segunda-feira, 8 de junho de 2009

nos bolsos da bermuda


foto: chuva e sol - flickr/L

Debruço-me sobre meu corpo
E adivinho nuances
De similitudes:
Alço-me
E me calço de luvas
De diamantes
Para tocar sóis brilhantes
E violinos de lua.
E a rua passeia,límpida
Lavada dos raios de chuva
Enquanto asculto
A minha velha canção
Oculta
Nos bolsos da bermuda.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

não é assim


foto: pain- trying2/flickr

Não. Não é assim
O início de um poema
Que se diz
Feliz....
Não é assim
O fim...assim seco,
Assim asséptico,
Assim desinfetante:
É muito mais pesado
É sujo, é descarado,
É dolorido
É impactante falar de dor
De inicio e de fim
Não é nada leve
Nem breve
Como a canção que morre
No ar.
Nem deixa rolar
Que a lágrima não rola,
Saca?
A dor é muito mais imensa
E o buraco é muito mais embaixo
E os ficares não pressentem
Jamais
A temporada de dores
E estações nos infernos
Que podem caber nos versos
Dos poemas mais simples
Dos poemas mais sórdidos
Dos poemas mais plácidos:
A dor não escolhe lugar.

sábado, 30 de maio de 2009

NOTAS ÁTONAS


foto: Old boat - flickr/today is a good day


As notas são átonas
E soam como caos
Como cães que ladram
Sem caravanas que passam.
Passam as notas
Aos nortes
E hordas de truculências
Atacam, atracam
Nos portos
E derrubam as portas
Das cidades
Antes das madrugadas.
Cavalos de tropias,.
entropias
E helenas
Ensimesmadas e opacas
Descolorem madeixas
E desfiasm queixas ao luar:
Nada há a fazer
A não ser
Se lançar ao mar
Buscando outros portos
Trópicos
Nada a fazer
A não ser
Circunavegar
Acima e além do mar
E buscar o caos
um outro tipo de ordem
a reger as naus.

quarta-feira, 27 de maio de 2009


foto: Lembranças azuis- Paulo Côrtes/flickr

a última vez que vi malu ainda era primavera e a gente brincava dizendo assim o que é que há onde você está com a cabeça que não vê as flores na varanda do chalé nem sente as cores que se abrem junto e que derramam aromas de amoras e amores sobre nossas cabeças e narinas e esses cheiros eu carrego até hoje não sei se isso passou nem sei se isso aconteceu ou se foi apenas uma miragem imagem de um sonho ou cena de um filme ou...

a última vez que vi malu era o inverso da primavera era um inverno frio e nós dois como ursos hibernados dentro de um chalé no meio das montanhas geladas era serra do cipó ou eram os montes urais ou era no canadá nem sei só sei que as manhãs eram geladas e as maçãs não floresciam nem eu podia falar nem ela pois as mãos enregelavam quando a gente tentava apanhar as palavras saídas da boca e que se transformavam em cubos de gelo quebradiços que batiam no chão e ploft se acabavam em água fria sólida e nada ficava de sólido nem de nós no ar apenas aquela solidão indesejada aquele estar ali e de repente não saber estar e aí...

ai ai ai- da última vez que vi malu era um outono desses nostálgicos desses que bota a gente todo troncho pensando ah, outonos são aqueles do hemisfério norte em que as arvores envelhecem as folhas vermelhas que caem e formam tapetes lindos vegetais nos parques limpos e calmos ah, que nostalgia é essa desses outonos que a gente nem viveu? nosso outono era aquele dos ipês e dos apês a gente enrubescendo com sol e se arroxeando como os ipês que nos escandalizavam com a beleza insolente e crescente dos buquês coloridos só flores sem folhas aquela coisa linda e então...

da última vez que vi malu era verão e o sol ardia- ah! era verão aquela estação das propagandas, das cervejas, dos corpos nus ou quase, das caminhadas na praia, dos sol-nascentes e poentes policromáticos, das viagens a itacaré a jeri a caraíva ah...verões de sol em brasa e corpos idem mas da última vez que vi malu naquele verão não havia nada disso isso era apenas um conceito uma idéia nós estávamos atazanados com teses de mestrado e trabalhos finais e não tinhamos nem tempo de sair de casa para tomar uma cerveja com os amigos e eu me lembro de ter visto a malu ali linda com os braços cheios de livros e eu dei uma trombada nela e ela deixou cair os livros no chão tipo cena de cinema eu me agachando apanhando seus objetos ela sorrindo diáfana e...

não me lembro da última vez em que vi malu.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

BendiTEOfruto!


foto: fruto da esteva- flickr/valter jacinto-Portugal


BendiTEOfruto
Do teu ventre,
Mãe- poesia
A nos jorrar promessas
E impropérios
Da mais dura lábia
E dos mais puros lábios
Virginais:
Vadiai, palavra, vadiai
Em busca dos novos
cAis!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

BRILHO DA CARNE


foto: jesse gaardner/flickr


iris -descendo brilhos crus
em carnes fastiadas
verdeflamejantes arcos
encarnados:
a carne,mesmo putrefável,
capta luzes
como sóis
de vagalumes.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

TESÃO DA PALAVRA


FOTO: aslleponasunbean/FLICKR - cor

Abaixo a palavra-livro
estanque, estática,
Quero a palavra livre
Leve
Quero la palabra
Parabolé
parábola
parangolé
desdobrando enigmas
palabra-oboé
buscando novos tons
de híbridos sentidos
Quero a palavra-prima
prisma
crème de la crème
Quero a palavra-ave
Ensaiando voos
Quero a palavra
Eva
E seus contrários
Dando início à vida
Palavrávida
De outros caminhos
Palagrávida
De luz & lilazes
antikamikazes
Nas estepes frias
Quero a palavra-uva
chuva magenta
A escorrer sacrosumos
Pelos cantos da boca
Quero a palavra
Ava
Diva em technicolor
Derretendo celulóides
Quero a paalavra-ova
Ovo
o novo que se levanta
A anarquia
Contra as vãs hierarquias
Quero a palavra word
sword espada afiada
a talhar gargantas frouxas
Quero a palavra larva
das borboletas
Do vir-a-ser
Quero a palavra Love
Estampada escancarada
Arreganhada nas caras
Nas pernas nos braços
Tatuadas
Nos muros e murros
Quero a palavra urro
Em contraste aos silêncios
Sepulcrais
Sem choros, sem ais,

Quero a palavra
...


Um poema para ser lido em qualquer direreção.

domingo, 19 de abril de 2009

CADERNOS DE VIAGEM


foto: palmeiras psicodélicas- flickr/Eli K. Hayasaka


Rasgar a alma
Deixar cair a máscara
Que nos atordoa e fere a face
A fera face à fera
Fareja
Olha as sombras e a luz
De Lang
Sangue de nosfera-trues
Derretendo os degraus:
Fellini ferino
perdido entre as brumas
De rimini
italiamamma
E entre os rimels
De Magali
Forte, farta, linda.

Entre Renoir e beauvior
Eu navego
A mente clara
Entre os ratos rotos
Que sacolejam sobre necrópoles
E brócolis
Encharcados de carne
Restos
De um banquete que não foi.
O banquete dos mendigos
E ópera dos vinténs:
Lembro Brecht e bunuel
Meditativo, iconoclasta,
Entre tristanas, viridianas e nazarins
Contando a miséria humana.

E viajo na mente
Entre luzes e sombras
De goya, de Pasolini
Perdido em divagações
Sobre o ser humano
E o sexo:
Que foi que nos uniu?
O que foi que nos
Zuniu?
Sumiu daqui aquilo que era sacro
Ou profano
Os lírios, olhai os lírios
Do campo
Os líricos lívidos divididos
Lírios entre o bem e o mal
E os hipocampos, perdidos,
Flutuando, espumas, sobre um céu
Sereno
De âmbar e de safira
Pira, pira, queima na pira
Os desvarios e os delírios
Queima na pira
A pura loucura.

Navego
Nos oceanos do espírito
E da matéria:
Átomos, nêutrons, partículas
Quânticas
Quantas perguntas ainda
A serem feitas
Quantas?

O mundo gira, entre
Luzes e sombras
Entre assombros
Entre escombros
O homem se esquece
Perdido, nas estrelas.
Portal de venturas.

Aquarius, aquarius,
Deixa o sol entrar
E destruir o mofo
Que enregelou as almas
Como pedras de gelo
Dos himalaias!

Tudo se evaporou
Todo sólido
Derramou-se em líquidos
E vapores
Que se esfacelaram no ar.

Nada ficou do antes.
E eu que tinha
Pretensões do belo
Tentações de poeta
O que é que faço agora?
O que é que eu canto agora?


sobre a obra:
iimaginárias memoristórias de viagens

sábado, 18 de abril de 2009

DILACERADO


foto: Pip...Hopeless - by Occhiovivo/Flickr

O soco na boca do estômago
Um chute no saco
Uma porrada na cara
Um tapa no ouvido
A garganta ressecada
E a boca que fede
Na ressaca da orgia:
A foda in fault
O fogo fátuo
O passo em falso
Nada disso dói
Tanto como a palavra
Atirada assim, ao léu,
Farpa afiada
Adaga impiedosa
Faca enferrujada
Que corta o sonho
E a possibilidade
Do vir a ser.

Dilacerado
O poema explode
Como um grito no ar
Cromo-um corpo que cai
Em vertigem assimétrica
Pelos tombadilhos
Dos navios.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

TANGÍVEL


foto: círculos tangentes, por sidi guariachi- flickr

Meu pai foi plenilunio
cometa foi
de brilho intenso e raro.
Páro, hoje,
a relembrar
seu tempo
e as nuances lúdicas
do seu estar no mundo.

Meu pai foi nascedouro
e foz
fez
de águas nunca represadas
estuário de emoções
e sentimentos.

Foi palavra, foi canto,
foi música do vento
foi poesia, voando
no tempo.
Trazia
encantos de luar
em asas de borboletas
e cantos de passarins.

Meu pai foi verso,
foi verbo,
foi verbena e rosa
um ser de estirpe impar
desses que habitam este
e os outros mundos.

Foi. É.
Meu pai será
para sempre
presença tangivel
nas águas do meu rio
que se desloca,
em círculos concêntricos
buscando repetir
a sua imensidão..

in memorian do meu pai, no 11º aniversário de seu falecimento

terça-feira, 7 de abril de 2009

TORQUATEANDO


foto: Toillete angoisse - flickr/Gómez

Torquateando afogo
o coro dos contentes
ateando fogo às vestes
engulo o vweneno das vespas
e das vestais
Que auguram paz.

Torquateanas
loucalúcidas
bocas túrgidas
que beijam o caos
E trepam
com o infinito:
que sensações buscadas
nas entranhas
das entrelinhas
te trouxeram
o asco da existência?

Torquateando
incendeio estrelas
e escancaro sóis
obscuros, nas trilhas
dos caracóis:
não chore, baby,
a vida é assim:
É fim.

Ensaio
no trono dos tolos
atirando tijolo e pedra
nos costados dos navios
pavios
para o inconsciente.

Cogito.Existo.Resisto
e insisto no caminho
ainda e apesar.
Torquateando fogo
na mesmice
e flertando,
obliquamente
com o caos e anarquia
absorvo metáforas
absolvo metástases
e respiro palavras
na busca do sentido.


um mínimo cantanárquico para o poeta destoante do coro dos contentes

sábado, 4 de abril de 2009

TEMPO LÍQUIDO


foto: Relógios- flickr/Luciano Di Segni

O relógio liquido
não conta as horas
que passam.
É um pássaro
apenas
suas penas se liquefazem
como liquens
com o passar
do tempo afetivo.

O relógio louco
detona flores
gelatinosas
no arco da memória.
Aide-memoire
a nos lembrar que o tempo
não existe assim, sozinho:
depende de nós
o seu desenrolar.

O relógio mole
se desfaz
e respinga rosas
e odores
de prosa
e poesia
sobre as curvas do tempo:
matéria prima de sonhos
surreais.

O relógio fantasma
registra passos
lassos laços
os compassos
das odes ao espírito
E os cânticos à matéria
de gentes que foram,
que são, que virão.
gentes que são
causa e consequencia
de qualquer poesia.

O relógio poema
liquidifica-se em nuvens
brancas de algodão
quando tocado
Por inábeis mãos:
suas cores são palavras
tácteis
são fractais de tempos
que flutuam, indiferentes
na névoa da eternidade:
só o poeta é capaz
de tocá-las
e transmutá-las
em coisas tangíveis.

terça-feira, 31 de março de 2009

PAS DE DEUX


foto ACASO por deadoll/flickr

Poema inspirado nos textos de Compulsão Diária

Pela janela observo
no jardim
a bailarina e o gato
num pas de deux
com odor de jasmim
alva malva
salmo de luz
e carmim.

Passos lépidos
corpos tépidos
os passos do gato
e o vôo da baiilarina
sobre a grama do jardim.

Agora o gato repousa
no colo da bailarina:
gato branco, colo alvo,
cheiro de malva e jasmim
aura de alma lavada
enlevada,
simples,assim.

Da janela, olho a cena
plena.
e a janela emoldura
a ternura,
a janela é moldura
para o doce sentimento
que embala
o gato e a bailarina:
cena rara,
que se expressa,
entre um gato andando a esmo
e a alva bailarina:

E o repouso do gato
seu corpo esguio
no colo da bailarina
é a expressão do absoluto
que não cabe
que não sabe
num retrato.

segunda-feira, 30 de março de 2009

INSTANTANEO- 3x4


foto: flickr/seier+seier+seier

A solidão se assentou
na praça dos três poderes
e pôs-se a olhar os pombos
e seu indeciso vôo
num céu vasto, sem pouso.

A solidão se acentuou
nos rostos das pessoas,
como ovelhas desgarradas
perdidas na praça perdida
no cerrado perdido
no planalto central
descomunal
perdido no mundo.

A solidão aumentou
no solo, nos bancos,
nos rostos,
nos restos de brinquedos,
de comida,
deixados, quando morreu o dia
e os pombos voltaram aos pombais.

A solidão adentrou
os peitos, os olhos,
e os corpos caminham,
rumo às luzes
do setor comercial,
das asas do sul, do sal,
e do suor,
das asas da morte, do norte,
buscando um fato novo,
a ruptura,
a rachadura e a assimetria,
a nota destoante, o palavrão,
a cachaça, os bares, companhias,
para enfrentar a barra
destas noites escuras e vazias
desta solidão descomunal
que cresce, se avoluma,
sob a sombra
de um eixo monumental.

domingo, 29 de março de 2009

Sede da Palavra


foto: Era só - flickr/L

Como peixes sedentos
em pleno aquario
como aves cansadas
em repouso no ninho
como serpentes que morrem
do seu proprio veneno
como versos imperfeitos
que regurgitam a poesia
que não se compreendeu
assim me sinto eu:
poeta perdido
em meio à imensidão da palavra
E de suas consequencias:

Como encontrar as trilhas
as medidas
em meio a tantas midias
e maravilhas?
Como andar no prumo
e equilibrar-me
no fio da navalha?
a palavra explode
em meu peito
cala-me cego
o olho que não vê
meu braço cansado
de pesado fardo
passo e não sinto
o cume das estrelas
nem adormeço o sonho
da flor amanhecida
no jarro seco:

Como peixe sedento
em pleno aquario
minha sede não se mata
minha fome não se sacia
antes, se renova,
mais faminta, mais sedenta,
a cada dia.

sábado, 21 de março de 2009

flor e concreto


flor-estrela - foto by Nekrun/flick

Contra os céus de concreto
e o chumbo das cidades
explode a flor:
a beleza se insinua
nua
contra a miudez
e mudez
dos cinzas antropomórficos.

Flor:
que rompe o concreto
e entre frestas
invade
a rudeza do cimento
e a crueza de uma vida
acinzentada
conclamando
à batalha contra o tédio
contra o néscio
contra os vícios
e os ócios
contra os sócios
do escapismo:

Flor: epifania sagrada
Que nos remete
Ao divino.

No céu de buñuel

foto - "un chien andalou" by swan of kennet/flickr

A navalha
no olho
o corte
a lua lhena
plena
morta
a sombra
torta
o vortex
o redemoinho.

No fio da navalha
da canalha
na falha do inconsciente
o gesto insano
da mão demente.

E o olhar vazado
esgazeado
turvo como a lua
eclipsada
pelo sangue da nuvem
em sua Iris branca.

um poema inspirado pelo filme " un chien andalou" de buñuel e dali"

quarta-feira, 18 de março de 2009

ANARQUIPOÉTICA


FOTO POR jORGEMEJIA/FLICKR - !Viva la Poesía!

Hoje amanheci poeta e estou entardecendo perdido na prosa. Prosear sobre poesia, sua natureza e exigências, sua dependência do poeta assim como o poeta depende dela, assim como o poeta depende do ar para respirar e da palavra para se expressar em meio às multidões apressadas, ensimesmadas e sem palavras para com aquilo que a rodeia.

A Poesia é uma musa exigente e premente e nuca se sabe quando chega ou quando vai. Coloca-nos em eterna vigília, a buscar a senda das maravilhas e das palavras inauditas, encantadas, novíssimas em sua formulação e em seu entendimento, como diamantes recém- convertidos de um carbono abrupto. A poesia é assim, ataca-nos de repente, ata-nos as mãos do fazer diário e se instala, sorrateira e brejeira, em nossa mente e coração, que fica lírico a buscar revelações e encantamentos. E nos atracamos com ela, enrolados em seu leito de lírios e rosas, de cheiros e luzes, plenos de imagens que querem se traduzir aos olhos outros pela construção e encontro da palavra perfeita, da palavra que traga a luz, ao mesmo tempo tragando a luz que brilha em nossa mente.

A poesia é isso: uma busca pela tradução, mais que perfeita, dos sentimentos imperfeitos, das nossas contradições, das antíteses que somos e nunca queremos deixar transparecer. A poesia, para isso, depende do poeta e o poeta depende da poesia,e muito mais, da plena liberdade, aquela gritada a plenos pulmões, daquele ar que escapa do escafandro deixando o mergulhador à mercê da água que lhe rouba os sentidos...

A poesia necessita liberdade, incondicional e irrestrita, para que seja gestada e resgatada do limbo a que muitas vezes a condenamos. Por isso, rima não com burocracia, mas com anarquia e com apostasia. A poesia é avessa aos controles, às planilhas, às escotilhas, às camarilhas, às escolas, às escolhas, é avessa aos sistemas e regimes; o que a poesia busca é a pura tradução da beleza, este ser abstrato que se oculta nos mais inusitados lugares... Por isso, o poeta não deve e nem pode, enquanto poeta, preocupar-se com números frios, mapas de controle, perfis produtivos, gráficos e estatísticas. Vamos sim, nos preocupar com o pranto não chorado, a palavra não dita, os matizes ao invés de matrizes algébricas, com o homem e a mulher, enquanto seres iluminados e antenados com o universo no qual vivem.
Por isso, enquanto poeta, não busco o raciocínio dos números e a frieza das estatísticas. E registre-se que, paralelamente, trabalho com números, que no contexto adequado, também possuem sua beleza... aliás, esta já é outra praia pois, para os matemáticos, os números são plenos de luz, beleza, incertezas e inesperado e isso, diga-se de passagem, também é pura poesia.

No entanto, quero aqui celebrar a liberdade e o dever do poeta de trabalhar sempre a palavra, como o fruto de uma lavoura não árida, de uma lavoura fértil, de onde brotem os sentimentos e as sensações apreendidas enquanto homens, dominados e dominadores, senhores e irmãos da natureza.
E para isso, sejamos anárquicos e deixemos que as palavras nos transportem aos mundos exteriores e interiores, e façamos dela nossa arma e nossa alma, faça-se a luz ordenou Deus, faça-se a sua tradução por meio da poesia, conclamou o poeta.
E sejamos assim, teses( como nos poemas-conceito, matrizes para outros e outros e outros poemas), antíteses ( como nos poemas barrocos, contrastes perfeitos para a natureza humana, sua luz e escuridão), sínteses( como nos poemas concretos e haicais, equações líricas e pequenas flores de cor e forma intensas). Sejamos menestréis medievais, cantando barcarolas, sejamos clássicos, em sonetos formais, sejamos parnasianos, buscando a jóia perfeita da rima e do conceito, sejamos simbolistas, dando voz aos nossos elementos interiores, sejamos naturalistas, dadaístas sem um sentido aparente, sejamos surrealistas transmutando as palavras em imagens sinestésicas e sensuais, sensações pictóricas, sejamos sintéticos e prolixos, sejamos modernos, reeditando 22, sejamos enfim, eternos, e assim estaremos sendo contemporâneos, expressando os medos, vozes e vórtices do nosso tempo, esse tempo que não é só cronológico, mas também sentimental emocio-lógico, baseado em nossas idiossincrasias e relacionamentos com o mundo e as gentes.

Vamos pois, poetas, construir nossos opus de luz, mesmo em meio ao pus, ao pó, mesmo em meio às descrenças e desavenças, lançar nossas sementes de beleza que um dia, quem sabe, contaminarão a todos, tal qual uma pandemia, um pandemônio , uma ode à alegria de viver!

RAW-WAR


foto: No a La Guerra - flickr/Macfacizar

Canto I
A palavra se cala
estupefata
diante da putrefata
crueza da morte
que assola os sentidos.

A palavra cora
envergonhada
diante da tinta
da fúria
que assola
e tinge o cenário.

Canto II

Terra devastada
em que se digladiam
irmãos de sangue
em mãos cruzadas
morrem os homens
apagam-se os sonhos
gotejando sangue
coquetéis vermelhos
gosmentos,
grudentos,
sangue novo
sangue antigo,
sangue cíclico
na terra devastada
nos desertos erráticos
longe dos oásis
e das calmarias
longe dos jacintos
e dos lilazes
de abril
só tenazes
apertando as gargantas
tantas.

Escorrem mundos
pelos dedos
pelos medos,
pelos becos,
pelas bocas correm escarros
escamas de sangue: bombas
da paz, explodem
sôfregas, trôpegas,
a morte
sorrindo, insidiosa,
sedenta, e o diabo
que se veste de cordeiro
esbanja escárnios.

E o sangue corre, escorre,
Explodem corpos e ossos
Se esfarelam:
É o sonho da paz
Que volta ao pó.
É a sanha do ser
Que não se entende
em nome de deus.
É destino ou desatino
Essa insensatez?

Canto III
A terra devastada
apenas observa
com olhos enevoados
e choram as pedras
e se empedram os cantos
e secam os cântaros
por perdas, por danos
e pela dor dos homens
que ficam
a espiar horizontes
com olhos caninos.

E o mar, ao fundo,
em seu azul de safira
sugere a paz:

Que paz?


um cântico em homenagem a T.S.Eliot e seu poema "The Waste Land"

quinta-feira, 12 de março de 2009

UROBORUS


imagem: Uroborus- flickr/Leo Reynolds

Caminho no precipicio
entre o fim
e o inicio
em jardins
e delícias
e atinjo mundos
fundos
de poços
intransponiveis.

Sou translúcido
ou obscuro
opaco ou hialino
plácido ou fescenino
conforme o mote
caminho na luz
e no escuro
e me penduro
nos fios da navalha
nestes enduros
por trilhas
Ignotas.

Somos todos assim:
avis raras
dos paraísos perdidos
e proibidos desfechos:
uróboros contemporâneos
restituídos aos mitos
aos gritos primais
mordemos a própria cauda
e destilamos venenos
para nossas próprias almas.

Caminhamos em circulos
em circos plenos de vícios
e buscamos as rosas místicas
as ordens ocultas
e os segredos alquímicos
das transmutações:

Somos todos assim:
e caminhamos, impassíveis,
impossíveis
implausíveis
Rumo ao fim.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ROSAS ÁCIDAS



imagem: Rosas ded inverno- by rodrigo álvarez/rupertt - flickr



Rosas rubras,nuas,
desfolhadas
flácidas,
mas ainda rosas
grávidas de poesia
despencam do céu,
como chuva ácida
e descorrolorem sonhos
enquanto medos medram
nas mentes assassinadas.

Nada é o que parece,
nada nada nada
nada a favor da corrente
a semente não floresce
apenas fenece o feno
que não foi comido em tempo
pelas vacas magras.
mas ainda vacas
prenhes de promessas.

Tudo tudo tudo
nada contra a correnteza
peixes com sede de água limpa
e de ares sem margens
absolutas, perdidas,pendidas,
fendidas buscas perdidos
sonhos em volta do tempo
que tempo?

As rosas rubras enrubescem
ao som dos velhos hits
das estações passadas
onde já não passam trens
ainda tens aqueles passes
para os so(n)hos azuis
da temporada?

As rosas rubras despencam
e não falam: calam
as rosas nos canteiros
certeiros dardos doídos
jogados ao léu ao céu
que céu?

céus de chumbo, céus de estanho,
céus castanhos carregados
de cogumelos estranhos.

As rosas rubras despencam
e se desfazem em espirais
de tempo: sobra vermelho
e sangue, nas alcovas,
nas aldravas, as madressilvas
não cheiram mais:
sobram tristeza e tédio
e ócio
nas manhãs acinzentais
sem quintais.

Mas ainda o sonho
se intromete em meio
ao caos
e promete ressureições:
lázaros redivivos
ícaros renitentes
se elevarão dos escombros:
pássaros de fogo
cometas iconoclastas
vararão as madrugadas
plácidas
das noites ancestrais.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

CLAROCANTO

"Tudo é uma questão de manter
a mente quieta
a espinha ereta
e o coração tranquilo"
Walter Franco



Em silêncio
contemplo a quietude
a beatitude
das coisas claras:
o sol adentrando
os quartos
e espantando a noite
desenhando nas paredes
mosaicos de luz.

As paredes brancas
são meu espelho
a transparência
da minha alma

O silêncio murmura
em mim
suas exigências:
estar assim
mudo
assim
quieto
assim
zen
assim sem
sobressaltos.

Como pássaro
no raro instante
do pouso.

Um tributo à poeta do mar e das claridades

Deixai-me limpo
o ar dos quartos
E liso
o branco das paredes.
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.

Sophia de Mello Breyner Andresen
De "Livro Sexto II" (1962)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

C-O-R-R-E-N-T-E


foto: dentro de un viejo ladrillo III - flickr/Flavio camus


somos todos
farinha
do mesmo saco
cacos do mesmo
azulejo
beijo de toda boca
bica de frescas águas
mágoas de muitas dores
cores de todos os tons
sons de todas melodias
meio-dias de todas as tardes
mar de todos os oceanos
anos de todas as vidas
dúvidas de todos os destinos
vinhos de todas as vinhas
linhas de toda urdidura
curas de todas as dores
flores, florestas, cores,
cuore, cordis, corazon
couer, heorte,
sempre fortes
somos cor e ação.

todos somos
sumus,
húmus vivos do universo
versos de todos os poemas
temas de todas as musas
fusos de todas as rocas
tocas de todos os bichos
nichos de todos os santos
cantos de todas as raças
graças de todos os deuses
berceuses
adeuses de todas as mãos.

somos elos
da cadeia universal
de qualquer fé
raça,graça,
reza,
leveza,
beleza
e mansidão:
o mundo é vasto
o tempo
é nosso irmão!

sábado, 31 de janeiro de 2009



foto flickr/ fábio pinheiro

O universo vibra
suas cordas
em suave diapasão
contrai-se ou se distende
preguiçosamente
como as palhas do coqueiro
se movem
à brisa do verão.

As cordas do universo
em movimento
movem os elementos
água,terra,fogo, ar
num jogo de instrumentos
que compõe os tons
colore os sons
da sinfonia maior
da canção
indescritível.

Das cordas do universo
em vibração
nascem árias de sopranos
e os sons guturais
dos palatos
e cordas vocais:
sons de metais,
tons de veludo,
tudo
se transformando
e criando harmonias
em múltiplas dimensões
de espaço-tempo
de brisas,de ventos...

O universo toca
em suas cordas
a contínua melodia
que se expressa no verso,
no reverso,
que reverbera
em ciclos
em nosso plexo solar

O universo todo é pura,
rara música,
nestas cordas intangíveis
Inaudíveis aos ouvidos dos humanos
que não a sabem escutar.

Mas as palhas do coqueiro
à beira mar
ouvem os cânticos
quânticos
do universo
que se insinuam
nos ventos alísios,
nas ondas,
no azul profundo
Do infindável mar

sobre a obra:
O universo pulsa nas cordas quânticas, em dimensões inimagináveis aos olhos humanos... e a poesia pulsa nos versos arrancados do peito e das cordas dos instrumentos.

ORA DIREIS, VER UNICÓRNIOS!


Poema inspirado pelo conto do autor americanoJames Thurber, " Um unicórnio em seu jardim"
foto " Unicórnio II" no site Flickr/Ferran

O unicornio passeia
no jardim
sua implausibilidade.
Entre os jasmins
e rosmarins
passeia, plácido,
o unicórnio
pastando rosas
e lírios
delírios
de quem o vê.

È impossível estar ali
aquele unicórnio
ímpar
mítica imagem
como seus irmãos
centauros
e minotauros
a torturar retinas
camufladas
em paredes
de pedra.

É-lhe impossível
estar ali
pastando musgos
e rosas
em plácida postura.
No entanto
Ele ali está
desafiando os olhos
que teimam em decretar
sua inexistência.

O unicórnio pasta
no jardim
comendo rosas
e lírios.
Sim. Ali está
E ai de quem não o vê
Com os olhos do coração.
Perderá a razão
Do sonho
E o sonho da razão.

E só lhe restará
A camisa de força
do real
Que aí está,
todos os dias,
em toda página
de jornal.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

mais do mesmo (did u remember Zeppelin? )


foto: flickr/francisco(gifted)- por da lua (cheia)

Perguntas-me, meu amor,
porque caminho a esmo
sobre as trilhas
sobre as linhas
por que volteio
e por que sempre retorno
ao mesmo
velho tema
que teima em arder
no peito
no jeito, no pincelar
das palavras
com pincéis de cores
ora fortes
ora neutras
em que afloram os sentidos
e os sentimentos insones
desejos subterrâneos
buscando vir à luz.

Perguntas-me meu amor
que poemas são esses
de uma rima só
em que se repete,
indefinidamente,
a mesma velha cantiga
muda cena do poeta
que já não morre de amor
nem de cólera
ou de tuberculose
ou de overdose
morre-se de tédio
nestas tardes mornas
sem perspectivas
sem saídas
sem entradas
ou bandeiras
ou ideologias.

E eu penso no tempo:

lembras-te, meu amor,
como nos velhos tempos
ficávamos, horas a fio,
madrugada a dentro
lentos, calmos, plácidos
como as auroras
discutindo os poemas de amor
de Éluard, de Vinicius,
de verlaine
os êxtases de Tereza
e as múltiplas faces
das pessoas de Pessoa
em cujo país havia o Tejo
e o tédio
que se buscava matar
na tabacaria
e nas infindáveis odes
devaneios marítimos.
E olhávamos a lua, as luas,
quantas luas se passaram?
quantas cheias, minguantes
ou novas luas passaram
enquanto nós discutíamos
o amor na poesia
e os curtos poemas-concretos
Objetos
Abjetos
dejetos
dos surrealistas
e os líricos
telúricos cânticos
à humanidade
do irmão Whitman!

Ah! meu amor
contigo viajei
nas estradas dos sessenta
um poema na mão, a flor
na cabeça
e o sonho dirigindo
digerindo vidas
delineando a estrada
aos riffs sonoros das guitarras
e vozes rascantes
de ídolos
que tinham pés de barro.

Perguntas-me, meu amor,
quanto tempo, tanto tempo
se foi e a ainda canção
continua a mesma?
Quantas luas, quantas quedas,
tantas pedras
quantos precipícios
quantos inícios
tantas flores mortas,
estradas tortas
sonhos desfeitos
e a canção ainda
é a mesma?

E eu te digo, meu amor,
é a mesma canção
que nos embala
como bebês-mandala
girando na roda
do véu de Maia:
o tempo passa,
o tempo não passa
o tempo desfia
a meada do novelo
desafia a memória
e se reconstrói
como fênix.

Por isso, os poemas
a busca pela palavra
e por sua magia
pelo seu poder
de luz
que seduz
e se traduz
em versos, urdidos pelo tempo,
que pairam, depois de lidos,
como imagens de um universo
paralelo
onde pairam
bandos bêbados de poetas:
bêbados de beleza
bêbados de encantamento
bêbados, contemplando,
os novos bêbados
de poesia
que se entregam
ao doce ofício
De sugar das palavras
todas possibilidades
que pulsam, entre céus
e infernos,
eternas,
ao alcance daqueles
que souberem mergulhar
Em seus cânions
nervos, carne
e sangue:
o verbo que se faz
carne.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

sobre/nomes

o poema fala
a música
dos seus próprios nomes.
Nominar o inominável
Gravar o indelével
Penetrar o inescrutável
é querer dar nomes
aos que fazem da palavra
sua lavoura diária.

Ouvir bilac, de seu parnaso,
ouvindo estrelas
in extremix
ninar bandeira
com seus versos
meninos
Roubar de drummond
a memória do ferro
das minas que não
há mais.

Cantar com cecília
as canções eternas
daquilo que é efêmero
e com adélia
os cantos sacro-profanos
deixados nos panos
de prato, das canções.

Sofrer
com florbela
Com plath,
Com clarice
as dores femininas
do amor
não amanhecido.

Penetrar nos infernos
em todas as estações
nos odores dos jardins
de baudelaire
e amar as musas loucas
de appolinaire
e subir aos montes
e descer
aos vales
e savanas
com verlaine
e rimbaud
tudo que se amou.

Como lautreamont
gozar os gozos impensados
e se atirar às alturas
e às profundezas
como blake.

Nominar os sentimentos
num onomástico rol
de onomatopéias
que possam traduzir,
para cada poeta,
suas epopéias
na busca
pela palavra perfeita
a definir
suas vidas em sonhos
num mundo imperfeito.

Difícil feito.

Blablablá

o que há
no espaço
entre o beijo
e o abraço?
o amor é longo,
é curto,
é um surto, que cabe
no ritmo de um respiro.

é um suspiro, o amor,
que vidra o olhar
e penetra a retina
amarfanhando a rotina
como se amassam os lençóis
ao calor dos corpos nus
aos sóis de cada dia.

pura magia.
puro encantamento
esse momento
em que estamos,
estáticos,
almas nuas:

um cromo
a se guardar para sempre
como vivas sempre-vivas
numa página de diário.

esse momento é o que há.
O resto,
bem, o resto
é blablablá.

assim é, se lhe parece

assim é,
se lhe parece:
prece
súplica
revelação
a poesia, que penetra
surdamente
no reino da imaginação
e busca
em silêncio,
em sussuros e cicios
a alegoria e a metáfora
da sua própria essência.

Poesia. pão
chão
que se pisa sobre o vento
tão
silenciosa
quanto o canto
quanto o pranto
que mesmo à menor vertigem
provoca arroubos
e assombros
de tambores,
soando
no peito do mundo.

nos quatro cantos
do mundo.

poesia
força motriz
matriz de idéias
matiz de aquarela
arcoírica
anarquilirica
nutriz
de seios túrgidos
de leite bom.

poesia
aquela que se busca
no fusco-fusco da tarde
que arde,
fogueira em brasa
ou em brisa refrescante
como hálito de fadas.

faz da poesia sua casa
sua festa
sua fresta
para o infinito:
faz da poesia
a matéria iridescente
incandescente
do seu silêncio
e do seu grito.

exercí (cio) da palavra

sei que sou pouco lido
ou quase nunca lido.
é com a palavra que lido
e não me intimida
este falar
para ouvidos surdos
ou para urzes bíblicas:
a palavra é minha lida
minha vida
é lapidá-las
como jóias raras
e tecer-lhe iluminuras
em tessituras
de sonhos
urdindo-lhe tramas
e teias
veias
de veludo
e âmbar
na maciez
de pétalas
e pelicas.

a palavra fez em min
sua morada
e minha alma
é a sacrossanta casa
da poesia
que arrepia a pele,
que brota,se avoluma
como flor,no cio
de explodir
em fruto.

por isso, não me assustam
os versos não lidos
Os olvidos
os verbos não ditos.
assustam-me, sim,
a grandeza e a força
da palavra
desta lavoura arcaica
que, no entanto,
sempre é preâmbulo
do novo:

palavra-ovo
em explosão
de vôo.

domingo, 30 de novembro de 2008

ANARQUIPOESIA

Hoje amanheci poeta e estou entardecendo perdido na prosa. Prosear sobre poesia, sua natureza e exigências, sua dependência do poeta assim como o poeta depende dela, assim como o poeta depende do ar para respirar e da palavra para se expressar em meio às multidões apressadas, ensimesmadas e sem palavras para com aquilo que a rodeia.
A Poesia é uma musa exigente e premente e nuca se sabe quando chega ou quando vai. Coloca-nos em eterna vigília, a buscar a senda das maravilhas e das palavras inauditas, encantadas, novíssimas em sua formulação e em seu entendimento, como diamantes recém- convertidos de um carbono abrupto. A poesia é assim, ataca-nos de repente, ata-nos as mãos do fazer diário e se instala, sorrateira e brejeira, em nossa mente e coração, que fica lírico a buscar revelações e encantamentos. E nos atracamos com ela, enrolados em seu leito de lírios e rosas, de cheiros e luzes, plenos de imagens que querem se traduzir aos olhos outros pela construção e encontro da palavra perfeita, da palavra que traga a luz, ao mesmo tempo tragando a luz que brilha em nossa mente.
A poesia é isso: uma busca pela tradução, mais que perfeita, dos sentimentos imperfeitos, das nossas contradições, das antíteses que somos e nunca queremos deixar transparecer. A poesia, para isso, depende do poeta e o poeta depende da poesia,e muito mais, da plena liberdade, aquela gritada a plenos pulmões, daquele ar que escapa do escafandro deixando o mergulhador à mercê da água que lhe rouba os sentidos...
A poesia necessita liberdade, incondicional e irrestrita, para que seja gestada e resgatada do limbo a que muitas vezes a condenamos. Por isso, rima não com burocracia, mas com anarquia e com apostasia. A poesia é avessa aos controles, às planilhas, às escotilhas, às camarilhas, às escolas, às escolhas, é avessa aos sistemas e regimes; o que a poesia busca é a pura tradução da beleza, este ser abstrato que se oculta nos mais inusitados lugares... Por isso, o poeta não deve e nem pode, enquanto poeta, preocupar-se com números frios, mapas de controle, perfis produtivos, gráficos e estatísticas. Vamos sim, nos preocupar com o pranto não chorado, a palavra não dita, os matizes ao invés de matrizes algébricas, com o homem e a mulher, enquanto seres iluminados e antenados com o universo no qual vivem.
Por isso, enquanto poeta, não busco o raciocínio dos números e a frieza das estatísticas. E registre-se que, paralelamente, trabalho com números, que no contexto adequado, também possuem sua beleza... aliás, esta já é outra praia pois, para os matemáticos, os números são plenos de luz, beleza, incertezas e inesperado e isso, diga-se de passagem, também é pura poesia.
No entanto, quero aqui celebrar a liberdade e o dever do poeta de trabalhar sempre a palavra, como o fruto de uma lavoura não árida, de uma lavoura fértil, de onde brotem os sentimentos e as sensações apreendidas enquanto homens, dominados e dominadores, senhores e irmãos da natureza.
E para isso, sejamos anárquicos e deixemos que as palavras nos transportem aos mundos exteriores e interiores, e façamos dela nossa arma e nossa alma, faça-se a luz ordenou Deus, faça-se a sua tradução por meio da poesia, conclamou o poeta.
E sejamos assim, teses( como nos poemas-conceito, matrizes para outros e outros e outros poemas), antíteses ( como nos poemas barrocos, contrastes perfeitos para a natureza humana, sua luz e escuridão), sínteses( como nos poemas concretos e haicais, equações líricas e pequenas flores de cor e forma intensas). Sejamos menestréis medievais, cantando barcarolas, sejamos clássicos, em sonetos formais, sejamos parnasianos, buscando a jóia perfeita da rima e do conceito, sejamos simbolistas, dando voz aos nossos elementos interiores, sejamos naturalistas, dadaístas sem um sentido aparente, sejamos surrealistas transmutando as palavras em imagens sinestésicas e sensuais, sensações pictóricas, sejamos sintéticos e prolixos, sejamos modernos, reeditando 22, sejamos enfim, eternos, e assim estaremos sendo contemporâneos, expressando os medos, vozes e vórtices do nosso tempo, esse tempo que não é só cronológico, mas também sentimental emocio-lógico, baseado em nossas idiossincrasias e relacionamentos com o mundo e as gentes.
Vamos pois, poetas, construir nossos opus de luz, mesmo em meio ao pus, ao pó, mesmo em meio às descrenças e desavenças, lançar nossas sementes de beleza que um dia, quem sabe, contaminarão a todos, tal qual uma pandemia, um pandemônio , uma ode à alegria de viver!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

NO RIO CAUDALOSO DOS SENTIDOS

ART MIRROR/flores de vapor by Guiprimola(guiprimola@yahoo.com.br)


Como quem
não quer
nada
Nado
Nudo
No rio caudaloso dos sentidos
Na cauda dos cometas e dos mitos
Poetas malditos.
E mergulho. Sem escafandros
Nos meandros da palavra
Que engendra versos
Que medra sonhos
Em meneios
De vozes
E de sombras.
E mergulho. Buscando
A luz mais que perfeita
No verso desconhecido.
Como o calor de corpos
De amantes amalgamados
Em camas e escamas
Subaquáticas.
Os céus derramam verdes
Frutos sobre a terra
E os troncos crescem,
Alçando-se ao léu.
Ao longe, dentes de leões
Ameaçam despedaçar-se
Ao sabor dos ventos
Mas se acalmam
Ao ver os azuis ensandecidos
Das musas de Picasso
E de Matisse
Matizando os cromos
Do arco-íris
Que se deita, estático,
Estético,
Na íris dos olhos
E dos lilazes.

E eu mergulho, assim,
A nado,
nudo,
Mudo
No reino silencioso
Das palavras
Que tecem casulos
E venenos
E nos conduzem
A píncaros e precipícios.

sábado, 18 de outubro de 2008

ELE.ELA.ELES


CENA I
A paisagem se desdobra à minha frente
feita de brilhos e barulhos matinais.
Mas não me importo. Não me interessam
estas mornas tardes outonais.
Em meu peito chove. Rugem vendavais.

CENA II
Ela não. sente-se sozinha senta-se no vão da escada e começa a pensar. pensar.
“Eu me perco na minha própria perdição. Ando muito desligada, buscando trilhas, maravilhas e não vejo a vida que corre ao meu lado, cobrando, cobrando, feito cobra serpenteando ora fria ora quente o bote armado... Nada me importa e a viagem não tem fim. Fui. Fim. “

Ela lembra os velhos filmes e os desgarrados personagens de Nazarin e os figurantes do banquete dos mendigos. Putas, abandonados, cães vadios saídos dos becos de Brecht, gente sofredora que desfila por seus olhos pedindo uma chance de se mostrar, de se revelar, de poder soltar os seus clamores.

CENA III
Ele deitado. Na cama um tédio sem remédio. Ontem foi sexta e ele só chegou no sábado noite selvagem sexo sexo sexo foi amor foi paixão? Não, foi só tesão acumulado, desejo de outro corpo, desejo estimulado pela mídia e pelo vício álcool na veia paraísos artificais que luta o que é que eu busco afinal onde é que eu vou para que estou aqui? São tantas e tontas perguntas e a vida corre, sorry. a vida corre, a noite escorre, o mundo é um grande porre, cadê as adocicadas lovistoris onde é que eu entro nesta história? Cansei, dancei.nem sei. Penso e lanço meus medos ao espaço e meus medos me invadem e se materializam e voam, soltos nos ares, feito vampiros feito nosferatus desilsudidos e desesperados querendo sangue mas muito mais que sangue querendo afetos e afoitos se desintegram aos primeiros raios de sol e aos mínimos sinais de carinhos ou caricias em suas faces túrgidas e lívidas de habitantes da noite. Ah, que pesadelos são estes que agora me atormentam?

CENA IV
Ela no vão da escada. Ele, deitado na cama, em seu tédio sem remédio, ouvindo canções que não se usa mais, valsas vienenses, bosques de imperadores, se esta rua fosse minha ah, eu mandava te buscar... foda-se, eu quero e gosto das canções antigas... ah, que tédio estes baticuns de hoje em dia....

Ela se levanta do vão da escada, borra boca de baton. Vermelho vivo, como a vontade de se entregar ao primeiro cara que encontrar pela rua. Ela se levanta e vai ao encontro do destino. Que destino? Ele, o cara do tédio sem remédio, das músicas que não se ouve mais do sexo selvagem que não tem a ver com paixão e com amor? Ele mesmo.
Ele, a esmo, sai da cama e se veste, feito um robô. Bota a bermuda. A cena muda.

CENA V
Um encontro romântico nos bosques de Viena ao som de strauss longos vetidos brancos rodopiando sonhos enquanto vampiros negros nosferatus e dráculas sobrevoam os salões guardiões do cara do tédio. Ele. Ela. Eles. E daí?
Daí, há de sair alguma coisa de concreto sangrando a cena, alguma carícia mais afoita, uma noite de prazer, duas ou três noites de trepadas, sim, e daí? A vida é só isso aí?
Onde ficam os sonhos, os devaneios, as buscas, a esperança, a estrada de tijolos amarelos e os castelos de sissi e o palácio de esmeraldas e os poderes do anel?
Onde os poetas podem colocar seus versos e seus segredos se não perdurarem sonhos e paragens outras, além, muito além?
Não podem.
Ele. Ela. Eles.
E ávida a vida é assim. Seca.
Nua. Crua.
Assim.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

MATE UM ANJO


foto Today by "brilho-de-conta"- flickr

I

Atenção: Foi visto, revoando sobre a cidade, um bando bêbado de anjos, banjos voadores espalhando música, espalhando pânico, espelhando medo: um bando trôpego de seres, de longos cabelos verdes, cantando canções antigas como diamantes virgens. Não há como escapar aos desatinos desta raça, que se reproduz como os insetos. Incertos serão os nossos dias e drásticos nossos rumos, se não matarmos os anjos. Não há como se enganar: são pálidos, brilham , à noite parecem estrelas e de dia flocos de algodão, nuvens vagabundas vagando no céu. E os cabelos são verdes, tão verdes que os olhos doem. Não olhem para eles. Seus olhos fosforecentes transmitem uma força mágica que transforma aqueles que os encaram. Arrebatam-nos para o seu bando, carregam-nos, alteram-nos.
Atenção: Se avistar um bando de anjos, ou mesmo um único anjo, não duvide: mate-os no mesmo instante. Não tente dialogar, pois eles são ardilosos e trarão, nos braços, cestos cheios de promessas e doces ilusões. Dançarão valsas antigas, cantarão cantigas de outros tempos, tendo ao fundo auroras boreais. Cantarão rocks e baladas de acridoce sabor, convidando à viagem: quererão levar-nos a passear em caudas de cometas, com destino a verdevermelhos campos de morango para sempre, e nos seus cabelos verdes banjos irão se tocar: banjos loucos irão se tocar, corda a corda, dessfechando mortíferas canções sobre nossas cabeças. E eles buscarão morada em nosso ser: serão ardorosos e quentes, apossando-se de nossos velhos corpos. Pulsará então, em cada esquina, em todas as esquinas, o coração, canção mais que cantada onde a vida se fez, se faz e se fará. Em velhos blues, o grito que jaz na garganta e o que explode no rock alucinado.
Atenção: armas estão sendo distribuídas, para que não sejamos destruídos. Informamos, a todas as pessoas responsáveis, que cabe a nós a defesa das nossas vidas, das nossas instituições. Não se deixem tentar, não ouçam seus cantos de sereias, ondinas chamando para a morte camuflada em vida e prazeres, vagando na espuma. Se virem os anjos, matem-nos. Nem sempre andam em bandos, por vezes voam sozinhos buscando seduzir aqueles que estão também sós, aqueles que vivem à procura de mais alguma coisa. A estes, apelamos: não há nada mais para se encontrar , tudo que é necessário encontra-se aqui, nada existe além de nossa esfera, tudo é ilusão. Não se deixem levar pelos anjos, que têm por missão corromper-nos e tumultuar nosso ambiente. Às armas! Não deixemos que invadam nossa intimidade, nem que nos toldem a vida. Matemo-los, primeiro! Ou eles nos exterminarão.

II

Onde a vida se fez, se faz e se fará, em cada esquina do mundo , no canto de cada poeta, na corda de cada guitarra, em cada uivo desesperado retumbando pelos quatro cantos da terra, dos céus e dos infernos, o anjo persistirá, e o banjo destruidor será tocado, tocando nossos corpos amortecidos com sua luz de grande intensidade. Serão ouvidos gritos repetidos, velhos blues voltarão pela noite, o rock alucinado pairando no ar como gotas, os velhos e novos cavaleiros quatro para sempre convidando a ver a vida que se encolhe sem jeito, não onde brotou o rock nem o grito desesperado do poeta, mas onde a mão incongruente traçou a linha e onde o grito fez-se ouvir, mas lancinante como o corte de espadas que calou as medusas líricas tísicas e pálidas: lembranças de lua, cadernos de viagem, domésticas alucinações: e o inferno pulsando, ao nosso alcance. E o céu, abrindo as comportas, convidando, convidando: A viagem no dorso dos poetas, dos profetas e dos mitos. O grito desesperado, a dor cortante, o céu e o inferno estão aí: os anjos sabem.

III

Eu fui tocado pela mão do anjo. Tu foste atingido pela luz do olhar do anjo. Nós nos transformamos, pela força da música que sai da boca dos anjos. Os anjos: suas mãos pálidas, seus longos dedos, suas noites de vigília. Sua insônia, seu momento criador, criaturas híbridas adensando-se na mente e no coração, ocupando o espaço, o tempo e a memória. Nós nos superamos quando, desobedecendo às ordens estabelecidas, encaramos os anjos, não com o medo a nós transmitido pela maioria, mas com a coragem de encarar coisas novas. Nós os resgatamos, do limbo a que estavam proscritos e os recriamos. Sim, encaramos e não nos arrependemos. Nós desobedecemos, comemos o fruto proibido, por isso somos e sabemos agora o porquê de tanto medo, de tamanha repressão. Os anjos incomodam, pela carga que trazem do novo; nós não tememos o novo, entretanto. Queremos romper as cascas, as couraças, ganhando novas alturas, sem medo das turbas e das tumbas ancestrais.
Nós não matamos o ano, nem por ele fomos mortos. Nós nos transformamos, e sabemos que dos ácidos verdes cabelos dos anjos, anjos outros hão de se criar, reperoduzindo a incoerência, fazendo crescer o não comum. E das valas da vida diária, destas valas apodrecidas em que temos vivido, um fulgurante brado surgirá rasgando a madrugada, quebrando as vidraças, destruindo para recriar. E os mortos gritarão, incomodados. Gritarão em uníssono, contra esta avalanche de coisa nova, de sangue novo que vem interromper seu sono de milênios.
Eu sei, nós sabemos.

IV

Eles estão conseghuindo. Estão conseguindo! Temos que nos mobilizar contra esta praga que a nós todos perturba. Estão roubando nossos jovens, que se rebelam e pregam contra nós. Eles são poucos, nós somos muitos, mas não estamos conseguindo! É necessário que acabemos com eles; para isso vamos intensificar a caçada. Não permitam que se aproximem, pois contaminam os locais por onde andam. Não há remédio para este mal.
A cidade inteira está em gritos, em pânico com a invasão dos anjos intrusos. Pelos inúmeros alto-falantes, espalhados pelos pórticos das moradias, a voz retumba, sonora e vingativa, clamando contra os invasores. Os habitantes abandonam suas casas, invadem as planícies, as montanhas, os topos das árvores e os fundos dos rios e do mar, procurando pelos anjos que podem assumir formas várias: são nuvens de algodão hoje, pássaros amanhã; ora são peixes, ora pedras. São frutos que se ocultam no mais alto das árvores, até vento são. E as pessoas abandonam suas casas, rumo à caçada, à árdua luta contra aqueles que estão em toda parte, onipresente ameaça. E a voz se eleva, cada vez mais soturna e áspera, conclamando ao extermínio dos intrusos. O que se vê então é uma incansável guerra contra tudo: florestas sendo derrubadas, nuvens bombardeadas, pássaros eliminados, peixes asassinados, pedras pulverizados. É a loucura coletiva que se apossa da multidão, destruindo tudo à sua volta, tentando livrar-se dos anjos, do feitiço dos cabelos verdes que geram diamantes e que convidam para aincríveis viagens cavalgando nuvens, que cantam de paradisíacos campos onde a poesia brota, cresce e se avoluma, transpirando pelos poros da vida, poema do dia a dia.

V

Eles, no entanto, reproduzem-se como os insetos e no pulsar de suas asas pulsa o sangue da vida, pulsa o novo: são crisálidas, grtávidas de luz, transformando os habitantes em fogueiras vivas. Dos seus cabelos verdes anjos outros hão de se criar, apesar da caçada insana. A idéia do anjo, guardada em sua pluriforma é a sua própria essência: não há como escapar à magia desta raça.

VI
Eu ouço falar de anjos, ouso falar de seus verdes cabelos e dos dimantes que brotam, virgens, de suas gargantas. E da luz irradiada pelos seus olhos. Além deles, o que nos resta? Uma cidade revolvida, florestas destruídas, rios secos, céus de chumbo, pássaros mortos, gente e gente cansada tentando eliminá-los. Numa luta inútil, já que eles não desistirão.

VII
Atenção: Declaramos cessada a temporada de caça aos anjos. Reconhecemos que nossos esforços foram inúteis;não há como detê-los e já não nos importa o que possa acontecer. Não sabemos que rumos tomar, sabemos apenas que incertos serão os nossos dias e drásticas nosssas vidas. Mas, definitivamente, não há como escapar aos desatinos e fascínio desta raça, que se reproduz como os insetos, derramando sobre nossas cabeças imagens candentes de sonhos, que há muito havíamos suprimido. Resta-nos apenas o retorno às nossas habitações, sentindo no ar este acre odor poesia e de música, penetrando em nossas carnes como adagas frias e impiedosas: estas marcas do anjo.



sobre a obra
texto escrito em 1983, inspirado por um grafite " Die Angels" e por um verso de Rilke, in " Elegias de Duino"

"Quem, se eu gritasse, eentre as legiões do Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrivel. E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro"

terça-feira, 16 de setembro de 2008

TRINDADE SACRATÍSSIMA


Cérebro/cerebelo
Fonte/ponte
Entre o ser
E o belo.

Cérebro:
mente,
Espírito
Cons-ciência

Trindade
Sacratíssima
A reger
A vida.

sobre a obra

O homem como um todo, todo homem como ser único, corpo,mente e espirito em perfeito equilibrio a reger os elementos.

sábado, 6 de setembro de 2008

SEDA


Ny-lon - Flickr/vanMagenta


Entre as dobras do tempo
eu me dobro.
Entre suas fendas
me escondo.
Sob as ondas do tempo
soçobro
qual partícula de areia
intangível
que se dilui no turqueza
das águas.

Ah! As águas do mundo
me embalam
e me embolo, qual feto
aturdido
aos primeiros frêmitos
da luz.
...
Ah! Mundo, mundo, mundo,
como são várias
suas leituras
e possibilidades!

Onde me dobro,
onde mergulho,
onde me encolho,
Onde me escolho,
Onde me acolho?

Onde guardar
meus fardos
meus fados
meus dardos
E meus casulos
que antecedem a seda
mais fina,
e a renda
mais perfeita?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

FRACTAIS




Eis-me aqui
em carne e verbo
inteiro
e dividido
em milhões
bilhões
de fractais
de sombra e luz.

Eis-me aqui
caleidoscópio
de caos e ordem
na tábula rasa
das primitivas
emoções
universais:

decifra-me!
ou te devoro,
poesia!

sobre a obra
um nanopoema sobre o macro e o microcosmo.

domingo, 3 de agosto de 2008

ILUMINURAS


Há que se descobrir
nas entrelinhas
o sentido táctil
o tato oculto
de todas as palavras.

Senti-las nas mãos
rolá-las como seixos
como peixes,, amá-las
na clareza do aquário.

Perceber, com os lábios,
suas texturas,
tessituras acridoces
de frutas maduras
e mordê-las
sorvendo sua carne:
sumo prazer.

Na pele, acariciá-las
como flores no cio
em orgasmos líricos
lúbricos lírios
alvos
a corar no gozo
do pleno entendimento.

Há que se desfolhar o poema
Há que se amá-lo
como se fora
o último sobre a terra
como se fora
o primeiro
e derradeiro amor.

As palavras estão vivas.Pulsam
nos veios do papel.
As palavras tem veias, seios,
sexos
e querem de nós muito mais
do que simples toques,
de comuns mortais.

Querem nosso mergulho
irracional
incondicional
sem escafandro
ao fundo do seu mar.

Descobrir sutilezas
e deslumbramentos
como nácar de pérolas
e iluminuras de corais.


sobre a obra
As palavras estão vivas, pulsam, clamam por nosso mergulho em seu mar interior.

terça-feira, 15 de julho de 2008

terça-feira, 8 de julho de 2008

À SOPHIA


foto "A chair" de luiznavarro/Flickr

Instante

Deixai-me limpo
o ar dos quartos
E liso
o branco das paredes.
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.

Sophia de Mello Breyner Andresen
De "Livro Sexto II" (1962)



Em silêncio
contemplo a quietude
a beatitude
das coisas claras:
o sol adentrando
os quartos
e espantando a noite
desenhando nas paredes
mosaicos de luz.

As paredes brancas
são meu espelho
a transparência
da minha alma

O silêncio murmura
em mim
suas exigências:
estar assim
mudo
assim
quieto
assim
zen
assim sem
sobressaltos.

Como pássaro
no raro instante
do pouso.
instante


Um poema-tributo à poeta portuguesa Sophia Andresen

domingo, 6 de julho de 2008

BARROCO


Sou um poeta barroco
e pendo
entre céus e infernos
entre verões e invernos.
Navego
cego
no brilho opaco do olho.
Colho flores do espírito
nos jardins do Eden
e frutos sensoriais
nos rastros da serpente.

Sou barroco
e me entrego
aos prazeres do corpo
buscando saciar a alma
que derrapa, inconseqüente
entre o quente da carne
e a calma da chama
que arde, eterna.

É terno meu caminhar
mas são volúveis meus passos
que passam
às vezes lentos
às vezes tensos
entre vicios e virtudes
entre luzes e sombras
numa zona cinzenta
de idéias indefinidas.

Oscilo
entre o vazio e o pleno
entre o puro e o obsceno.
Aceno
ao ubíquo
e ao ambíguo
desejo obliquo.
Divago
entre a superfície e o fundo
entre o agudo e o obtuso.
Intruso
indecifro-me
no âmago da escuridão
buscando as imensidões
da sombra e da luz.
Sou paz, sou pus
componho-me e decomponho-me
numa antítese imperfeita.

Em um mundo óbvio
sem mitos e metáforas
sou palavra em transe
transmutando-me
em multiplicidades.

Sou um anjo torto
de asa quebrada
e sorriso morto
sem norte, sem porto.

Sou anjo barroco
que sobreviveu
às intempéries
e que busca um caminho
um destino num mundo
onde anjos já não tem vez
nem voz.

Bsb, 06/07/2008 sobre a obra

segunda-feira, 19 de maio de 2008

MANTRA

s OM os
s UM us.
E em nós,
húmus
nus,
a poesia do cosmo
faz-se em luz.


sobre a obra
o homem e o universo, num abraço cósmico, num poema de múltiplas leituras.

terça-feira, 13 de maio de 2008

O PASSADO NÃO PASSA

Hoje acordei meio down, deixando as memórias afluírem em mim como geisers lá do fundo da alma, lá dos cantos recônditos do coração. Estive pensando, engraçado como o passado não passa, ele é como um rio circular, cujas águas correm, ciclicamente, ora em redemoinhos, ora em calmarias, refluindo todas para os mesmos lugares: as nossas vidas.

Sim, esta imagem do rio circular não me sai da cabeça, yin e yang, a cobra mordendo o próprio rabo, o oito do infinito, tudo, tudo, refluindo, voltando, tudo armazenado em nosso cérebro, este computador poderoso de não sei quantos milhões de gigabytes.

É, a memória é mesmo essa arma poderosa, e as lembranças e saudades são sua expressão mais bela...Falando assim , vou deixando fluir o meu rio interior, lembrando-me de tantos fatos, mas principalmente da vida ao lado do meu pai, Antônio de Abreu Lima, que já se foi há quase dez anos... Dez anos que parece não passaram, são as eternas ondas, as eternas águas do rio... uma vez escrevi um poema onde eu dizia:

Minha memória é um rio
De onde fluem as lembranças
E as emoções
É o porto onde me aporto
É o laço onde me aperto
É o leito onde desperto
Das minhas indagações.

Meu pai era uma figura ímpar, de um beleza interior rara. Para ele, não havia problemas que não pudessem ser resolvidos, não havia pobre ou rico nem preocupação com aparências. Ele cuidava de todos e atendia a todos da mesma maneira, a todos dava sua atenção, contava seus casos de mineiro, dedicava seus dedos de prosa e cantava suas marchinhas que ele adorava compor e cantar, a todo momento, quando encontrava audiência disposta a ouvi-lo.

Ele era um poeta, desses que viam poesia em tudo, para quem a vida era uma festa constante e que valia a pena viver a cada segundo. Lembro-me de quando eu era pequeno, e ele me contava estórias engraçadas, de festas a que ia na roça, e que na volta vinha trazendo docinhos e comes e bebes para nós, crianças que havíamos ficado em casa, mas que foi atacado por uma onça, na trilha, ou por uma cobra, quando atravessava uma ponte, e que as guloseimas caíram e que nós ficamos na saudade.

Lembro-me ainda de momentos mais distantes, quando ele cantava para mim, que ainda era pequeno, canções de ninar que ficaram na minha memória e que não esquecerei jamais. Havia uma que dizia assim “ O porquim chinês, o porquim ladrão, o porquim dourado foi-se embora pro sertão”. Outra, cantava “ Balão custa dinheiro, dinheiro custa ganhar, arreda papai, arreda mamãe, deixa o meu balão passar”.

E passaram-se os anos, e a gente cresceu. Colégio, depois o primeiro emprego, e a saída de casa, para morar na capital. Meu pai, sempre cuidadoso, sempre zeloso. Quando eu voltava a vê-lo, semana sim, semana não, ele sempre me esperava no ponto de ônibus, na chegada, sempre me levava ao ponto, na despedia. E era um carinho assim inusitado.

A gente foi crescendo, a vida passando, faculdade, idade madura, namorada, casamento, filhos, para o meu pai eu era sempre o seu menino. E ele adorava me elogiar com seus companheiros, contava do filho trabalhando em Brasília, num bom emprego. E adorava a Terezinha, minha esposa, e ainda brincava com ela, dizendo-lhe que quando ela havia nascido, a mãe dela Dona Rita e ele haviam combinado que nós dois, os filhos, estávamos destinados um para o outro, e que nos casaríamos um dia. E dizia para ela: Você é minha nora favorita.

Eu tinha com meu pai uma simbiose perfeita, uma comunicação não verbal, de alma, pois eu sempre gostei de meditar, de divagar, de escrever, de poetar, desde lá dos finais dos anos 60. Sempre adorei música, e meu pai era ligado também na poesia e na música, mas de uma forma muito popular, nada sofisticado nem erudito. E nós juntávamos nossas vozes, diversas vezes, e cantávamos juntos, e eu gravava cassetes em que ele e eu interpretávamos músicas de serestas, como “Elvira escuta”, “ É a ti flor do céu”. Com ele, aprendi um monte de músicas antigas, Carlos Galhardo, Dilermando Reis, Vicente Celestino, e outros mais.

Sempre quando eu ia a Alvinópolis, sentava-me e cantava com ele e meu tio Francisquinho, que era nosso vizinho. Como era bom a gente junto ali, cantando, contando casos... Ah, se o passado não passasse! Porém, o tempo vai passando e a gente nem percebe, ou nem tempo para reparar na sua passagem.

Meu pai foi ficando mais velho, meus filhos já estavam crescidos, e de repente ele começou a fraquejar. Depois de uma cirurgia de catarata, quando teve que tomar vários remédios para não ocorrer infecção, começou a reclamar de vários problemas. E começou ali o seu definhar, o seu murchar. Tonteiras, às vezes tombos, e já aquele ar desligado de quem aos poucos vai penetrando outras esferas, buscando talvez se acostumar com a idéia da partida.

Lembro-me até hoje da última vez que o encontrei com vida. Foi num julho, de 1998, quando fui visitá-lo, nas férias. Passei alguns dias lá, e no dia que vim-me embora ele foi, como de costume , levar-me ao ponto de ônibus. Estava feliz, mas senti nele aquele estranhamento, aquele olhar já perdido no infinito. E viajei preocupado. Engraçado que foi naqueles dias que tirei as últimas fotografias dele em vida. Não me esqueço nunca de vê-lo em frente ao espelho, arrumando o cabelo, ajeitando o bigode, e acertando o chapéu, para que a foto saísse legal. Tirei diversas fotografias dele, mas uma delas, daquele dia, acompanha-me até hoje, ele com seu indefectível chapéu, de perfil, foto que ampliei e coloquei em seu túmulo, grande, colorida, como grande e colorido ele foi em vida.

Meu pai morreu num dia de agosto, mês de triste fama, que para mim tornou-se mais triste ainda. Morreu no dia 4, e com ele enterrei minhas lembranças de infância, minha alegria de juventude. Para ele compus marchinhas, semelhantes àquelas que ele compunha enquanto estava vivo, cantei com ele diversas marchinhas, até fui co-autor em algumas. Compus poemas, buscando aplacar a dor que senti com a sua morte, dia em que chorei e sequei rios de lágrimas.

Realmente, meu pai partiu e levou consigo muito muito de mim. Vê-lo em cima de uma mesa fria de hospital, abraçá-lo, sentir a rigidez de seu corpo e a opacidade de seus olhos foi uma dor inominável para mim. Mas um duro aprendizado, de que a morte chega e não há o que fazer, a não ser aceitá-la e tocar a vida em frente.

Meu pai morreu já há quase 10 anos. Mas nunca me afastei dele; em verdade, nem ele se afastou de mim. Sonhos, foram diversos, de todas as naturezas. Sonhei com ele coisas quase difíceis de explicar como se fossem visões, em que me contava da vida do outro lado, sonhei com ele entre jardins, entre flores, também em situações mais complexas, mas sempre sua presença é uma constante em minha vida.

Hoje, eu sei que o passado não passa e é como um rio de águas circulares e concêntricas. As ondas vão se ampliando, se reproduzindo, mas cada uma sobrevive á outra e se justapõe, se sobrepõe.

Nos meus momentos de dificuldades, de inquietudes, de sofrimentos, mesmo de indecisões, estou sempre a recorrer à sua memória, à sua alma, pedindo discernimento e ajuda. E é um fato incomum, eu acho, sempre me vêem as respostas, as soluções, as ajudas, nunca fico sem respostas quando recorro à sua intercessão.

Meu pai e eu sempre tivemos essa simbiose, este partilhamento, esta intimidade. E a morte dele não interrompeu esta história, apenas colocou-nos em dois níveis diferentes.

...É, o o passado não passa, apenas as ondas se justapõem, se contrapõem, se sobrepõem. Mas jamais extinguir-se-ão, como jamais extinguir-se-á o amor verdadeiro, baseado na intimidade, na afinidade e no compartilhamento de duas vidas.

Brasília, 13/05/2008

Um texto em homenagem ao meu pai, ANTÔNIO DE ABREU LIMA, nascido em 1914 e morto em agosto de 1998, em Alvinópolis-MG, e que me deixou exemplos de vida singulares e lembranças inesquecíveis.

EM SILÊNCIO

Meu silêncio é minha estrada,
minha reta, minha meta,
meu discurso, meu percurso
nas névoas da madrugada.

E madrugando, caminho,
entre urzes,luz, espinhos,
urdindo a inspiração:

No lusco-fusco da tarde
sem barulho, sem alarde,
meu poema , como mar de
sargaços ou sempre-vivas
instala-se em meu coração.

E na mansa madrugada
prenhe de sonhos e promessas
nessas horas de desvelo
em que se enroscam os amantes
como fios de novelo
o poema agarra-se a mim:

enrosca-se, encosta-se,
e em resposta
recebe o meu breve sim.

13/05/2008

Poema sobre o verso:

Meu silêncio é estrela-guia
Quer cada verso inquieto
Quer ter o amor por perto
O olhar de sabre que fita

do poema " O silêncio" de
Nina Araújo.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O QUE SERIA?

O que seria das noites
sem seu cortejo de estrelas
sem os cantares dos grilos
e as luzes dos vagalumes
a iluminar seu negrume?

O que seria das manhãs
sem as orquestras de galos
anunciando as auroras
e tecendo cores novas
como tramas de arco-íris?

O que seria das tardes
sem alardes
sem os cantos das cigarras
sem crianças, sem barulhos
e arrulhos de pombos?

E o que seria dos homens
sem a lira, o delírio
e os lírios do poema?

Seriam todos mais tristes
todos tigres enjaulados
presos aos vãos
desvãos da miséria humana:
a poesia é que nos redime
desta sorte insana.

sobre a obra
Poema em homenagem ao poeta João Cabral de Melo Neto, inspirado no poema "Tecendo a manhã".

quinta-feira, 8 de maio de 2008

SAUVAGE

Inconsúteis teias tecemos
ao redor do inconsciente
como aranhas artesãs
antecipando as presas
das manhãs.

Não sabemos,porém,
quando surgirá a fera
que ruge
vomitando
ameaças e mordaças
sobre pássaros indefesos.

Às vezes, os pássaros
é que se transmutam em feras:
ver um bando de garças
a destroçar com os bicos
restos mortais
de pardais
dói, mas devolve-nos
dos píncaros
aos precipícios.

A inocência lírica da criança
brincando indefesa
brindando-nos com a beleza
de olhos de luz:
De repente, o pus.
o mal, o horrível
que se verte pela boca,
que escoa, que voa,
como agourentas aves
buscando rapinagens
inimagináveis
entre destroços.

Os líricos lírios
de alvura transcendental
crescem, viçam,
sobre o pântano fétido,
sobre o lodaçal.

E o bom selvagem?
Onde anda o bom selvagem
a imagem miragem de Rousseau?

IMPONDERÁVEL

O fio tênue que desfia a vida
e nos mantém aprisionados
como bêbados bailarinos
buscando o equilíbrio
no imponderável
é que nos cinge ao imaginário
cenário real.

O aço frio das noites
adagas impiedosas
cortam a carne:
hélices
ensandecidas.

O fogo dos verões
ferros em brasa
queima a pele solitária
sem anestesia.

Os barcos já se foram
ou sequer saíram
do cais.
A música já é finita
infinito é o desejo
de voltar atrás.

Mas, não há voltar atrás:
A vida segue, como o rio,
sinuosa , como arremedo
de réptil.

Amar é o remédio.
Que remédio?
Entre o salto e o mergulho
Entre o tiro e o alvo
Entre o vôo e o pouso
Pulsam as possibilidades.

Tua mala está aí. Toma-a
e parte rumo ao sonho
que inda é possível sonhar.

terça-feira, 6 de maio de 2008

PORTO

Onde aportei meu corpo
não havia porto
definitivo
e os ventos sopravam do alto mar
seus segredos incontáveis.

Meu corpo à deriva,
qual barco
me acolheria?
Minha alma a vagar
em ondas, onde anda
meu pensar?

Este porto em que me aporto,
esta porta em que me adentro,
este perto que é tão longe:
cisma a alma, sobre as águas
que em torvelinhos vão:

O mar é grande,
grande é o mundo,
enorme é meu coração.

Poema sobre verso do poema " Apoteosicidades"
André Teixeira · Aracaju (SE

segunda-feira, 5 de maio de 2008

AZUL ( sobre poema "No meio do caminho uma flor de lótus...) de Raiblue

Radioativo, meu espírito irradia azul
Desmancha céus de estanho
Nos castanhos olhos nus da madrugada”
RaiBlue



Meu espírito, perdido na imensidão
de um espaço blue,
vagueia, vagabundo, pelas madrugadas,
buscando o blues antigo, aquele blues
girando como ciranda, billie holiday
blue gardenia
que nos eleva, enleva-nos e nos leva
de volta ao caminho de Santiago
ao sagrado segredo
da diáfana e transparente
flor de lótus
A transmutar nossos chacras
em pura energia azul.

Azul, azul, translúcido azul
a nos trazer de volta
ao ventre do universo
ao tépido calor do verso
Que inda éramos,
antes de nascer.
azul luz azul, nirvanas prometidos
Paraísos visitados,
nas asas dos poetas,
viagens astrais:
eia, vamos pois, navegar nas águas
puras e serenas
Dos poetas viscerais
seminais.

Eia, vamos pois,
desmanchar os céus
de estanho,
de estranhos chamados
que não são para nós:
vamos lançar bombas de versos
sobre os céus de chumbo,
sobre os céus escuros
e seus significados obscuros.
Vamos rabiscar,
com o azul do lápis-lazúli
em nossos cadernos de estórias
de memórias.

Vamos lançar chuvas azuis
a reverter chuvas ácidas
de corações duros
e empedernidos
que não ousam ser.

Eia, vamos lá, converter
estes estranhos céus de estanho
em castanhos e perfumados
olhos nus da madrugada
entranhas da madrugada,
e vamos, ornados de flores de lótus
e de gardênias azuis
deixar o blues correr solto,
Sofrido, lírico,
trazendo-nos sensações de deja-vu:
Blue, blue, blues
Transforma todo o cinza
Em luz!!


Danilo de Abreu lima- Brasília, 31 de março de 2008.
sobre a obra
Um poema sobre verso do poema" No meio do caminho, uma flor de Lótus..." de Raiblue