quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

TRIPTICO

I
MANHÃ

Cristais de quartzo
refletem, no espelho
a luz em cacos
e se repetem,
em mosaicos
sobre corpos nus
de amantes lassos.

Neste lapso de tempo,
nesta fresta,
nesta fenda de espaço,
neste passo lento, tento
instantâneo,
congelar o momento,
gravar o instante
de brilho raro.

Busco o fio inconsciente
e inconstante, me teço
em tramas, em trêmulos gestos,
em dramas, em inúteis gostos:
o nada
o tudo,
mudo me encontro
perdido, no encanto
desta manhã iluminada.

II

TARDE

Arde a tarde
sem alarde.
Um mar de
esmeralda
desfralda franjas
e escarpas
por onde escapa
num curto segundo
a espuma branca
lembrança
de eternidades
de ir, de vir,
de ir, de rir.

Num céu tonto de azul
vagam gaivotas
grávidas de luz
ávidas de sol.

E na linha do horizonte
dançam trêmulas
memórias enclausuradas
em conchas de caracóis:
memórias: matéria de sonhos,
de luas, de sóis.

III

NOITE

No negrume
o lume se insurge.
Negra noite
açoite
de verbos, de versos.
Corpos ardendo, vagando à deriva
em planos, oceanos
nunca dantes
navegados.

Negra noite
negra fonte
onde amantes se deitam
em pares
ou ímpares
os únicos pairam
insípidos, afoitos
sobre a própria carne,
cerne das delícias.

Noite,
como escrava
escava memórias
revela histórias,
revolve lembranças.
Revólver na noite
revolver a vida
e num único ruído
romper a corrente.

Flui a noite,
como emblema
dos corações empedrados.
Noite. Caverna dos medos,
dos modos, dos mudos
amantes
e dos desesperados
seres solitários.

Um comentário:

Pavitra disse...

e na tríptica jornada do ser
amanhecemos
entardecemos e anoitecemos...
e quando olhamos para tudo
com o sentimento
aí fazemos parte dessa poesia...

e a sua poesia é lindíssima!