quarta-feira, 13 de abril de 2011

cheiros



imagem: sundaymay/flickr

que os cheiros me invadem as lembranças isso eu sei
há muito tempo. cheiros de domingos antigos,
ternos brancos, roupas limpas, rosas brancas
margaridas ao longo dos caminhos, aquelas de árvores
que só dão na roça. roçam em mim arbustos verdes pequenos pés de urtigas
que na minha infância se chamavam cansansão
e eu ficava pensando em sansão e nos cabelos fortes e compridos
e em dalilas dançando na minha imaginação. os cheiros suaves de meninas se lavando
nas cachaoeiras os pés lindos e morenos dançando na água e nós ali escondidos vendo os corpos desnudos gozando as delícias das águas
os refluxos das águas e nós ali escondidos e nossos fluxos
de sangue nas veias de porra nas mãos molhadas os gozos
os estertores e as meninas nem sabiam que gozávamos com elas aquelas delicias
de banhos ocultos
e quando éramos nós, os meninos, se banhando ali os cheiros
cítricos os cheiros eram as mesmas
sacanagens
mas as meninas eram recatadas e se escondiam
muito mais
os cheiros sempre me dominaram: cheiros acres, ácidos,
cheiros fétidos de mortos em seus caixões
que se desmanchavam em flores
que se misturavam aos cheiros das visitas
dos suores
de mijo das privadas sujas
das casas pobres
e os mortos ali: descansando
e fedendo, até que fossem levados
ao seu fim.
cheiros são senhas prá mim: da infância guardo
o cheiro das maçãs- aquelas que vinham embrulhadas
naquele papel azul, de seda perfumada, e que o pai
trazia, de longe dizia ele, de vez em quando
por que eram caras: não essas maçãs de hoje,
esparramadas nas gôndolas dos supermercados,
sem cheiros, sem apelos: maçãs antigas,
que cheiravam a pomares, a delícias
proibidas
de reinos distantes.
os cheiros me conduzem
e puxam
os fios das memórias:
primeiros beijos, cheiros de bocas
e linguas menta-hortelã
que delícia, que malícia
agarrar tua língua assim, morder,
prender na minha
e misturar os cheiros
as primeiras transas inocentes
uma encoxada aqui um beliscão ali
um beijo mais atrevido
um seio arrepiado
cheiros de sabonete de rosas
e lavanda a barba ainda a nascer
os pelos ainda nada
mas o sexo já ardendo
nas coxas das moças
cheiros de vida, cheiros de mato,
de morte, cheiros de marés e navios
da primeira vez aque vi o mar
nossa, que coisa é essa
que mundo dágua
algas, algas, cheiros de sal
e mais tarde os cheiros marinhos
se incrustaram em mim
e são memórias afetivas.

cheiros. cheios de apelos
conduzem nossos fios
de memória
pelos meandros do tempo:
respingos de saudades.

2 comentários:

MOISÉS POETA disse...

Magistral !

lembrar o que éramos...é ali que repousa nossas raizes !

abraços !

Manuella Epaminondas disse...

uauuu...marcante..
de uma sensibilidade incrivel

http://manunatureza.blogspot.com/