quinta-feira, 19 de novembro de 2009

corpacorpo

imagem: sex bomb/flickr-ilovepie

não te querer assim: sonhadora, romântica, buscando alhures o que aqui não se encontra: o sonho martelava idéias sobre a cabeça e o coração enquanto o corpo apenas se jogava inteiro naquele jaogo de sedução avacalhado: mão na mão olho no olho pele na pele calor e tesão: um avanço, um recuo, outras idas e vindas, lindas as palavras ditas e os sussurros gemidos ao pé do ouvido gargantas secas bocas sedentas mordidas lambidas salivas lânguidas escorrendo pelos cantos sumos o corpo em explosão busca o saciar-se o engendrar-se o fundir-se:

Colado
Calado
Selado
Suado
Su (surrado)
O corpo encontra outro corpo:
Porto inseguro
Augúrio do velho
Do mesmo tema:
Janela vedada
velada
A alma se guarda
Em qualquer redoma:
O corpo não: faz-se
e se refaz
Entre Dioniso e Eros
Erra quem busca
alguma coisa mais?

longe daqui, desta cama macia com lençóis brancos e travesseiros cheirando a erva-cidreita pairam os sonhos: sonhos românticos dos poetas cor-de-rosa que queriam e não queriam estar aqui assim num tempo assim nesta empreitada doce e imaginada: amar a amada,assim, sem mais conversas, jogar-se sobrre o leito e desfrutar a carne, o desejo explodiindo, os corpos em êxtase, tudo tudo e as palavras soltas ditas assim sem mais rodeios muitomais que o te amo muito mais do que te adoro muito mais do que as pérolas de chuva e do que as rosas vermelhas sobre a mesa muiito mais: os sentidos e sua jornada noite adentro gozo gozo gozo corpos embolados enroscados: amor?
Não te querer assim, lírica, leve, mística, rósea: te querer assim: crítica, cítrica, inteira no seu torpor e no seu gozo múltiplo: amor?

Sob o cisne afoita,
leda cisma
enquanto frui
o instante:
será amor
a alquimia dos corpos
ou pura anarquia
do desejo?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

doze tulipas

tulips, red - jcolman/flickr

as doze tulipas vermelhas brilhavam no vaso sobre a mesa: ainda estavam frescas, vieram de Amsterdã eu mesmo trouxe na minha bagagem de mão no gelo só pra você sentir a energia e a beleza dessas flores- e eu fico olhando essas tulipas tão vermelhas e tão brilhantes gotas de água ainda pairam sobre suas pétalas e o sol atravessando as folhas dão ainda mais realce a este brilho sim que bonitas estão as tulipas... a energia irradiada não atinge no entanto seu objetivo pois ela eu nós estamos todos muito down- não sei se o efeito estufa se o calor maluco deste verão não sei se o cansaço das coisas o descompasso da vida não sei se os momentos que viemos- nada me diz nada, não sei para que serve tanta beleza essas flores vermelhas doze sobre a mesa doze místicos corações atravessados por setas de dúvidas doze míticos heróis atarantados querendo lutar contra um mal que se vê mas que não se vê um mal de almas e de mentes um mal enraizado um mal estar que não se corrige- esses homens de hoje nós e nosso tempo- um tempo em que se insiste em matar a poesia e calar os poetas e dizem pra quê? Pra quê tanta palavra tonta tenta outras tintas fala do real dos tiros dos atabaques das balas perdidas das minas gostosas se jogando ao vento fala do sexo que é bombombom- não sei pra quê tanta poesia esse tempo nublado não combina pra quê falar de bicho do mato de flor que perfuma de pores de sóis e de luas cheias brancas flutuando sobre nossas cabeças é só a lua é só mais um no céu céu ah que céu estrelado lindo essa via láctea se derramando sobre nós esse sentimento queimando no peito epa! Olha a poesia se infiltrando disparando seus dardos não sei se vou resistir a estas belas doze tulipas vermelhas brilhantes sobre a mesa... sim, sei que elas vão secar, murchar, apodrecer e enfim virar pó- sei, mas é assim: a vida é assim, assim é a poesia- o sentimento do perene e do efêmero. E quando nos dissermos relaxa meu bem é só sexo o que nos une lá no fundo sabemos que não: há qualquer coisa no ar.

há pétalas que antecedem o caos
há petalas que sobrevivem ao caos
há pétalas que fenecem no caos.
o homem não.

sábado, 14 de novembro de 2009

ps

foto: unscripted post scriptum/ flickr/patrizia ferri


:a deus

há deus?
adeus..

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

poecacto

foto: cactus/flickr/L Lemos

a poesia fere,corta,
machuca,retalha,
dói e estraçalha.
mas guarda em si
a seiva
a água fresca
que mata a sede do poeta
nos desertos estéreis.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

iv


foto: neurone de mer - allaletre(like a foll on the hill)/flickr

pois a luz iridescente da poesia
Me atropela pele e poros:sou
Pura síntese, osmose
De cromakey
Antítese do velho:
Cristais de quebrar
Safiras & esmeraldas
a poesia
Deflagra em mim
Ultrajes e lambidas
Êxtase
Eu te quero, poesia,
Avassaladora em mim
É pra ti que canto
Estes cantos
crus
e insensatos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

fábula


foto: fruit and fly - shioshvilli/flickr

Pois eu danço
E bebo e canto
Até que brusca mão
Me espanta.
(William Blake – A Mosca
)


Eu,pecador, absoluto em meu pecado, todo poderoso construtor dos meus desvarios, confesso-me a mim. Persigno-me, persigo-me, prossigo nesta impossível impassível jornada, trama indecifrável. Eu, pecador, crivado pelas setas e espinhos da dúvida, indivíduo no mundo, persigo meu sonho. E meu sonho intromete-se em minha vigília, soltando no ar os seres que povoam minha mente.

...Assim estava, assim pensava ele, abandonado ao tépido calor daquele vinho, naquele fim de tarde, jogado sobre a poltrona, quase a dormir, naquele profundo retalhar de coisas antigas, de crenças antigas, naquele ato de dissecar as próprias dúvidas, a própria vida.
De repente, ouve um zumbido e o barulho de vida próximo a ele. É uma mosca, que ronda o ar, ao redor da fruteira. Ali estão as peras, que adormecem e apodrecem seu marasmo , lassidão, solidão e abandono. A menos que uma mão faminta tome-as, levando-as à boca para saciar a fome, elas ali permanecerão, eternamente em seu marasmo, apodrecendo.
Ele observa a mosca, que zumbindo em círculos aproxima-se da fruteira. E se admira ao ver seu vôo bonito, concêntrico, o brilho refletido em suas asas azuis quando o sol rebate nelas diretamente. Acompanhando com o olhar vê quando ela, finalmente, pousa sobre as frutas. Como que magnetizado, sente-se penetrar na realidade daquele inseto, que agora passeia sobre a superfície dourada da pêra; ele agora é a própria mosca e passeia sobre a fruta, sentindo toda a carícia do veludo sob as patas, a tepidez dourada provocando arrepio nos pelos.

Prepara-se para sugar todo o seu sumo, sua seiva. E exatamente quando começa a gozar as delícias de sua empreitada, desvia os olhos para cima, deparando-se com um magnífico azul violáceo , um sol que a convida a viagem rumo a outros ambientes. E ela imagina milhares e milhares de novos frutos, antecipando delícias de paraísos inimagináveis. E se divide: não sabe mais se se entrega ao doce ofício de sugar a seiva da dourada pêra ou se levanta vôo em busca de outras paragens. E se debate entre, e se confunde, não percebendo a pesada m~´ao de alguém que se abate sobre ela, que agora está tombada, inerte sobre a fruta.

... Quando sentiu a tragédia, voltou a ser ele próprio, sentindo as forças esgotarem-se nos estertores da morte. Novamente é ele o observador, e observa a cena: as peras continuam na fruteira, no mesmo lugar a mesa e a toalha, as flores, a sala, ele e seus olhos. Tudo permanece, como sempre, apenas a mosca está morta e já não faz mais parte do ambiente. E no entanto, nada mudou. Todo o conflito que viveu, todo o seu angustiante dividir-se, tudo é acabado. O mundo permanece, indiferente à sua morte, à sua queda. O seu pequeno mundo, feito de uma sala, de uma mesa e de uma fruteira cheia de peras, que continuam adormecidas, apodrecendo sua solidão e seu marasmo nas tardes quentes.

Silenciosamente, pé ante pé, como se cumprisse um ritual, ele se levanta e se aproxima da fruteira. Com a ponta dos dedos retira cuidadosamente o inseto, e sem uma sombra de qualquer sentimento no rosto, atira-o na cesta de lixo, seu último reduto.

Eu, pecador, absoluto em meu pecado, todo poderoso construtor dos meus desvarios, confesso-me a mim. E jogado sobre a poltrona, nestas tardes monótonas e quentes, pressinto e antecipo a queda da próxima mosca, e o ranger de dentes das peras, deixadas solitárias na fruteira.

Do Livro “ O DEVORADOR DE PALAVRAS” -Brasília, 1982

terça-feira, 27 de outubro de 2009

tu do nada

foto: wake up dead man- flickr/just.Luc

..tu do nada vieste
Tudo é nada
O nada de que te revestes
Ao querer ser tudo.
Tudotudotudo
Nada
Contra a correnteza:
O nada até te abisma
Por conter em si
O tudo
O totem
os tutti
quanti
rios vazios
vasos sem flores
e mares sem ondas
ou peixes.

O nada me assombra
Como sombra. Soçobram
Em mim
Suas tristes memórias.
Só me sobram
O medo e o enfado
esses fardos
Nesse fado.

Tu do nada vieste
Tu do pó surgiste:
Dedo em riste,
Corpo ereto,
Cavernoso, te eriges
À tua própria imagem
E desessemelhança:
És nada, entretanto,
E nenhum canto,
qualquer pranto,
nenhum mantra
Nem encanto
É capaz de salvar-te
Da tua condição:

Pó de estrelas
De luzes morrentes
Há quantos bilhões
De anos-luz?
Veste-te
De tua insignificância
E aproveita o tempo
Que te é dado viver:

Sorva a poesia
Como quem bebe água fresca
No deserto das idéias.
Pois...