quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

o oco do mundo


imagem: tetsuo the iron bird- flickr/

há um artefato na porta principal
há artefatos na porta lateral
nas velhas portas frontais
e secundárias
onde se esconde o oco
do mundo:
os artefatos ocultam teses
e riem de nossas crenças
de crianças impúberes e imberbes
que se pensam livres e leves
em meio ao caos:

estão aí, em todos
Os lugares
e o mundo gira e os augúrios medram
medos
nos corredores mudos
midas tocam tudo: querem ouro
ou seus simulacros:
memórias préhistóricas
nos causam asco:
o que é a vida?
O que é arbítrio?
O que é sonho
Senão matérias
De pura poesia?

Minha avó e as profecias

E estava escrito. E assim devia ser.
Que aquele menino iria carregar nos ombros opeso de mil gerações, o preço de mil pecados, iria carregar em suas costas o peso de vidas inteiras que se desviaram.
E eu ria gostosamente das lindas lendas, lendas da velha minha vó que me assutava às vezes nas noites de raios e trovões com suas profecias loucas e suas estórias alucinadas.
E vivia eu relativamente bem um burguês acomodado acostumado às coisas bodas da vida , geladeira televisão e amore que adorava literatura de vanguarda, cinema de arte bares da moda e vernissages.
Que dormia de dia e vivia de noite.
Um pequeno burguês pequenino, como tantos outros.
E vivia eu assim, confortavelmente feliz e acomodado, sem saber que o destino traça linhas incongruentes e inconcebíveis em nossos cérebros, sem saber que o destino tem algo de bestiologico, sem saber que não há lógica nos caminhos do mundo.
E vivia eu confortavelmente bem, sem me lembrar da velha minha vó, que tantos anos já havia passado desde suas estórias loucas e suas profecias fantásticas, que tantos anos já havia passado que a memória não conseguiu guardar.
E foi assim que naquele belo fim de noite eu senti apavorado e abestalhado( beatificado) as coisas me acontecerem..
Naquele lindo fim de noite de lua de uísque e de embalo foi que eu comecei a compreender as linhas invisíveis e incompreensíveis.
Eu caminhava de encontro ao descanso do corpo quaqndo senti a minha primeira punhalada.
A segunda punhalada. A terceira.
Senti o sangue ir escorrendo pela calçada, pela calça, o meu carro a poucos metros de mim, e eu sem poder ao menos alcançá-lo, e a sofrer a agonia das punhaladas pelas costas, as punhaladas que me penetravam até os ossos, e me faziam sofrer as piores dores imagináveis.
E meu carro a poucos metros de mim, a salvação a poucos metros de mim.
A vida, a poucos instantes de mim. E eu, me perdendo pouco a pouco.
Foram entretanto essas apenas as primeiras revelações. O sangue fez ao meu redor uma poça vermelha, e eu continuava no chão, sem compreender o porque, mas compreendendo que alguma coisa mais forte e mais verdadeira do que a minha verdade estava acontecdendo.
E foi nesse exato momento de reflexão que os pássaros desceram do céu com seus bicos de metal e suas asas de chamas vermelhas. E começarqam a bicar-me os olhos, queimar-me o corpo com o fogo suas asas.
Matavam-me, entoando hinos imcompreensiveis aos meus ouvidos.
Foi aí que eu penetrei naquela realidade suprarreal. me lembrei dos meus velhos tempos em que minha vó me contava as velhas profecias, e me contava que eu não era um menino comum.
Eu não morri. Fiquei vivo ali no chão, com o fogo, o aço, o sangue e os punhais.
Percebendo todo o horror proibido dos velhos tempos, eu vi:
Estavam se cumprindo as profecias.

belo horizonte -1978


sim, os portais estão cheios de signos
e os homens se persignam frente aos idolos
e se desmancham em lágrimas
em coitos afoitos
pelos quatro cantos:
entoam cânticos, revivem mitos
e se deixam abduzir
pela poeira de estrelas:

as canções de gesta, os romanceslíricos,
o amor idilico,
a lirica poética
tudo conspira, tudo inspira, tudo incita
e excita os homens.

que ainda patinham na lama
que ainda amargam
nas ruas
que ainda aspiram a rosas
tendo sangue nos dentes.

3 comentários:

Albuq disse...

Adorei o texto!

Adriana Godoy disse...

Danilo, que beleza de textos. Que riqueza, que doideira, que viagem. Sua avó e as profecias, um menino incomum que carregava o peso do mundo. Esse último poema tão doce e sangrento. Como gostei de ler isso agora, hoje. Parabéns, poeta, mais uma vez! beijos.

Lou Vilela disse...

Aqui, tudo ins.pira! Belas imagens, meu caro!

Abraços