segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

mais do mesmo (did u remember Zeppelin? )


foto: flickr/francisco(gifted)- por da lua (cheia)

Perguntas-me, meu amor,
porque caminho a esmo
sobre as trilhas
sobre as linhas
por que volteio
e por que sempre retorno
ao mesmo
velho tema
que teima em arder
no peito
no jeito, no pincelar
das palavras
com pincéis de cores
ora fortes
ora neutras
em que afloram os sentidos
e os sentimentos insones
desejos subterrâneos
buscando vir à luz.

Perguntas-me meu amor
que poemas são esses
de uma rima só
em que se repete,
indefinidamente,
a mesma velha cantiga
muda cena do poeta
que já não morre de amor
nem de cólera
ou de tuberculose
ou de overdose
morre-se de tédio
nestas tardes mornas
sem perspectivas
sem saídas
sem entradas
ou bandeiras
ou ideologias.

E eu penso no tempo:

lembras-te, meu amor,
como nos velhos tempos
ficávamos, horas a fio,
madrugada a dentro
lentos, calmos, plácidos
como as auroras
discutindo os poemas de amor
de Éluard, de Vinicius,
de verlaine
os êxtases de Tereza
e as múltiplas faces
das pessoas de Pessoa
em cujo país havia o Tejo
e o tédio
que se buscava matar
na tabacaria
e nas infindáveis odes
devaneios marítimos.
E olhávamos a lua, as luas,
quantas luas se passaram?
quantas cheias, minguantes
ou novas luas passaram
enquanto nós discutíamos
o amor na poesia
e os curtos poemas-concretos
Objetos
Abjetos
dejetos
dos surrealistas
e os líricos
telúricos cânticos
à humanidade
do irmão Whitman!

Ah! meu amor
contigo viajei
nas estradas dos sessenta
um poema na mão, a flor
na cabeça
e o sonho dirigindo
digerindo vidas
delineando a estrada
aos riffs sonoros das guitarras
e vozes rascantes
de ídolos
que tinham pés de barro.

Perguntas-me, meu amor,
quanto tempo, tanto tempo
se foi e a ainda canção
continua a mesma?
Quantas luas, quantas quedas,
tantas pedras
quantos precipícios
quantos inícios
tantas flores mortas,
estradas tortas
sonhos desfeitos
e a canção ainda
é a mesma?

E eu te digo, meu amor,
é a mesma canção
que nos embala
como bebês-mandala
girando na roda
do véu de Maia:
o tempo passa,
o tempo não passa
o tempo desfia
a meada do novelo
desafia a memória
e se reconstrói
como fênix.

Por isso, os poemas
a busca pela palavra
e por sua magia
pelo seu poder
de luz
que seduz
e se traduz
em versos, urdidos pelo tempo,
que pairam, depois de lidos,
como imagens de um universo
paralelo
onde pairam
bandos bêbados de poetas:
bêbados de beleza
bêbados de encantamento
bêbados, contemplando,
os novos bêbados
de poesia
que se entregam
ao doce ofício
De sugar das palavras
todas possibilidades
que pulsam, entre céus
e infernos,
eternas,
ao alcance daqueles
que souberem mergulhar
Em seus cânions
nervos, carne
e sangue:
o verbo que se faz
carne.

3 comentários:

nydia bonetti disse...

"sugar das palavras
todas possibilidades" eis o desafio. Doce... Mesmo que seja apenas pra não morrer de tédio.
Bárbaro, Dan!
Abraços
Nydia

fernando disse...

uau!

a boca entre
aberta
a espera que alguma
bendita maldita
salive
alivie
o espanto
de saber
que a poesia
pode
tanto

e ainda
assim falar de amor...

que maravilha!

evoé, meu poetamano!

saudades de ti...

compulsão diária disse...

Li no over..mas aqui a poesia fez mais. Lindo demais! Esse tempo dilatado nos versos, no sexo,,e a imagem é perfeita.
Grande Dan Mestre Dan