porto inseguro
Augúrio do velho
Do mesmo tema:
Janela vedada
velada
A alma se guarda
Em qualquer redoma:
O corpo não: faz-se
e se refaz
Entre Dioniso e Eros
Erra quem busca
alguma coisa mais?

longe daqui, desta cama macia com lençóis brancos
e travesseiros cheirando a erva-cidreita
pairam os sonhos jogar-se sobre o leito e desfrutar a carne,
o desejo explodiindo, os corpos em êxtase, tudo tudo
e as palavras soltas ditas assim sem mais rodeios
muitomais que o te amo muito mais do que te adoro muito mais do que as pérolas de chuva
e do que as rosas vermelhas sobre a mesa muiito mais:
os sentidos e sua jornada noite adentro gozo gozo gozo corpos embolados enroscados: amor?
Não te querer assim, lírica, leve, mística,
rósea: te querer assim: crítica, cítrica,
inteira no seu torpor e no seu gozo múltiplo: amor?

Sob o cisne afoita,
leda cisma
enquanto frui
o instante:
será amor
a alquimia dos corpos
ou pura anarquia
do desejo?
ainda assim, quero ser todo
o estupor e todo o espanto
do que se faz novo
enquanto canto
o doce ofício do ócio
o osso dócil do ofídio
tanto mais doce
Porque inexistente.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

rosa rosa rosa


imagem: Zikii/ Flickr

rosa rosa rosa
símbolo do nada, do existir
no vácuo
címbazlo que retesa
cordas
que enfeza corpos
em desalinho
cítara
de sons angélicos
flutuando
nas coxas das moças
como beija-flores:
rosa
sem poesia,
em poesia
te vejo
e te pressinto
presente:
rosa rosa rasa flor:
ah, o frescor
da brisa e a brasa
dos amantes
tem a tua cor

terça-feira, 5 de outubro de 2010

uroboro

...quando acordou,
viu a cama desarrumada-
lençóis sujos, sangue derramado,
vinho tinto, nódoas,
camisinhas camicazes
noite sem rédeas:
isso foi ontem
hoje, de novo a solidão
essa que morde, implacável,
como a serpente mítica
...quando acordou,
viu a cama desarrumada-
como a serpente mítica

sábado, 2 de outubro de 2010

dramas?


imagem: flickr/Blentley

Cacos. Cacos.
Juntar casos e cacos
Cacarecos, coisas,
Meias verdades( em verdade,mais mentiras
Que verdades, que de tão ditas
E benditas, coisificaram-se
Em reais)
As toalhas brancas
Nos banheiros
Sempre brancas e alvejadas
(as manchas, as manchas,
onde as manchas de tanta
Vida?)
As xícaras pares na cozinha
Camisola e pijama cheirando
A naftalina
E os barulhos, os rumores,
Os molejos e murmúrios
Os gritos, os gozos,
Os estares
E os esgares nos rostos
Quando a dor era maior
E galopante...
Juntar cacos. Cacarecos.
(coisas antigas, palavras em desuso
Copos em decúbito
Dorsal, era ssim, que se amavam
Rosas abraancas,vermelhas, bruscas,
Buscas que se perderam
Em frestas de janelas
E descaminhos de lençóis.
Cacos não se colam.se colados
Não encaixam as reentrâncias:
Drama
De fim do amor.
...

( deixa esses dramas, menina, que não te levam a nada olha a vida é breve é sopro é luz que já se apaga ao primeiro sinal do crepúsculo: observa
lá fora, tem passarinhos cantando
tem barulho de tamancos pelo corredor
tem crianças pelos corrimões
de escadas
tem tomates vermelhos brilhando em cima da pia
da cozinha
esperando ser decepados
para te alimentar.
olha, qwue beleza de cantos de bichos
água correndo das torneiras, beijos escorrendo das bocas,lábios
beiços fartos foirtes dentes mordendo as iscas os peixes
que se ajuntam nos aquários e nem sabem dos rios ou do mar
peixes, mesmo assim, felizes em suas memórias
instantaneas.
olha, menina, dramas vem e vão, amores idem, amores se acabam
e começam, até que o amor derradeiro
aconteça e ele é um só: esse sim, é um só
e quando chega o c oração se acalma
o corpo se entrega
e tudo se aclara.
dramas, fins de casos, roupas sujas,
rasghos de memória,
força, fraqueza, lindezas e enfeiamentos,
tudo isso é nada:
joga fora
essas canções de dor, esses romancesw suados,
esses livros desfolhados
esses lirios deflorados
esse sexo dolorido:
joga fora
e olha lá fora:
tem sol, tem luz,
tem gente que busca, tem vozes,
tem bichos]
e tudo quer ser verdade
e ser mais leve:
dramas-
embrulhe-os em papel de pão
e jogue na correnteza:
a água vai te lavar).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

dondinha



FIM

é o fim. começa pelo fim.
Fim de uma história de amor que durou mais de 16 anos. Exatos dezesseis anos 4 meses e 20 dias.
Um caso de amor a cinco.
E que acabou assim. Final feliz? Infeliz?
Não sei, afinal, o que é felicidade, o que pode ser infelicidade, o que pode ser?
Só sei que acabou e a gente não consegue se conformar com a ausência que a morte traz. Não. Não há paz nessa passagem, nesssa transição. Há apenas dor.
E saudades muitas. Doídas. Tristes.
...quando ela chegou em minha casa, há exatos 16 anos 4 meses e 20 dias, que terminaram em agosto, vinte, era apenas um bebê. Pequenina, fui buscá-la na casa de um amigo, e sua cama era uma caixa vazia de sapatos- de tanto que era pequeninha...
Linda, de cor amarronzada, meio castanha, meus filhos logo a batizaram de Madona – acho que pela evidência da cantora pop.
Ela chegou de mansinho e foi tomando conta da gente. Do nome madona derivaram diversos outros nomes e ela atendia por todos: Donda, dondinha, nina, nininha, nonoca, donda Maria,e inúmeros outros que iam surgindo ao longo do tempo de convívio com aquela criatura tão mansa, tão dócil, tão nossa companheira...
E ela foi crescendo, junto com meus filhos, que na época tinham 8 anos- e a gente nem percebia que a idade dela era muito maior do que a dos filhos-
O tempo ia passando e a gente sempre cuidando, cuidando, amando aquela criatura como mais uma filha- a menina que não existia na casa- pois somos 3 homens - que a mãe precisava cuidar.
Donda foi sempre uma ótima companhia e companheira. Daquelas que sabiam quando iamos viajar, ficava rondando as malas até que saíssemos- e, claro, sempre deixávamos alguém tomando conta dela- que era limpinha, não sujava a casa, esperava sempre a hora de descer para os passeios.
Quando voltavamos, que hora fosse, ela estava sempre alerta, esperando nossa volta...
No dia a dia, era sempre uma festa... andava conosco por todo o apartamento, rodeava-nos o dia inteiro,e, se estavamos doentes, plantava-se ao pé da cama, parece que queria cuidar da gente... raramente adoecia, e gostava de passear, de correr nos gramados, se bem que sempre a deixava de coleira e guia, pois uma vez fugira da mesa do pet-shop onde havia ido tomar vacina e banho, e ninguém a achava- até que eu, de carro, a vi, amarrada a um poste perto de um restaurante, que alguém, de bom coração, prendera, para evitar que fugisse ou, quem sabe, para levá-la. Desci do carro e a peguei, nem falei com ninguém- e ela, coitadinha, morta de sede e fome, pulando no meu colo...
Daquele dia em diante, donda nunca mais saía de casa se antes não comesse um pouco de sua ração que ficava à disposição no pratinho...
Todas as nossas histórias e ações envolviam a madona- tudo que fazíamos, ela estava no nosso meio... comemorações, aniversários, dias de pais e mães, de crianças, natais, anos-novos, carnavais, lá estava ela, ao nosso lado, em nossas fotos, em nossas vidas, como nossa filha, posso e ouso dizer-
Era linda, era mansa, era conhecida em toda a quadra- e todas as ciranças brincavam com ela, passavam a mão em sua cabecinha, ela nunca brigava com ninguém, a não ser com a cachorra de uma vizinha nossa, de nome Ofélia, por causa de ciumes...
quando ela era pequenina, minha mulher pegou essa Ofélia no colo, na vista dela, e ela nunca mais esqueceu essa rival... quando ela passava na rua, eu morando no quinto andar, da varanda sentia o cheiro da outra e só faltava se jogar lá embaixo, para atacar... quando se encontravam, então, era uma loucura: tinhamos que segurá-la se não saía briga...
Fora isso, era alegria só...
Foi uma história bonita, cheia de sentimentos e saudades de tantos momentos especiais...
De repente...( ASSIM, a gente nem percebe) os filhos cresceram, tornaram-se adultos, formaram-se, nós envelhecemos) ela ia ficando velhinha também... mas sempre com muita saúde, muita disposição, a gente creditava isso à sua mania de gostar de comer frutas, até manga a danada chupava, e de tudo que comiamos, ela sempre recebia seus pedaços, fosse carnes, frutas pães ou queijos.
E dos almoços nos restaurantes, sempre vinham seus pedaços, que ela já esperava, sabendo que iamos comer fora...
Quando vinha dos banhos no pet shop chegava linda..com lacinhos no pescoço, cheirosa, se bem que detestava os cheiros dos perfumes...
É, linda história, mas o tempo insistiu em passar. E pesar em nossos corpos, em nossas mentes, assim como no corpo dela...
Começou a enxergar pouco, a ter o faro reduzido e a audição comprometida, mas continuava ainda a descer com a gente para os passeios, a comer de tudo, a estar sempre acordada à noite, esperando os meninos chegarem da rua, assim como eu faço, todos os finais de semana...
E passou a gostar de ficar sempre atrás da porta da cozinha, como que vigilante, como se esperasse a qualquer momento a hora da partida... sabe-se lá - e ali ficava, a noite inteira, até que eu fosse à cozinha e a mandasse para sua caminha, aí ela ia e só acordava no outro dia, muito tarde...
Passou a não mais agüentar para fazer xixi e cocô na rua- e sujava a cozinha e se sujava e levava bronca e corria para sua caminha a se esconder, coitadinha, com medo das nossas reações...
E foi passando o tempo- assim, como quem não quer nada e vai levando tudo- e a gente sempre naquela expectativa, naquele saber que um dia ele a levaria embora, assim como um dia ele a trouxe para nós...

O início do fim

Foi numa terça feira, dezessete de agosto. Quando chego em casa à noite, encontro-a deitadinha no chão, dentro do quarto da empregada, quieta, muito quieta, suja de cocô e apática- muito mais do que antes, muito mais do que das outras vezes... não quis se levantar, não quis sair comigo, ficou lá, paradinha,parece que sofria, sofria, eu sei hoje...
...mais tarde, levantei-me de madrugada para tirá-la de lá e a coloquei na área de serviço, mais arejada, mais espaçosa...e ela veio carregada, pois não queria se levantar...
De noite ganiu, sofria, eu sei. Sabia também, naquele dia...
...de manhã, levei-a à veterinária que ultimamente vinha cuidando dela... examinou-a, e quando a peguei para colocar na mesa de exame, ela gemia de dor... e disse-me que aquilo parecia problemas de barriga- medicou-a com analgésico, receitou outro remedio e água de coco, para reidratação... mas a partir dquqle momento nininha havia trancado a mandíbula- que não abria nem ao máximo esforço que eu fazia- parecia adivinhar...
Ficou assim todo o resto do dia, sem água, sem ração, não queria nada, e eu tinha que enfiar sua cabecinha na água para molhar um pouco pois ela não queria engolir nada...
Fui obrigado, à noite, a levá-la a uma clinica 24 horas, para que fosse internada e colocada no soro...
O veterinário examinou-a, olhou, preocupou-se com tumores de mama e pediu eames de sangue, que foram feitos e que não trouxeram noticias animadoras...
Sexta de manhã, fui vê-la... ela havia melhorado um pouquinhoe consegui levantar sua cabeça e ela nos olhou, e aquela, meu Deus, foi a última vez que nos viu...
De noite, quando eu ia de novo visitá-la, pensando em trazê-la para casa, o telefone toca, mais ou menos às 8 da noite, com a noticia fatal: Dondinha havia morrido, às sete e quarenta, segundo o veterinario de uma parada cardíaca enquanto era medicada- disse que foi amolecendo, e se entregando...
Quando ele me deu essa notica, desabei junto com ela... minha mulher, meus filhos, ninguém sabia o que fazer...
Saímos correndo para lá, todos nós, e eu nem sabia se ia agüentar vê-la morta, em em cima de uma mesa...
Mas mesmo assim, fui, entrei e quando a vi, ali, coitadinha, imóvel, com as patinhas de lado e os olhinhos abertos, desmanchei-em choro e em soluços...
Sou assim, fraco diante da morte daqueles que amo...
Todos somos assim, eu sei.,

Início

Este texto não tem pretensões literárias. Nem veleidades intelectuais. É muito mais um preito. Um pranto. Um grito entalado na garganta. É um canto, na verdade um uivo. Um grito de dor
dor da perda, tristeza da seiva cortada, da força que se esvai,
é uma homenagem a esse bicho, muito mais que gente, esta cachorrinha que conviveu conosco e nos ensinou tantas coisas, muitas coisas: o amor incondicional, a lealdade, o sempre estar pronta, a felicidade..
Ah! A felicidade... existe? Sei lá...
Só sei que partiu mais um pedaço meu com essa criatura, que se foi, com certeza, para um céu de bichos...
Com asas, em vez de patas e de cauda.
Vai, Dondinha, madona, nonoca,
Nininha, vai e leva um pedaço nosso junto...
Até um dia, quem sabe...
Sua cara, seus barulhos, nossos momentos não se vão: são e serão para sempre
instantâneos em nossas memórias.

sábado, 25 de setembro de 2010

uns cantares

i - para(fraseando) nina

..o objeto da minha lírica
telúrica
mora
no meio do peito
mora
dentro da cabeça
mora
no meio de pernas
e eu não me amor/daço
e declaro,
em bom som:
..foda-se o bom-mocismo, caralho
quero-me falo
quero-me fala
lingua e pensamento
penetrando inteira:
poços, fendas,
declives e despenhadeiros
quero respirar o ar
rarefeito
mais que perfeito
destas cordilheiras.


ii - para mercedes

horizonde:
onde
há aortas abertas?
há cadeias a romper?
horizondes
onde o vermelho das grades
tarjas pretas
conclamam ao sono lento
sono lerdo:
grades de ver-me-lhas
contra o concreto
secreto e rude:
onde horizontes
que ainda suportem
o peso dos meus sonhos?


iii - azul-
para nydia bonetti


ensaio um gesto mínimo
e, menino,
de novo ergo meu braço
num abraço
e num gesto extravagante
toco o céu:
um hiato de luz.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

pra te comer melhor ii

pra te comer melhor
invento andares outros
pra te seduzir
erijo ereções
orações e andores
pra te incensar
e me incendiar
em teu sacrossanto
cortejo
te cortejo
em ardores e arroubos
juvenis
de dias mais verdes
vede: sou de novo poeta
e cometo versos
e conjugo verbos
exconjuro anátemas
e juro mentiras
só prá te sentir
neste pedaço de mim
entre braços e pernas
entrepernas
tuas pernas lindas
longas graças garças
flutuantes.
me invento assim
e te reinvento
em cada verso que escrevo
em cada linha,
em cada poema que pen-duro
a cada manhã nos varais:
uns quereres.
cada vez muito mais.

soma ii

somos
aqueles que se perderam nas estradas engasgadas de fumaça
de caminhões e de restos de rastros deixados para trás
nos piqueniques
e das orgias dos sedentos que não se contentam com pouco nem com aquilo que a vida
diz que é bastante,

somos
os que se deixaram ficar à margem dos caminhos enquanto as árvores
cresciam, enquanto as pedras
se multiplicavam,
e as luas mudavam nos céus
cor de chumbo ou de avelãs
nas tardes e manhãs avermelhadas
quando os outros iam, a passos rápidos
tomar os táxis, os metrôs, os ônibus,
engolindo fumaça, devorando as idéias,
destroçando os passantes,
pisando os insetos
arrancando asas dos anjos
e os cabelos das horas
buscando o inacessível
sonho(?)


somos
pedaços dos que ficaram, estraçalhados,
nos estilhaços e campo das batallhas
ensangüentados feito pássaros
em abatedouros
enquanto tocavam os clarins, fechavam-se as tendas,
faziam-se as lendas e
mulheres dormiam o sono dos injustos
vetustos generais
nunca mais:

somos
os que insistem em vera vida
pelas frestas da utopia
onde vicejam verdes, vede:
somos apenas paoeira
e a vida não pertence aos incautos.

mas somos. soma de todos os homens
e mulheres do mundo. e nossa
é a herança do universo.

domingo, 12 de setembro de 2010

comecomecome


imagem: nancee-art/flickr

comecomecome
come pessoa,
come pound,
come bandeira
come quintana e poe
come come come
come whitman
come joyce
come fellini
come
devora versos inteiros
dos poemas de ovidio
das eneidas de virgilio
dos amantes de Verona
shake shake shake
os willians
dvora
toda a iconoclastia
a putaria dos versos
fesceninos
e os mergulhos uterinos
de lautreamont
de bataille
de drummond
e faz uma sopa
uma papa
ou se quiser
o creme de la creme:
vomita tudo
Regurgita todas
as secreções
e aí restará
um poema novo:
levelivrelivro
um impulso elétrico
a percorrer a espinha
e a queimar na veia.
na veia

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

lilith


imagem: simplifica/flickr


cria de sangue e saliva
viva expressão
da Mulher carne,
plena de sonho e desejo
dona do seu beijo
e da sua nua
caverna lunar.
o contrário de Eva
mas também inicio:
do cio, do gosto
do sal e do mel
na boca e na pele:
as viagens pelo tempo
não a curvaram,
antes, a curaram ,
como vinho raro.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

cisco


imagem: kaoticsnow/Flickr

para dondinha

pois a vida é risco
na parede branca do universo
singularissimo plural.
é cisco
no olho visionário do verso:
vestal
a vida é surto
é susto
é um curto respiro:
suspiro entre atos

*
Viver-
breve hiato
entre o mergulho
e o salto.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

salto


imagem: MarcoiE/flickr

a poesia disse não
aos homens de palha
em clausuras de castelos:
-sou pássaro, sou asas,
sou vento
e não me apetecem
brilhos
irreais-
A poesia disse não
E se atirou no vácuo
Buscando, sabe-se o que.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

caballitos de mar


imagem: antonio fernández/flickr

Los caballitos de mar
flutuam, esguios e ágeis
etéreos,
em sua insignificância:
observo-os
e impávido
junto cacos,crostas,
cascas,
partes perdidas
pixels acinzentados
para me recompor
e flutuar como eles:
poemas vida
Saltos no azul.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010


imagem: Hello Lovely/Flickr

para te comer melhor, ensaio gestos- exatos, insensatos insetos que mexem na libido,
escalo paredes, qualquer parada,rappeis, pasteis de carne de segunda nas segundas feiras das feiras livres

livros devoro,
como as palavras buscando as inexatas

as dúbias, as corriqueiras,
as prenhes de sentidos,
parindo vômitos seculares
de novas promessas:

para te comer melhor invento ventos do norte, do sul, invento vozesque sopram em teus ouvidos as carícias sórdidas de quem não tem medidas métricas ou ressonâncias
imaginéticas:

teus ouvidos são meu público
meu púbico apelo
tuas orelhas são:
mãos, pés, coxas, bunda, peitos,
meu campo de cavalgadas.

para te comer melhor eu me desdobro em outros tantos

cantos
heteronômios quatro
cavaleiros líricos
do apocalipse
buscando o gral:

qual é a tua, meu amor,
como te ganho
neste emaranhado de promessas
e premissas
vãs
de paraísos nada naturais?

para te comer melhor me entrego todo, corpo a corpo arco e flecha água e ventania
em teu desejo quente:

para te comer melhor eu sou poeta e poeto letras e palavras lúbricas em tua lingua solta
presa na minha:
tudo, tudo, tudos,
só pra te.
só prá.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

sem


imagem: flickr/L.

juntar cacos pedaços
estilhaços
partes
ligar
sentidos
retalhados
num tour de force
com a dor

**

colcha
de retalhos
patchworks assimétricos
de sangue vísceras
será a cara desse poema:

refazimento

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

entreato


imagem: jonhy/flickr

disfarço-me
e me desfaço
no falso vão
que ficou
entre o que fui
e o que sou
...
por isso, o difícil
ofício
de escrever
[buscando o um)...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

rotas


ouvivendo ia
as batidas três na porta
no telhado eram
lentas suaves
eram goles de angusturas
e licores
exóticos quando
as batidas cresceram
se avolumaram
sólidas como pedras arrebentando
as portas
irrompendo rio a dentro
do peito oco
eram: bum clash pow
estourando tímpanos eu
não esperava ninguém estava
lendo kerouac e devorando Cecília
e gudino kieffer para te comer
melhor e fiquei ali estatelado
estrelado ovo como
uma papa: supor o suor já era muito e eu
não entendi: àquelas horas mortas
mortos descansam nus cemitérios
e porque então aquelas batidas zueirando minha porta
louca desvairada cabeça ouvivendo ainda muiiito mais potentes
os gritos der penadas os uivos de lobos
os roncos das máquinas na rota 51
kerouac muito louco atraviesando visões no meio do caminho
tinha muitas tantas tontas pedras
montanhas
que a fé nem removia...
de repente clamei santa Cecília santo gudino são kerouac
livrai-nos do mar de soslidões
destes pesadelos sóliquidos
se liquefaendo nossas cabeças
são Edgar.allan Poe
são Blake e seus tristes tigres
rondai por nós
e de repente: shhhhhhhhhhhhhh
silêncio profundo
de profundis
cuores:
não mais batidas não mais atabaques
não mais tambores nada:
só asas de aboboroletas
farfalhar de pássaros
e tudo tudos
mudos
na paz.
Eu e kerouac e Cecília
E gudino e Allan Poe
E Blake
Cirandando na roda
Inflorerescendo
Faiscantes caracorais.
shhhhhhhhhhhhhhhhh...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

affair


pois a palavra e eu
eu e a palavra
temos um caso de amor:
eu a acaricio no cio
ou a repudio
e ela me dá o troco
sumindo no vácuo, em fumaça
e eu fico assim: inerte, bobo,
e a palavra me tripudia
de dia e de noite
me nega o seu contato:
De bocas, caras,
coxas, bundas
e peitos
e corações
e não me embala,
nem se embola em mim:
é o fim?
não, é somente a semente
da dúvida, que me reconstrói
(dói!)
como vinho novo
de vindimas frescas:
eu e a palavra
temos um caso antigo
de amor, à primeira e última vistas:
ela me acolhe, eu a embaralho
e lambo e sugo sua língua:
e não morremos à míngua
pois a poesia singra
nossas vidas, como sangue
vivo.
na veia.

sábado, 24 de julho de 2010

meta


imagem: flickr/iragerich

consumar-te
consumir-me
em tua chama:
comungar-me
conjugando-te
os sentidos:
meta.

domingo, 11 de julho de 2010

toques


imagem: flickr/gaf.arq

e este celular que não toca
árias eletrônicas
de bach
e esta música que não toca
nem me toca mais
quando o vento soprava
em teus cabelos, presos
em minha boca
e tua lua mão, que não me toca
nem se intromete
atrevida
entre minhas pernas bambas
e esta música, este celular, esta cerveja morna
e esse vinho tinto de segunda derramado
sangue sobre a mesa
over the rainbow
talvez exista um lugar
mas aqui não:
nada toca, nem se toca,
nem me toca
nem me toco
a música embotada dos sentidos
me sinto assim,
sem trilhas ou filigranas:
ô tempo estéril, meu deus!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

sessenta


imagem: darwin Bell/flickr

sessenta.
às vezes, pedras
que nos acuam. às vezes
pedras, que dinamitamos
com flores.sim, há flores
também, no meio dos caminhos
que se abrem, ainda,em curvas
e bandeiras.
e sonhos insistem e azulam
o horizonte, como penas
perdidas
do pássaro da juventude.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

porrada


imagem: giovanni spina/flickr


e só te querer,assim:
porto inseguro
de mim
onde desembarco
riscos, chuvas,
e rabiscos
onde me aventuro
ao tropeço
e à queda-
e me reinvento
a cada porrada.

terça-feira, 15 de junho de 2010

insano


imagem: funky64/flickr


insano, aceno
aos quatro cantos
do meu corpo
e às curvas do teu.
ateu, me descreio
e não descrevo metas
nem rezas
laudamus te, rosa!
-calma! clama a alma
áurea clara, a aspergir
aromas de incensos:
-chega! brada a musa
brava, envolta em luzes
- olha em volta
e se recolha :
a poesia não é presa
fácil
e não se dá assim, sem
mais nem menos:
ela sangra
e só se deixa entrever
em entrelinhas
em estrelinhas azuis:
Sorvê-la
é possuir cometas
raros
é frutificar o vento
é navegar em mares
nunca dantes.
insano, me ofereço
e não recolho arestas
nem aparo farpas:
cadê essa poesia
cadê essa musa indócil
essa mulher difícil
que não cede aos meus
apelos?

a musa se esconde, insana,
atrevida e lânguida
em suas próprias curvas
e meneios:
dobra os joelhos,
abre os braços
e as pernas
e me diz:
e daí?
já achou
o caminho das pedras
e dos brilhos de fogo?
então,
venha me se queimar.

sábado, 12 de junho de 2010

obsceno


imagem: arkano3/flickr

ou não?
fazemo-nos obscenos
soltando os bichos
e sacando a cena:
acenos, assanhos,
sinos assassinos
e badalos bêbados:
acenos obscenos
nos trazem gentes
que só querem tudo
a nada remando:
obscenos
plenos de bordejos
pintamos e bordamos
nas camas e fora delas
as flores, as flores virão
em seu momento exato:
antes, os olhos, as bocas,
peitos, coxas e bundas
são nossos arautos
rumo à plenitude:
Ddpois, a mansidão
os lírios e os poemas
sujos ou não.
Ou não?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

contra as luzes


imagem: tanakawho/flickr

a noite afoita corre
contra as luzes da cidade
e insiste
em se esfregar
em camas vazias.em buracos negros.
em cantos escuros. em escadas sujas.
em lençóis de traças.

a noite corre, contra o neon
e os luzires
das vagaluzes que piscam
no coração da treva.
uma falsa noite brilha
intensa
com brilhos de diamantes
ofuscados
pelos vícios.

e as gentes
se jogam,. se estragam
ao som de ondas
de solidão e desespero.
anônimos, se entregam
à muralha inconcebível
dez mil decibéis:
zanzam, zoam, rodopiam
zangões irados
moscas tontas-fartas
de tanta luz:

às vezes, tropeçam,
caem,
rompem o caos
contra as luzes
que se afastam
fatais
rumo ao nada.

a noite corre, fatídica
contra as luzes lilazes
de prazeres
contra copos que se cruzam
contra os corpos
nus
crus em seu exílio
buscando o porto
inexistente
nos bares,
nas casas,
nos catres
e catracas.

mas tudo isso é o nada.
que lhes resta viver.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

no colo de mãe


imagem: joan bowe/flickr

,anda mãe- canta prá mim aquela musguinha que pai cantava quando ainda estava vivo..
E o menino encostava a cabeça no colo de mãe, se ajeitava( nos olhos, as águas borbulhavam: eram lágrimas, querendo fluir, romper o dique das emoções de criança que já havia tido contato com a morte e que sofrera, sofrera com muita antecedência as dores do mundo)
-qual, filho? Eram tantas musguinhas que pai cantava...
-aquela mãe, do balão,sabe qual?
-sei sim, filhote- claro que sei ( e aí, são mais olhos querendo esconder águas represadas: mãe se lembra do pai, companheiro de tantas horas, de tantos tatos, companheiro de anos muitos, que morrera deixando-a com filhos a criar, pequenos, outros grandes, a saudade muito maior ainda, mas ela não pode chorar agora, só depois, no seu quarto, na sua cama que outro homem não m ais compartilhara).

“balão custa dinheiro,
Dinheiro custa a ganhar,
Arreda papai, arreda mamãe,
Deixa o meu balão passar”


A voz de mãe soa suave, ecoa nos móveis, colore as paredes brancas, e o menino vê os balões de são João rodopiando no quarto, como pipas acesas em luz e cor, e tenta agarrá-los pela rabiola, tenta viajar neles, para longe dali, para um país de faz-de-conta, uma terra de espelhos onde pai tá, eu sei, pai tá lá, rindo prá mim e cantando esta cantiga que mãe agora repete, sua voz suave e mansa penetrando os ouvidos, trazendo a paz do sono, e o menino, entre a vigília e o sono, ainda repete:

- balão passa, né pai?

Era sempre assim que terminava a cantiga perdida no tempo, quando o menino retruca a musguinha do pai com esse refrão infantil, onde sem querer já estava adivinhando o destino das coisas, das gentes e do mundo: passa, tudo passa, tudo tem seu ciclo e a gente não se acostuma com isso.
O menino dorme,colo de mãe é porto seguro, sonho com pai do outro lado, entoando cantigas antigas, lembranças, e ele penetra emm outros mundos: mas, ai, o mundo é só esse aqui, na real, pai já se foi e não existe mais aqui.
Mãe , agora com as águas escorrendo pelo rosto ainda jovem, lembra de outros tempos- parece que faz tanto tempo, quando os meninos todos eram ainda pequenos, quando a vida apesar de tudo era uma festa, quando todos se juntavam na mesa, para comer qualquer coisa que tivesse, quando a alegria ainda tava ali, presente- antes da morte de pai, antes de os outros filhos crescerem, antes de tudo, antes do mundo. Mãe sonha com sua juventude, com sua época de moça, em que conquistara pai com um sorriso maroto e aqueles olhares que só ela sabia olhar: mãe era noiva, ia casar com outro, e poucos dias antes decidiu mudar seu destino: largou o outro na igreja, e foi namorar com pai: era época de guerra e pai tinha que se alistar- então se casaram assim, no vaptvupt, e ela nunca foi tão feliz: pai era poeta,, amava os passarinhos e as palavras, contava estórias enquanto levava a vida adiante...

-mãe, acordei- tava sonhando com pai... queria ouvir mais uma musguinha que ele fez prá mim..
-são tantas, filho... escolhe uma:
-quero aquela, dos porquinhos, sabe ela, mãe?
Sei filho, sei todas as musguinhas que seu pai cantava prá vocês:
E a voz ecoa novamente, lenta, suave. Melódica, enchendo o quarto de uma nostalgia lírica, os olhos do menino atravessando os olhos de mãe, buscando encontrar ali os olhos de pai que ele tanto amou como tanto ama sua mãe:

“o porquim chinês
O porquim ladrão
O porquim dourado
Foi-se embora
Pro sertão”


Ecos, ecos na noite longa que se aproxima, e o menino se imagina o cuidador dos porquinhos, que se aventuram pelos sertões da memória- que abandonam seu chiqueiro, sua fazenda, sua mãe e se jogam no mundo atrás da felicidade, da felicidade? Porquins procuram a felicidade?
Porquins sabem o que é felicidade?

O que é felicidade?
Palavras tantas, tontas,
Idéias que se repetem
Ideais que se buscam:
Há o amor- ah, o amor..
Outra vertente da vida
Em que nos apoiamos:
Buscamos, buscamos, e dizemos
Eu te amo- uma, mil,,
Miljhões, zilhões de vezes
Enquanto beijamos bocas,
Enquanto buscamos sexo,
Enquanto limpamos lágrimas,
Enquanto rimos, pacíficos,
Enquanto lutamos, pérfidos,
Contra quem nos deixou:
Amor, amor, amor,
Somos o amor:
?
A felicidade, o tronco seco
Da dourada árvore
De sonhos idem:
?


Mas mãe não sabe disso, nem o menino:
Eles estão ali, naquela cadeira de balanço, um no colo do outro, um nos olhos do outro, um no coração do outro, e viajam, cada um na sua, rumo ao desconhecido: todas as emoções, todos os medos, todos os sentimentos, nenhuma palavra, nenhuma poesia traduz aquilo: aquilo é intraduzível...

-oi, pai, acorda pai, tá sonhando ou tendo pesadelo? Tá roncando, tá se virando aí no sofá, olha tô saindo prá uma festa, só volto de manhã- me faz uma massagem aqui nas costas? Tô com uma dor danada nos ombros...

E o pai acorda, assustado- tinha viajado no tempo- esse pai menino de ontem, sonhando com o pai que se fora e com a mãe jovem, que o ninava nos tempos perdidos no tempo, com as antigas cantigas do pai.
E enquanto massageia as costas do filho vai cantando, em silêncio, as musguinhas de pai, e no final, ainda repete, em voz alta, prá espanto do filho:

-“balão passa, né pai?”

domingo, 30 de maio de 2010

janelas

ela. ele.
a janela
pós tempestade.
a lua
clarear caminhos
adivinhar carinhos.
mas a mão
já não
se lembra do gesto
do gosto
do outro. E o embate entre eros e tanatos absorve os corpos.

pós tempestades
ciclones interiores
não mordem a isca
não se rendem à lua
e seus apelos.
No teto, mimam os gatos, a tanatos indiferentes
em seus balés barulhentos.

a lua a chuva a lua
a mão fria, na luva,olhos foscos, corpos frouxos
e os caminhos
a se perder de vista
na vastidão.

ele. ela.
quantas janelas abertas
para a imensidão?
mas eles já não.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

intraduzíveis


imagem: Jonno Witts/flickr

um

finda
a folha afunda
na fenda
veios e traços:
nada mais.vento
ou clorofila
osmoses
overdejares
A folha morta



dois

pela rua,em
rdemoinho
rola
junto a tantos entrulhos
a caixa de sanduiche:
papel,tinta, cores,
gordura, restos, organismos
vivos, retorcendo-se em dores
e descasos.
foi ontem árvore. pigmento
subtraído à terra
foi ser vivente, devora-me
ou te devoro.
a caixa rola, resto amassado
rumo ao nada.

dois poemas de Olina D.

eco da palavra

o dom da palavra

o som
das muralhas que se dobram
ao poder da voz:
a língua, o toque, o torque
no corpo, o sabor acre e doce
o lírico lírio
a verter vertigens
em pupilas e púbis:
a língua
iridescente poema
indecente
a desenhar desejos
pressentidos
nas madrugadas insones.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

des palavras

Subverter o sentido das palavras
Dar-lhes asas
Para que voem segundo
Seus próprios desejos
E como
Num indicionário
Desdizer as coisas
E dar-lhes novos nomes
Brincanteiras
Brincrianças
Num jogo
Onde amor não é amor
e pode
Ser amor romã aroma
De amora
E felicidade feliz
Cidade idade ida
Ou vindas asas
E rezas
prorosas
Úteros úberes
Leite esbanjado
De tetas plenas
De ocio criador.

Dar cor às palavras
E matizar os verbos
E sujeitos
À chuvas e tempestades
E trilogiar sentidos
E ser azulvermelhoroxoamarelo
Ipês paineiras flamboyants
Primaverando luzes
E luzindo
Conceitos.

Dar cheiro às palavras
De mato, de bosta de boi,
De trilha no meio do nada
Cheiro de Passarim voando
Solto
Cheiro de cama desfeita
De corpos lavados
A lavanda
Cheiros de beeijos
Nas varaandas
Cheiros.

Dar toque às palavras
Truques, tiques
E torques:
Tua mão em minha pele
Tua pele em meus dedos
Teus dedos em meus
Cabelos
Teus cabelos em meus
Lábios
Lábia de amantes:
A palavra é o toque
Na toca dos sentidos.

Dar voz às palavras
E decifrar-lhes as carnes
E destrinchar-lhes os nervos
E descamar em camas
Seus dúbios sentidos
Em poemas lúdicos
Sórdidos
Sólidos bólidos
Arremetidos ao léu
Ao céu
Como pontes poentes
De sóis caracóis
Cornucópias ácidas
De sonhos antigos.

Dar ouvidos às palavras:
Soar como címbalos
Símbolos noturnos:
Ouvir passarinhos
E meninos cantando
Nas antinoites antigas
tinta nas paredes
Brancas de cal:
As marcas das moscas
Que morreram a tapas
Zumbem em meus cabelos
E são pura poesia
Que se solidifica em versos
Tijolos líricos
Tabletes elétricos
De poesia tônica:

Ah- as palavras
E sua fome árida
De escrever bandeiras
Em entrelinhas dentes

Subverter as palavras
É indicionarizá-las
Em novas idéias
Que não se traduzem:
É incitar momentos
De poesia plena
Do brilho de sol na folha
Tecendo urdiduras
E filigranas múltiplas
Em tecidos de sonho.

Palavras:
Pérolas impares
No diadema dos dias
Que a ostra
Ainda não inventou.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

apenas as pedras


imagem: Robert in Toronto

as pedras choram
lágrimas de séculos
e se recolhem
às suas entranhas.
seus veios minerais
recolhem impressões
e calcificam saudades:

..estive aqui
joão ama maria
turma de 1950
voltamos um dia...


as pedras cantam
canções finitas
minadas pelo tempo
mimadas na memória
o tempo ecoa
nos salões gelados
estalactites brancas
e pontiagudas
apontando ao céu
E ao chão:
a memória canta
cantos de solidão:

...naquele tempo a gente era feliz
e nem havia tempo:era um suceder
de horas quentes, ritmo
alucinado
e sonhos engendrados
no varal das noites
de toda estação.

...estivemos aqui.
nestas muralhas
de rochas gravamos
a canivete
nosso momento feliz.
mil novecentos e cinqüenta e cinco.
mil novecentos e sesenta e oito
mil novecentos e sessenta e tantos.


mil.mil.mil.
dois mil e não se lê o resto
ou os rostos
dilapidados,atordoados
encalacrados na pedra:
sentimentos rupestres
que a água não leva
e a pedra consente
e conserva em âmbar:
prehistórias.

as pedras falam: sim,
a linguagem singular
do diamante e carbono
do opaco sentido do humano
e suas contradições:
brilho e obscuridade
têmpera fria do aço
e têmpora anêmica
que grava,crava
na pedra, suas sensações.

a poesia se instaura,
sorrateira
nesses ideogramas:
painel alucinado
do rude sentido
faiscando na pedra:
cacos, nacos de sonhos,
De tempos resgatados,
dos lembrares
bricabraques coloridos
de tantos tempos:

ah! painéis de areia e vento
cadernos de viagem
poemas rabiscados
a giz, grafite , a sangue,
em pedra, papel, ou pele:
somos todos assim.
imersos em nós e os outros
são os outros.

amamos..?
navegamos à deriva
em mares interiores
em sargaços infindáveis
e nos sonhamos eternos.

mas não somos.
apenas
as pedras são.
em seus retiros minerais
imemoriais.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

torquateando


imagem: dariuszka/flickr

Torquateando a fogo
afago,
e afogo coro dos contentes
ateando fogo às vestes
engulo o veneno das vespas
e das vestais
Que auguram paz.

Torquateanas
loucalúcidas
bocas túrgidas
que beijam o caos
E trepam
com o infinito:
que sensações buscadas
nas estranhas entranhas
das entrelinhas
te trouxeram
o asco da existência?

Torquateando
incendeio estrelas
e escancaro sóis
obscuros, nas trilhas
dos caracóis:
não chore, baby,
a vida é assim:
É fim.

Ensaio
no trono dos tolos
atirando tijolo e pedra
nos costados dos navios
pavios
para o inconsciente.

Cogito.Existo.Resisto
e insisto no caminho
ainda e apesar.
Torquateando fogo
na mesmice
e flertando,
obliquamente
com o caos e anarquia
absorvo metáforas
absolvo metástases
e respiro palavras
na busca do sentido.


um mínimo cantanárquico para o poeta destoante do coro dos contentes.

domingo, 9 de maio de 2010

desquadrilhares


imagem: chatirygirl/flickr

,e em desquadrilhas
João amava Maria
Que pensava que amava Rita
Que tinha tesão no Paulo
Que se amarrava no Pedro
Que não amava e nem se amava
E era só sexo, só sexo,
Só sexo
E que desfez o círculo viciado
Dos corpos suados
Que não amavam ninguém.

...amor, palavra em desterro, palavra travada, palavra tatuada em tanta pele e descorada em tantos corações-almas-cérebros-sei lá eu...

Amor, palavra degradada, degredada,enjaulada,
palavra desgastada por uma pá de sentidos,
por um falta enorme de sentidos,
por desmedidas no uso ,
mas ainda palavra que toca,que tesa, que reza,
que seduz, que fere, que afugenta,
que apazigua, que machuca, que entontece,
que acontece,
palavra que acende e transcende, amor...

-Amorin, tu me amas?
Clamava lânguida uma amante lúbrica
Enquanto tirava do amado a última gota
De suor e de porra
Enquanto
Sugava língua e pele
Poros e banhada em prantos
Se entregava ao jogo
Ao fogo do corpo
Perdido, na cama,
Entre os lençóis...
-te amo, te amo, te amo
-quanto me amas, amorin?
-É assim do tamanho do mundo
É como o brilho da estrela antiga
Que explodiu
E ainda brilha...


E os olhos da amada luscofuscam
E se embriaga de ócio
E se desmancha em prazer
Do corpo a corpo.

...Não te conheço a alma, meu amor ,
Meu amor?

A amada dorme,
feliz e descansada
E sua alma é um oásis
É um paraíso perdido
Território inacessível
Inescrutável a qualquer olhar.
Resta o corpo, a carne,
Que se contorce ao toque,de novo
O desejo,
O abraço,o enlace,
O gozo.
A alma, não me capturem
Em qualquer máquina:
A alma se preserva, solitária,
Em solilóquios ubíquos,

quinta-feira, 29 de abril de 2010

sagrado


imagem: net efekt/flickr

A folha alva
Sagrada seja
sangrada seiva
Singra de desejo
De ver a palavra
Em ranhuras
E sulcos vivos
Transformar sua carne
Sua pele branca
Em coisa viva:

Arauto de versos
E de verbos prenhes
o poema convexo
se curva,se amolda,
se estende, em repouso,
como pouso de pássaro
voando num céu claro
em closes de brigadeiro
azul:

é mágico o despertar
da consciência
e sua revelação:

é lúdico
o ato de escrever
e embaralhar
signos e hieroglifos
como seres fantásticos,
como grifos
gritos e sussurros
como sopro
da divindade
em nosso ouvido.

Os pulmões exalam ar
Que tocam cordas
Que vibram carnes
E a palavra se faz.
E a mão afoita
Transforma voz em objeto
E a folha de papel
Sangra sulcos
Em sua carne branca
exprimindo o êxtase
desse coito
ininterrupto.

domingo, 25 de abril de 2010

deriva


imagem: g eniac/flickr

À míngua
É como me sinto
Quando assento
O olhar
Em tua fresca beleza
À deriva
É como me vejo
Quando cedo
E navego
Em teu olhar cerejado
E serenados cabelos.
Quando mordo teus olhos
E me vejo em tua boca
Eu me queimo, poesia,
E me diluo em ti
Como palavra inventada
Como ritmo e coisa
Outra
Que corta a respiração.
E ofego
E cego
A lua dança,líquida,
Na ponta da minha língua.
Lualualuar
Luau de maio
Prenúncio de alvuras
na hora nua.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

língua


imagem: geekr/flickr

língua
languida lâmina
destilando
verbos e versos
língua
lúdica e lúbrica
desenhando geometrias
nas bocas vorazes
em geografias
de estrelas
no céu do palato.
língua
longa viagem
no dorso do corpo
e no hiato dos poemas
minha, sua, nossa,
língua mãe
babel:
jorrando sentidos
por vias tortas
rosa que se desfolha
extase.

domingo, 18 de abril de 2010

moradas


imagem: h d c/flickr


Esfinge enigmática
Debruço-me
Sobre ti e sobre mim
E qual pensador de Rodin
Não vislumbro amanhã
que arde,apenas me indecifro
e te desconheço
a cada vez que toco
o rubi da tua boca
e o az-sul de tua Iris.
Somos todos teoremas
Somos o todo teorema
Inconcluso
E no escuro
Empreendemos viagens
Vorazes, nos vórtices
De nossas mentes
Buscando o caminho
Desse axioma :
O que é a vida
Essa mão que nos cinge
A cintura
Como uma faixa de gaze
Que pode se esgarçar,
A qualquer tempo?

...um dia chegou o anjo. O anjo. Assim chamavam aquela figura estranha que invadiu casa e vidas, sem pedir licença, sem cerimônia, o anjo exterminador que chegou buscando redimir vidas, alterar vidas, fazer renascer em cada um daqueles quatro a chama apagada- a mesmice, o mormaço, a modorra, a masmorra, impropérios e infortúnios, tudo deveria ficar para trás quando o anjo tocasse os corpos e as almas e quando soasse o toque da trombeta todos sairiam de suas cavernas e como fenixes alçariam vôos novos, mas...

O anjo exterminador não se deu conta de sua intro/missão em meandros complexos das esfinges, que nem a si próprias se decifravam- e dessa promiscuidade não se gerou a rosa cálida ou a luz da utopia- apenas os seres se perderam, junto como o anjo- esse ser apavorado com suas asas caídas, penas despencando pelos ombros, lágrimas humanas em rosto indefinido, chorando pelos cordeiros imolados...

Ei, tá muito trágico – e nem é assim no mundo pós-moderno- tá muito anos sessenta aquela coisa do Pasolini antes de descobrir a alegria da vida em suas celebrações do amor – somos muito mais aquele anjo que chega light, só no sapatinho, e se instala, sorrateiro, no coração e na cama dos desavisados- e que de sobra sai pras baladas, dança., apronta, e mostra que a vida não é só drama- é drama, mas é comédia e mistério

Mas mesmo assim, lá no fundo de nossa alma ainda aguardamos essa figura mística-mítica-física- alguém que venha nos tirar da letargia e nos trazer motivos-

Prá não dizer que não falhei
Se flores capaz
Decifra o outro mistério
Que se debruça sobre ti
Com seus casulos obtusos
Seus dedos agudos
E seu sangue jorrando
A plenos pulmões.
Somos todos teoremas
Inconclusos,
Todos tanta incógnita
Em estradas tantas.

Decifra-nos
Ou te devoramos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

até


imagem: swamibu/flickr

de alma em punho
me exponho
a ventos e tempestades:
sem amarras
a felicidade
é uma alma quente?

meus sonhos
largos por demais
se comprimiram
na estreiteza do caminho
meu corpo
livre demais
rompeu-se em partes
suspensas nos despenhadeiros
e rochedos
meus medos
poucos demais
se avolumaram
na medida dos caminhos
e dos caninos
deixados,nos escaninhos
da memória:
minha história
sua história
vidas: o que é a vida?

...sabe, meu amor, há tanto tempo eu não .olhava dentro do seu olho que me desacostumei da idéia do verde do teu olhar atirando lanças ao meu: lanças de fogo, jogo de sedução, a menina dos teu olhos piscando branca brinca ainda em minha mente de tantos e taantos anos atrás e a gente corrria e caminhava e parava e sentava e ria e ria e a vida era uma infância só plena, bela, grande demais para a nossa meninice sem mesmice sem masmorras sem mordaças- éramos assim e a brincadeira era uma só: menino e menina no meio da roda e a gente não era santo nem nada mas era bom ser criança e de repente os anos se pasaram: ah, esse danado do tempo que vem e vai e vai levando tudo feito águas revoltas sem pontes para o lado de lá- da maturidade- nossos corações não acompnham essa velocidadee com que nossos corpos arreferecem- nossa mente nos arremete cada vez mais e mais buscando sonhos mas os sonhos se atolaram no lamaçal dos caminhos, esgarçaram-se na estreiteza das estradas, nossos sonhos ficaram e nós passamos e mesmo assim a gente está aqui, vivos, vibrantes, ainda somos lindos e nossos corações não se empedraram, pois fomos abençoados pela santa luz da poesia: ah, a poesia, este estado que não se define mas que nos mantém alertas abertos ao te3mpo: a poesia, esta arma quente que nos faz expor a alma, a brincar de palavras, a desmontar verbos e versos e nos traz o prazer das revelações- a descoberta daquele poema antigo, daquela palavra mágica, e, além disso, a descoberta do outro olhar sobre o outro- ah, meu amor, que bom olhar no teu olhar verde arremessando promessas e primícias sobre o meu olhar- você sabe, são tantos anos, são tantos planos, tantos panos(indianos, você se lembra dos sessenta?) e tanto incenso e non-sense e tanta falta de senso, tanta viagem- meu amor, mas tudo vale tudo tudo é vida que se aprende e se desprende de nós-

sei que andamos muito. a estrada
nem sempre limpa, nem sempre linda,
a vidaa, nem semepre amena,
ou serena,
muita pedra, muito espinho
camimnhamos juntos
buscando aquele sonho:
o de estar juntos,
de ver juntos,
de ouvir juntos
Uma manhã nascendo.
é amor?
não sei, spó sei que é bom
ser assim: e insistir
romper caminhos estreitos
desafiar o decoro
das decentes
mentes dormentes
e caminhar, com você,
até onde o passo alcançar.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

precipicios


imagem: larry sión/flickr

...precipício das coisas
é o princípio de nós
somos apenas asas
(não pássaros)
e engendramos
voos imaginários
aos paraísos
vislumbrados
nos delírios noturnos.

inexato, me guardo
no hiato
entre a flecha
e o arco
entre o mergulho
e o salto.

impreciso
me busco
no turvo da água
sob os véus de isis.

inexato
me atiro ao alvo
seta cega
rompendo a carne
e antevendo a queda
no...

domingo, 4 de abril de 2010

ainda


imagem: gisela giardino/flickr

hoje amanheci poeta e sei
meu verso é cru,
é avesso
não há lucidez na dor.
nem calma no romper de laços:
não te quero assim
sonhadora, romântica,
buscando alhures
o que aqui não se encontra:
as doze tulipas vermelhas
:adeus
a poesia fere,corta,
machuca,retalha
e sua luz iridescente
Me atropela pele e poros
Eu,pecador, absoluto em meu pecado,
todo poderoso construtor dos meus desvarios,
confesso-me a mim:
do nada vim
Tudo é nada
O nada que me reveste
Ao querer ser tudo.
A paisagem se desdobra à minha frente
feita de brilhos e barulhos matinais
Nada demais. Nada mais.
Hesito em soltar os monstros
Ou deixá-los dormir
Nestas mansas tardes outonais.

domingo, 28 de março de 2010

bicho


imagem: flickr/play4smee

pois é, hoje acordei assim:
meio prosa, meia-prosa
meio poesia
meio porra-nenhuma
completamente cansado
te tanta palavra gasta,
de tanta estrela de brilho barato
no céu da internet
internei-me em mim
e busco outras paradas:
ando cansado
de tanto canto engendrado,
gestado
E não deglutido:
ninguém devora palavras
Nem extrai delas seu sumo,
seiva da criação.
é tudo muito fastfood,
ninguém tem tempo
pro barato zen
de sobra, tudo soçobra
num mar de sargaços esgarçados
Desgarrados,
tudo é uma massa só
tanta pós-modernidade,
tanta arte
conceito
tem conserto tanta gente
querendo brilhar, como
meta
cometas deixando rastros
de luz, num universo pop-castrado
de tantos tontos?
..ando sem saco
prá tanto auê
e prefiro colo
de mãe-natureza
ouvindo pio de pássaro
canto de sapo
seguindo rastro de cobra
e botes de onça:
tem muito silêncio lá
e brilho também tem muito
de sol, de lua, de água(às vezes limpa)
sem nostalgia:
a poesia está lá: nos bichos
e nas coisas
que a gente não via mais.

quinta-feira, 25 de março de 2010

mofados

pode chorar, criança
gritar e berrar:
os monstros existem
e vivem, em cada dobra do tapete,
na sombra do abajur
e na claridade da luz:
não, não se vão com o dia
nem com as rezas de mãe
e a braveza de pai:
quando muito, se vão para o porão
e se escondem nos armários
mofados de entulho:

domingo, 21 de março de 2010

sobresombras


imagem; lain alexander/flickr

Sou um poeta barroco
e pendo
entre céus e infernos
entre verões e invernos.
Navego
cego
no brilho opaco do olho.
Colho flores do espírito
nos jardins do Eden
e frutos sensoriais
nos rastros da serpente.

Sou barroco
e me entrego
aos prazeres do corpo
buscando saciar a alma
que derrapa, inconseqüente
entre o quente da carne
e a calma da chama
que arde, eterna.

É terno meu caminhar
mas são volúveis meus passos
que passam
às vezes lentos
às vezes tensos
entre vicios e virtudes
entre luzes e sombras
numa zona cinzenta
de idéias indefinidas.

Oscilo
entre o vazio e o pleno
entre o puro e o obsceno.
Aceno
ao ubíquo
e ao ambíguo
desejo obliquo.
Divago
entre a superfície e o fundo
entre o agudo e o obtuso.
Intruso
indecifro-me
no âmago da escuridão
buscando as imensidões
da sombra e da luz.
Sou paz, sou pus
componho-me e decomponho-me
numa antítese imperfeita.

Em um mundo óbvio
sem mitos e metáforas
sou palavra em transe
transmutando-me
em multiplicidades.

Sou um anjo torto
de asa quebrada
e sorriso morto
sem norte, sem porto.

Sou anjo barroco
que sobreviveu
às intempéries
e que busca um caminho
um destino num mundo
onde anjos já não tem vez
nem voz.

sábado, 20 de março de 2010

impermanencia


imagem- doctor swam/flickr

Sou poeta.
E por ser poeta
canto
a leveza do fardo,
a beleza do cardo
do mar
do fogo-fátuo
que exala formas no ar.

E canto enquanto vivo.
Canto a beleza do instante
mutante,
inconstante,
do incessante vir a ser.
Canto o transitório
e o transe dos amantes
lapidados diamantes:
canto os laços desfeitos
e os liames que virão.

Não gozo gozos aflitos
nem sofro horrores.
Sou calmo. Sorvo pranas,
sou zen,
sou sem destino
no mundo.

Por isto tudo é que canto.
A canção sem fim.
Canto canções
da transitória permanência,
essências de vertigens
e caminho rumo ao novo,
ao velho,
ao novo
romper do ovo,
buscando transcendências
e inconfidências
contidas em corpos e almas
para confundir as mentes.

Por isso, canto.
A beleza do verso,
a fúria do verso,
a flor do cume
e o lírio do lodo,
o tudo e o todo,
o inútil e o passageiro.

Amanhã, na manhã,
Posso ser nódoa
que fica
na folha de papel.
Mas não importa.
Enquanto vivo,
canto,
e teimo
em buscar o céu.

cântico para cecilia meirelles e walt whitman

quinta-feira, 18 de março de 2010

transa


imagem: jef safi/flickr

e a palavra em transe
deixa-se possuir
pelo espírito da poesia:
doce epifania.

terça-feira, 16 de março de 2010

zen


imagem: aurelio.asiain/flickr


O silencio roça sua língua
na minha: busco o entendimento
que não atinjo na fala:
os sons se esgotaram
restaram os barulhos
que não são marulhos matinais:
por isso, o silêncio me ronda
e me rendo aos seus apelos:
seus sons me remetem ao ermo
do meu coração
que levita,zen,
em suas sendas.

sábado, 13 de março de 2010

inóspito


imagem: jjjohn~/flickr

Canto I

A palavra se cala
estupefata
diante da putrefata
crueza da morte
que assola os sentidos.

A palavra cora
envergonhada
diante da tinta
da fúria
que assola
e tinge o cenário.

Canto II


Terra devastada
em que se digladiam
irmãos de sangue
em mãos cruzadas
morrem os homens
apagam-se os sonhos
gotejando sangue
coquetéis vermelhos
gosmentos,
grudentos,
sangue novo
sangue antigo,
sangue cíclico
na terra devastada
nos desertos erráticos
longe dos oásis
e das calmarias
longe dos jacintos
e dos lilazes
de abril
só tenazes
apertando as gargantas
tantas.

Escorrem mundos
pelos dedos
pelos medos,
pelos becos,
pelas bocas correm escarros
escamas de sangue: bombas
da paz, explodem
sôfregas, trôpegas,
a morte
sorrindo, insidiosa,
sedenta, e o diabo
que se veste de cordeiro
esbanja escárnios.

E o sangue corre, escorre,
Explodem corpos e ossos
Se esfarelam:
É o sonho da paz
Que volta ao pó.
É a sanha do ser
Que não se entende
em nome de deus.
É destino ou desatino
Essa insensatez?

Canto III

A terra devastada
apenas observa
com olhos enevoados
e choram as pedras
e se empedram os cantos
e secam os cântaros
por perdas, por danos
e pela dor dos homens
que ficam
a espiar horizontes
com olhos caninos.

E o mar, ao fundo,
em seu azul de safira
sugere a paz:

Que paz?


cânticos para T.S.Eliot e seu poema "The Waste Land"

quinta-feira, 11 de março de 2010

fábula


imagem: c@rljones/flickr

,pois os cavalos,
em seu ímpeto de liberdade
dispararam pelos campos
como bólidos brancos,
negros
e amarelos
perfumados de crinas
e campinas
narinas ardendo
aos ventos.
e pararam, extasiados,
junto ao rio, de águas limpas
e de sedes extintas
e se inclinaram
diante de tanta beleza
e de tanta luz.

,e lá de cima, dos páramos,
observavam o vale, demolido,
cinza, desprovido
de sinais
de qualquer vida:
e viram
vagavam por lá estranhas criaturas
que deviam temer o sol
e a claridade
pois viviam
em buracos escuros.

,e os cavalos dispararam
de volta
aos seus campos
plenos de sol
e lua.

sábado, 6 de março de 2010

poeminha pornô


imagem: Mille Miu/Flickr

arranca-me o medo
estanca-me o olhar cego,
cante uma canção dos beatles
ou das beatas
das velhas igrejas mineiras:
amarre em meu tornozelo
fitas do senhor do bonfim
e me afogue em cheiros
de banhos
nesta noite
olha o diamante no céu:
é uma lua
parindo gotas de chuva
em drops de anis
azulmarinho quase escuro
e os céus despencam chocolate
e morangos- shake shake shake
shakes pearls- sonetos e romeus
julietas e as cores de verona:
ah, as cores do amor:
cante, baby, canções antigas
de ninar velhos meninos
e me deixe sugar teu peito,
engolir teu umbigo
e me enrodilhar no teu colo:
a noite é dia é noite é dia
e eu tô tão sozinho
e a dor dói tanto-
ah- em que esquinas
eu perdi meus sonhos?

vamos nos agigantar
nas mais doidas versões
de kamasutras
e descascar nossas almas
e epidermes
até o âmago
até o amargo
do início
vamos nos embriagar
de álcool e de promessas
vãs:
ando esquecendo seu nome
meu nome
mas seu corpo me lembra
a juventude.

vamos como num filme pornô
gozar ou fingir o gozo
não importa:
o que nos resta
é o desnudar
de nossas almas.

terça-feira, 2 de março de 2010

a palavra e eu - ii


imagem: Luiz Baltar/flickr

pois a palavra e eu
eu e a palavra
temos um caso de amor:
eu a acaricio no cio
ou a repudio
e ela me dá o troco
sumindo no vácuo, em fumaça
e eu fico assim: inerte, bobo,
e a palavra me tripudia
de dia e de noite
me nega o seu contato:
De bocas, caras,
coxas, bundas
e peitos
e corações
e não me embala,
nem se embola em mim:
é o fim?
não, é somente a semente
da dúvida, que me reconstrói
(dói!)
como vinho novo
de vindimas frescas:
eu e a palavra
temos um caso antigo
de amor, à primeira e última vistas:
ela me acolhe, eu a embaralho
e lambo e sugo sua língua:
e não morremos à míngua
pois a poesia singra
nossas vidas, como sangue
vivo.
na veia.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

voz


imagem: levanta la voz- flickr/Daquella manera

pra adriana godoy

e o verbo se fez voz
e habitou entre nós.
voz:
foz de rios interiores
que nos faz
mós de moinhos
catapultas de ventos
cataventos
sonhando precipícios
aos quatro ventos.

voz.
música da palavra
escava em nós
nós cegos e desatados:
e mesmo sós
encadeamos cantos
sonoras explosões
de unos sentidos.

voz.
foz e estuário
santuário
veludo e uivo
sussurro e grito
da poesia
da palavra
tornada livre.