sábado, 31 de janeiro de 2009



foto flickr/ fábio pinheiro

O universo vibra
suas cordas
em suave diapasão
contrai-se ou se distende
preguiçosamente
como as palhas do coqueiro
se movem
à brisa do verão.

As cordas do universo
em movimento
movem os elementos
água,terra,fogo, ar
num jogo de instrumentos
que compõe os tons
colore os sons
da sinfonia maior
da canção
indescritível.

Das cordas do universo
em vibração
nascem árias de sopranos
e os sons guturais
dos palatos
e cordas vocais:
sons de metais,
tons de veludo,
tudo
se transformando
e criando harmonias
em múltiplas dimensões
de espaço-tempo
de brisas,de ventos...

O universo toca
em suas cordas
a contínua melodia
que se expressa no verso,
no reverso,
que reverbera
em ciclos
em nosso plexo solar

O universo todo é pura,
rara música,
nestas cordas intangíveis
Inaudíveis aos ouvidos dos humanos
que não a sabem escutar.

Mas as palhas do coqueiro
à beira mar
ouvem os cânticos
quânticos
do universo
que se insinuam
nos ventos alísios,
nas ondas,
no azul profundo
Do infindável mar

sobre a obra:
O universo pulsa nas cordas quânticas, em dimensões inimagináveis aos olhos humanos... e a poesia pulsa nos versos arrancados do peito e das cordas dos instrumentos.

ORA DIREIS, VER UNICÓRNIOS!


Poema inspirado pelo conto do autor americanoJames Thurber, " Um unicórnio em seu jardim"
foto " Unicórnio II" no site Flickr/Ferran

O unicornio passeia
no jardim
sua implausibilidade.
Entre os jasmins
e rosmarins
passeia, plácido,
o unicórnio
pastando rosas
e lírios
delírios
de quem o vê.

È impossível estar ali
aquele unicórnio
ímpar
mítica imagem
como seus irmãos
centauros
e minotauros
a torturar retinas
camufladas
em paredes
de pedra.

É-lhe impossível
estar ali
pastando musgos
e rosas
em plácida postura.
No entanto
Ele ali está
desafiando os olhos
que teimam em decretar
sua inexistência.

O unicórnio pasta
no jardim
comendo rosas
e lírios.
Sim. Ali está
E ai de quem não o vê
Com os olhos do coração.
Perderá a razão
Do sonho
E o sonho da razão.

E só lhe restará
A camisa de força
do real
Que aí está,
todos os dias,
em toda página
de jornal.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

mais do mesmo (did u remember Zeppelin? )


foto: flickr/francisco(gifted)- por da lua (cheia)

Perguntas-me, meu amor,
porque caminho a esmo
sobre as trilhas
sobre as linhas
por que volteio
e por que sempre retorno
ao mesmo
velho tema
que teima em arder
no peito
no jeito, no pincelar
das palavras
com pincéis de cores
ora fortes
ora neutras
em que afloram os sentidos
e os sentimentos insones
desejos subterrâneos
buscando vir à luz.

Perguntas-me meu amor
que poemas são esses
de uma rima só
em que se repete,
indefinidamente,
a mesma velha cantiga
muda cena do poeta
que já não morre de amor
nem de cólera
ou de tuberculose
ou de overdose
morre-se de tédio
nestas tardes mornas
sem perspectivas
sem saídas
sem entradas
ou bandeiras
ou ideologias.

E eu penso no tempo:

lembras-te, meu amor,
como nos velhos tempos
ficávamos, horas a fio,
madrugada a dentro
lentos, calmos, plácidos
como as auroras
discutindo os poemas de amor
de Éluard, de Vinicius,
de verlaine
os êxtases de Tereza
e as múltiplas faces
das pessoas de Pessoa
em cujo país havia o Tejo
e o tédio
que se buscava matar
na tabacaria
e nas infindáveis odes
devaneios marítimos.
E olhávamos a lua, as luas,
quantas luas se passaram?
quantas cheias, minguantes
ou novas luas passaram
enquanto nós discutíamos
o amor na poesia
e os curtos poemas-concretos
Objetos
Abjetos
dejetos
dos surrealistas
e os líricos
telúricos cânticos
à humanidade
do irmão Whitman!

Ah! meu amor
contigo viajei
nas estradas dos sessenta
um poema na mão, a flor
na cabeça
e o sonho dirigindo
digerindo vidas
delineando a estrada
aos riffs sonoros das guitarras
e vozes rascantes
de ídolos
que tinham pés de barro.

Perguntas-me, meu amor,
quanto tempo, tanto tempo
se foi e a ainda canção
continua a mesma?
Quantas luas, quantas quedas,
tantas pedras
quantos precipícios
quantos inícios
tantas flores mortas,
estradas tortas
sonhos desfeitos
e a canção ainda
é a mesma?

E eu te digo, meu amor,
é a mesma canção
que nos embala
como bebês-mandala
girando na roda
do véu de Maia:
o tempo passa,
o tempo não passa
o tempo desfia
a meada do novelo
desafia a memória
e se reconstrói
como fênix.

Por isso, os poemas
a busca pela palavra
e por sua magia
pelo seu poder
de luz
que seduz
e se traduz
em versos, urdidos pelo tempo,
que pairam, depois de lidos,
como imagens de um universo
paralelo
onde pairam
bandos bêbados de poetas:
bêbados de beleza
bêbados de encantamento
bêbados, contemplando,
os novos bêbados
de poesia
que se entregam
ao doce ofício
De sugar das palavras
todas possibilidades
que pulsam, entre céus
e infernos,
eternas,
ao alcance daqueles
que souberem mergulhar
Em seus cânions
nervos, carne
e sangue:
o verbo que se faz
carne.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

sobre/nomes

o poema fala
a música
dos seus próprios nomes.
Nominar o inominável
Gravar o indelével
Penetrar o inescrutável
é querer dar nomes
aos que fazem da palavra
sua lavoura diária.

Ouvir bilac, de seu parnaso,
ouvindo estrelas
in extremix
ninar bandeira
com seus versos
meninos
Roubar de drummond
a memória do ferro
das minas que não
há mais.

Cantar com cecília
as canções eternas
daquilo que é efêmero
e com adélia
os cantos sacro-profanos
deixados nos panos
de prato, das canções.

Sofrer
com florbela
Com plath,
Com clarice
as dores femininas
do amor
não amanhecido.

Penetrar nos infernos
em todas as estações
nos odores dos jardins
de baudelaire
e amar as musas loucas
de appolinaire
e subir aos montes
e descer
aos vales
e savanas
com verlaine
e rimbaud
tudo que se amou.

Como lautreamont
gozar os gozos impensados
e se atirar às alturas
e às profundezas
como blake.

Nominar os sentimentos
num onomástico rol
de onomatopéias
que possam traduzir,
para cada poeta,
suas epopéias
na busca
pela palavra perfeita
a definir
suas vidas em sonhos
num mundo imperfeito.

Difícil feito.

Blablablá

o que há
no espaço
entre o beijo
e o abraço?
o amor é longo,
é curto,
é um surto, que cabe
no ritmo de um respiro.

é um suspiro, o amor,
que vidra o olhar
e penetra a retina
amarfanhando a rotina
como se amassam os lençóis
ao calor dos corpos nus
aos sóis de cada dia.

pura magia.
puro encantamento
esse momento
em que estamos,
estáticos,
almas nuas:

um cromo
a se guardar para sempre
como vivas sempre-vivas
numa página de diário.

esse momento é o que há.
O resto,
bem, o resto
é blablablá.

assim é, se lhe parece

assim é,
se lhe parece:
prece
súplica
revelação
a poesia, que penetra
surdamente
no reino da imaginação
e busca
em silêncio,
em sussuros e cicios
a alegoria e a metáfora
da sua própria essência.

Poesia. pão
chão
que se pisa sobre o vento
tão
silenciosa
quanto o canto
quanto o pranto
que mesmo à menor vertigem
provoca arroubos
e assombros
de tambores,
soando
no peito do mundo.

nos quatro cantos
do mundo.

poesia
força motriz
matriz de idéias
matiz de aquarela
arcoírica
anarquilirica
nutriz
de seios túrgidos
de leite bom.

poesia
aquela que se busca
no fusco-fusco da tarde
que arde,
fogueira em brasa
ou em brisa refrescante
como hálito de fadas.

faz da poesia sua casa
sua festa
sua fresta
para o infinito:
faz da poesia
a matéria iridescente
incandescente
do seu silêncio
e do seu grito.

exercí (cio) da palavra

sei que sou pouco lido
ou quase nunca lido.
é com a palavra que lido
e não me intimida
este falar
para ouvidos surdos
ou para urzes bíblicas:
a palavra é minha lida
minha vida
é lapidá-las
como jóias raras
e tecer-lhe iluminuras
em tessituras
de sonhos
urdindo-lhe tramas
e teias
veias
de veludo
e âmbar
na maciez
de pétalas
e pelicas.

a palavra fez em min
sua morada
e minha alma
é a sacrossanta casa
da poesia
que arrepia a pele,
que brota,se avoluma
como flor,no cio
de explodir
em fruto.

por isso, não me assustam
os versos não lidos
Os olvidos
os verbos não ditos.
assustam-me, sim,
a grandeza e a força
da palavra
desta lavoura arcaica
que, no entanto,
sempre é preâmbulo
do novo:

palavra-ovo
em explosão
de vôo.

domingo, 30 de novembro de 2008

ANARQUIPOESIA

Hoje amanheci poeta e estou entardecendo perdido na prosa. Prosear sobre poesia, sua natureza e exigências, sua dependência do poeta assim como o poeta depende dela, assim como o poeta depende do ar para respirar e da palavra para se expressar em meio às multidões apressadas, ensimesmadas e sem palavras para com aquilo que a rodeia.
A Poesia é uma musa exigente e premente e nuca se sabe quando chega ou quando vai. Coloca-nos em eterna vigília, a buscar a senda das maravilhas e das palavras inauditas, encantadas, novíssimas em sua formulação e em seu entendimento, como diamantes recém- convertidos de um carbono abrupto. A poesia é assim, ataca-nos de repente, ata-nos as mãos do fazer diário e se instala, sorrateira e brejeira, em nossa mente e coração, que fica lírico a buscar revelações e encantamentos. E nos atracamos com ela, enrolados em seu leito de lírios e rosas, de cheiros e luzes, plenos de imagens que querem se traduzir aos olhos outros pela construção e encontro da palavra perfeita, da palavra que traga a luz, ao mesmo tempo tragando a luz que brilha em nossa mente.
A poesia é isso: uma busca pela tradução, mais que perfeita, dos sentimentos imperfeitos, das nossas contradições, das antíteses que somos e nunca queremos deixar transparecer. A poesia, para isso, depende do poeta e o poeta depende da poesia,e muito mais, da plena liberdade, aquela gritada a plenos pulmões, daquele ar que escapa do escafandro deixando o mergulhador à mercê da água que lhe rouba os sentidos...
A poesia necessita liberdade, incondicional e irrestrita, para que seja gestada e resgatada do limbo a que muitas vezes a condenamos. Por isso, rima não com burocracia, mas com anarquia e com apostasia. A poesia é avessa aos controles, às planilhas, às escotilhas, às camarilhas, às escolas, às escolhas, é avessa aos sistemas e regimes; o que a poesia busca é a pura tradução da beleza, este ser abstrato que se oculta nos mais inusitados lugares... Por isso, o poeta não deve e nem pode, enquanto poeta, preocupar-se com números frios, mapas de controle, perfis produtivos, gráficos e estatísticas. Vamos sim, nos preocupar com o pranto não chorado, a palavra não dita, os matizes ao invés de matrizes algébricas, com o homem e a mulher, enquanto seres iluminados e antenados com o universo no qual vivem.
Por isso, enquanto poeta, não busco o raciocínio dos números e a frieza das estatísticas. E registre-se que, paralelamente, trabalho com números, que no contexto adequado, também possuem sua beleza... aliás, esta já é outra praia pois, para os matemáticos, os números são plenos de luz, beleza, incertezas e inesperado e isso, diga-se de passagem, também é pura poesia.
No entanto, quero aqui celebrar a liberdade e o dever do poeta de trabalhar sempre a palavra, como o fruto de uma lavoura não árida, de uma lavoura fértil, de onde brotem os sentimentos e as sensações apreendidas enquanto homens, dominados e dominadores, senhores e irmãos da natureza.
E para isso, sejamos anárquicos e deixemos que as palavras nos transportem aos mundos exteriores e interiores, e façamos dela nossa arma e nossa alma, faça-se a luz ordenou Deus, faça-se a sua tradução por meio da poesia, conclamou o poeta.
E sejamos assim, teses( como nos poemas-conceito, matrizes para outros e outros e outros poemas), antíteses ( como nos poemas barrocos, contrastes perfeitos para a natureza humana, sua luz e escuridão), sínteses( como nos poemas concretos e haicais, equações líricas e pequenas flores de cor e forma intensas). Sejamos menestréis medievais, cantando barcarolas, sejamos clássicos, em sonetos formais, sejamos parnasianos, buscando a jóia perfeita da rima e do conceito, sejamos simbolistas, dando voz aos nossos elementos interiores, sejamos naturalistas, dadaístas sem um sentido aparente, sejamos surrealistas transmutando as palavras em imagens sinestésicas e sensuais, sensações pictóricas, sejamos sintéticos e prolixos, sejamos modernos, reeditando 22, sejamos enfim, eternos, e assim estaremos sendo contemporâneos, expressando os medos, vozes e vórtices do nosso tempo, esse tempo que não é só cronológico, mas também sentimental emocio-lógico, baseado em nossas idiossincrasias e relacionamentos com o mundo e as gentes.
Vamos pois, poetas, construir nossos opus de luz, mesmo em meio ao pus, ao pó, mesmo em meio às descrenças e desavenças, lançar nossas sementes de beleza que um dia, quem sabe, contaminarão a todos, tal qual uma pandemia, um pandemônio , uma ode à alegria de viver!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

NO RIO CAUDALOSO DOS SENTIDOS

ART MIRROR/flores de vapor by Guiprimola(guiprimola@yahoo.com.br)


Como quem
não quer
nada
Nado
Nudo
No rio caudaloso dos sentidos
Na cauda dos cometas e dos mitos
Poetas malditos.
E mergulho. Sem escafandros
Nos meandros da palavra
Que engendra versos
Que medra sonhos
Em meneios
De vozes
E de sombras.
E mergulho. Buscando
A luz mais que perfeita
No verso desconhecido.
Como o calor de corpos
De amantes amalgamados
Em camas e escamas
Subaquáticas.
Os céus derramam verdes
Frutos sobre a terra
E os troncos crescem,
Alçando-se ao léu.
Ao longe, dentes de leões
Ameaçam despedaçar-se
Ao sabor dos ventos
Mas se acalmam
Ao ver os azuis ensandecidos
Das musas de Picasso
E de Matisse
Matizando os cromos
Do arco-íris
Que se deita, estático,
Estético,
Na íris dos olhos
E dos lilazes.

E eu mergulho, assim,
A nado,
nudo,
Mudo
No reino silencioso
Das palavras
Que tecem casulos
E venenos
E nos conduzem
A píncaros e precipícios.

sábado, 18 de outubro de 2008

ELE.ELA.ELES


CENA I
A paisagem se desdobra à minha frente
feita de brilhos e barulhos matinais.
Mas não me importo. Não me interessam
estas mornas tardes outonais.
Em meu peito chove. Rugem vendavais.

CENA II
Ela não. sente-se sozinha senta-se no vão da escada e começa a pensar. pensar.
“Eu me perco na minha própria perdição. Ando muito desligada, buscando trilhas, maravilhas e não vejo a vida que corre ao meu lado, cobrando, cobrando, feito cobra serpenteando ora fria ora quente o bote armado... Nada me importa e a viagem não tem fim. Fui. Fim. “

Ela lembra os velhos filmes e os desgarrados personagens de Nazarin e os figurantes do banquete dos mendigos. Putas, abandonados, cães vadios saídos dos becos de Brecht, gente sofredora que desfila por seus olhos pedindo uma chance de se mostrar, de se revelar, de poder soltar os seus clamores.

CENA III
Ele deitado. Na cama um tédio sem remédio. Ontem foi sexta e ele só chegou no sábado noite selvagem sexo sexo sexo foi amor foi paixão? Não, foi só tesão acumulado, desejo de outro corpo, desejo estimulado pela mídia e pelo vício álcool na veia paraísos artificais que luta o que é que eu busco afinal onde é que eu vou para que estou aqui? São tantas e tontas perguntas e a vida corre, sorry. a vida corre, a noite escorre, o mundo é um grande porre, cadê as adocicadas lovistoris onde é que eu entro nesta história? Cansei, dancei.nem sei. Penso e lanço meus medos ao espaço e meus medos me invadem e se materializam e voam, soltos nos ares, feito vampiros feito nosferatus desilsudidos e desesperados querendo sangue mas muito mais que sangue querendo afetos e afoitos se desintegram aos primeiros raios de sol e aos mínimos sinais de carinhos ou caricias em suas faces túrgidas e lívidas de habitantes da noite. Ah, que pesadelos são estes que agora me atormentam?

CENA IV
Ela no vão da escada. Ele, deitado na cama, em seu tédio sem remédio, ouvindo canções que não se usa mais, valsas vienenses, bosques de imperadores, se esta rua fosse minha ah, eu mandava te buscar... foda-se, eu quero e gosto das canções antigas... ah, que tédio estes baticuns de hoje em dia....

Ela se levanta do vão da escada, borra boca de baton. Vermelho vivo, como a vontade de se entregar ao primeiro cara que encontrar pela rua. Ela se levanta e vai ao encontro do destino. Que destino? Ele, o cara do tédio sem remédio, das músicas que não se ouve mais do sexo selvagem que não tem a ver com paixão e com amor? Ele mesmo.
Ele, a esmo, sai da cama e se veste, feito um robô. Bota a bermuda. A cena muda.

CENA V
Um encontro romântico nos bosques de Viena ao som de strauss longos vetidos brancos rodopiando sonhos enquanto vampiros negros nosferatus e dráculas sobrevoam os salões guardiões do cara do tédio. Ele. Ela. Eles. E daí?
Daí, há de sair alguma coisa de concreto sangrando a cena, alguma carícia mais afoita, uma noite de prazer, duas ou três noites de trepadas, sim, e daí? A vida é só isso aí?
Onde ficam os sonhos, os devaneios, as buscas, a esperança, a estrada de tijolos amarelos e os castelos de sissi e o palácio de esmeraldas e os poderes do anel?
Onde os poetas podem colocar seus versos e seus segredos se não perdurarem sonhos e paragens outras, além, muito além?
Não podem.
Ele. Ela. Eles.
E ávida a vida é assim. Seca.
Nua. Crua.
Assim.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

MATE UM ANJO


foto Today by "brilho-de-conta"- flickr

I

Atenção: Foi visto, revoando sobre a cidade, um bando bêbado de anjos, banjos voadores espalhando música, espalhando pânico, espelhando medo: um bando trôpego de seres, de longos cabelos verdes, cantando canções antigas como diamantes virgens. Não há como escapar aos desatinos desta raça, que se reproduz como os insetos. Incertos serão os nossos dias e drásticos nossos rumos, se não matarmos os anjos. Não há como se enganar: são pálidos, brilham , à noite parecem estrelas e de dia flocos de algodão, nuvens vagabundas vagando no céu. E os cabelos são verdes, tão verdes que os olhos doem. Não olhem para eles. Seus olhos fosforecentes transmitem uma força mágica que transforma aqueles que os encaram. Arrebatam-nos para o seu bando, carregam-nos, alteram-nos.
Atenção: Se avistar um bando de anjos, ou mesmo um único anjo, não duvide: mate-os no mesmo instante. Não tente dialogar, pois eles são ardilosos e trarão, nos braços, cestos cheios de promessas e doces ilusões. Dançarão valsas antigas, cantarão cantigas de outros tempos, tendo ao fundo auroras boreais. Cantarão rocks e baladas de acridoce sabor, convidando à viagem: quererão levar-nos a passear em caudas de cometas, com destino a verdevermelhos campos de morango para sempre, e nos seus cabelos verdes banjos irão se tocar: banjos loucos irão se tocar, corda a corda, dessfechando mortíferas canções sobre nossas cabeças. E eles buscarão morada em nosso ser: serão ardorosos e quentes, apossando-se de nossos velhos corpos. Pulsará então, em cada esquina, em todas as esquinas, o coração, canção mais que cantada onde a vida se fez, se faz e se fará. Em velhos blues, o grito que jaz na garganta e o que explode no rock alucinado.
Atenção: armas estão sendo distribuídas, para que não sejamos destruídos. Informamos, a todas as pessoas responsáveis, que cabe a nós a defesa das nossas vidas, das nossas instituições. Não se deixem tentar, não ouçam seus cantos de sereias, ondinas chamando para a morte camuflada em vida e prazeres, vagando na espuma. Se virem os anjos, matem-nos. Nem sempre andam em bandos, por vezes voam sozinhos buscando seduzir aqueles que estão também sós, aqueles que vivem à procura de mais alguma coisa. A estes, apelamos: não há nada mais para se encontrar , tudo que é necessário encontra-se aqui, nada existe além de nossa esfera, tudo é ilusão. Não se deixem levar pelos anjos, que têm por missão corromper-nos e tumultuar nosso ambiente. Às armas! Não deixemos que invadam nossa intimidade, nem que nos toldem a vida. Matemo-los, primeiro! Ou eles nos exterminarão.

II

Onde a vida se fez, se faz e se fará, em cada esquina do mundo , no canto de cada poeta, na corda de cada guitarra, em cada uivo desesperado retumbando pelos quatro cantos da terra, dos céus e dos infernos, o anjo persistirá, e o banjo destruidor será tocado, tocando nossos corpos amortecidos com sua luz de grande intensidade. Serão ouvidos gritos repetidos, velhos blues voltarão pela noite, o rock alucinado pairando no ar como gotas, os velhos e novos cavaleiros quatro para sempre convidando a ver a vida que se encolhe sem jeito, não onde brotou o rock nem o grito desesperado do poeta, mas onde a mão incongruente traçou a linha e onde o grito fez-se ouvir, mas lancinante como o corte de espadas que calou as medusas líricas tísicas e pálidas: lembranças de lua, cadernos de viagem, domésticas alucinações: e o inferno pulsando, ao nosso alcance. E o céu, abrindo as comportas, convidando, convidando: A viagem no dorso dos poetas, dos profetas e dos mitos. O grito desesperado, a dor cortante, o céu e o inferno estão aí: os anjos sabem.

III

Eu fui tocado pela mão do anjo. Tu foste atingido pela luz do olhar do anjo. Nós nos transformamos, pela força da música que sai da boca dos anjos. Os anjos: suas mãos pálidas, seus longos dedos, suas noites de vigília. Sua insônia, seu momento criador, criaturas híbridas adensando-se na mente e no coração, ocupando o espaço, o tempo e a memória. Nós nos superamos quando, desobedecendo às ordens estabelecidas, encaramos os anjos, não com o medo a nós transmitido pela maioria, mas com a coragem de encarar coisas novas. Nós os resgatamos, do limbo a que estavam proscritos e os recriamos. Sim, encaramos e não nos arrependemos. Nós desobedecemos, comemos o fruto proibido, por isso somos e sabemos agora o porquê de tanto medo, de tamanha repressão. Os anjos incomodam, pela carga que trazem do novo; nós não tememos o novo, entretanto. Queremos romper as cascas, as couraças, ganhando novas alturas, sem medo das turbas e das tumbas ancestrais.
Nós não matamos o ano, nem por ele fomos mortos. Nós nos transformamos, e sabemos que dos ácidos verdes cabelos dos anjos, anjos outros hão de se criar, reperoduzindo a incoerência, fazendo crescer o não comum. E das valas da vida diária, destas valas apodrecidas em que temos vivido, um fulgurante brado surgirá rasgando a madrugada, quebrando as vidraças, destruindo para recriar. E os mortos gritarão, incomodados. Gritarão em uníssono, contra esta avalanche de coisa nova, de sangue novo que vem interromper seu sono de milênios.
Eu sei, nós sabemos.

IV

Eles estão conseghuindo. Estão conseguindo! Temos que nos mobilizar contra esta praga que a nós todos perturba. Estão roubando nossos jovens, que se rebelam e pregam contra nós. Eles são poucos, nós somos muitos, mas não estamos conseguindo! É necessário que acabemos com eles; para isso vamos intensificar a caçada. Não permitam que se aproximem, pois contaminam os locais por onde andam. Não há remédio para este mal.
A cidade inteira está em gritos, em pânico com a invasão dos anjos intrusos. Pelos inúmeros alto-falantes, espalhados pelos pórticos das moradias, a voz retumba, sonora e vingativa, clamando contra os invasores. Os habitantes abandonam suas casas, invadem as planícies, as montanhas, os topos das árvores e os fundos dos rios e do mar, procurando pelos anjos que podem assumir formas várias: são nuvens de algodão hoje, pássaros amanhã; ora são peixes, ora pedras. São frutos que se ocultam no mais alto das árvores, até vento são. E as pessoas abandonam suas casas, rumo à caçada, à árdua luta contra aqueles que estão em toda parte, onipresente ameaça. E a voz se eleva, cada vez mais soturna e áspera, conclamando ao extermínio dos intrusos. O que se vê então é uma incansável guerra contra tudo: florestas sendo derrubadas, nuvens bombardeadas, pássaros eliminados, peixes asassinados, pedras pulverizados. É a loucura coletiva que se apossa da multidão, destruindo tudo à sua volta, tentando livrar-se dos anjos, do feitiço dos cabelos verdes que geram diamantes e que convidam para aincríveis viagens cavalgando nuvens, que cantam de paradisíacos campos onde a poesia brota, cresce e se avoluma, transpirando pelos poros da vida, poema do dia a dia.

V

Eles, no entanto, reproduzem-se como os insetos e no pulsar de suas asas pulsa o sangue da vida, pulsa o novo: são crisálidas, grtávidas de luz, transformando os habitantes em fogueiras vivas. Dos seus cabelos verdes anjos outros hão de se criar, apesar da caçada insana. A idéia do anjo, guardada em sua pluriforma é a sua própria essência: não há como escapar à magia desta raça.

VI
Eu ouço falar de anjos, ouso falar de seus verdes cabelos e dos dimantes que brotam, virgens, de suas gargantas. E da luz irradiada pelos seus olhos. Além deles, o que nos resta? Uma cidade revolvida, florestas destruídas, rios secos, céus de chumbo, pássaros mortos, gente e gente cansada tentando eliminá-los. Numa luta inútil, já que eles não desistirão.

VII
Atenção: Declaramos cessada a temporada de caça aos anjos. Reconhecemos que nossos esforços foram inúteis;não há como detê-los e já não nos importa o que possa acontecer. Não sabemos que rumos tomar, sabemos apenas que incertos serão os nossos dias e drásticas nosssas vidas. Mas, definitivamente, não há como escapar aos desatinos e fascínio desta raça, que se reproduz como os insetos, derramando sobre nossas cabeças imagens candentes de sonhos, que há muito havíamos suprimido. Resta-nos apenas o retorno às nossas habitações, sentindo no ar este acre odor poesia e de música, penetrando em nossas carnes como adagas frias e impiedosas: estas marcas do anjo.



sobre a obra
texto escrito em 1983, inspirado por um grafite " Die Angels" e por um verso de Rilke, in " Elegias de Duino"

"Quem, se eu gritasse, eentre as legiões do Anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo Anjo é terrivel. E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro"

terça-feira, 16 de setembro de 2008

TRINDADE SACRATÍSSIMA


Cérebro/cerebelo
Fonte/ponte
Entre o ser
E o belo.

Cérebro:
mente,
Espírito
Cons-ciência

Trindade
Sacratíssima
A reger
A vida.

sobre a obra

O homem como um todo, todo homem como ser único, corpo,mente e espirito em perfeito equilibrio a reger os elementos.

sábado, 6 de setembro de 2008

SEDA


Ny-lon - Flickr/vanMagenta


Entre as dobras do tempo
eu me dobro.
Entre suas fendas
me escondo.
Sob as ondas do tempo
soçobro
qual partícula de areia
intangível
que se dilui no turqueza
das águas.

Ah! As águas do mundo
me embalam
e me embolo, qual feto
aturdido
aos primeiros frêmitos
da luz.
...
Ah! Mundo, mundo, mundo,
como são várias
suas leituras
e possibilidades!

Onde me dobro,
onde mergulho,
onde me encolho,
Onde me escolho,
Onde me acolho?

Onde guardar
meus fardos
meus fados
meus dardos
E meus casulos
que antecedem a seda
mais fina,
e a renda
mais perfeita?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

FRACTAIS




Eis-me aqui
em carne e verbo
inteiro
e dividido
em milhões
bilhões
de fractais
de sombra e luz.

Eis-me aqui
caleidoscópio
de caos e ordem
na tábula rasa
das primitivas
emoções
universais:

decifra-me!
ou te devoro,
poesia!

sobre a obra
um nanopoema sobre o macro e o microcosmo.

domingo, 3 de agosto de 2008

ILUMINURAS


Há que se descobrir
nas entrelinhas
o sentido táctil
o tato oculto
de todas as palavras.

Senti-las nas mãos
rolá-las como seixos
como peixes,, amá-las
na clareza do aquário.

Perceber, com os lábios,
suas texturas,
tessituras acridoces
de frutas maduras
e mordê-las
sorvendo sua carne:
sumo prazer.

Na pele, acariciá-las
como flores no cio
em orgasmos líricos
lúbricos lírios
alvos
a corar no gozo
do pleno entendimento.

Há que se desfolhar o poema
Há que se amá-lo
como se fora
o último sobre a terra
como se fora
o primeiro
e derradeiro amor.

As palavras estão vivas.Pulsam
nos veios do papel.
As palavras tem veias, seios,
sexos
e querem de nós muito mais
do que simples toques,
de comuns mortais.

Querem nosso mergulho
irracional
incondicional
sem escafandro
ao fundo do seu mar.

Descobrir sutilezas
e deslumbramentos
como nácar de pérolas
e iluminuras de corais.


sobre a obra
As palavras estão vivas, pulsam, clamam por nosso mergulho em seu mar interior.

terça-feira, 15 de julho de 2008

terça-feira, 8 de julho de 2008

À SOPHIA


foto "A chair" de luiznavarro/Flickr

Instante

Deixai-me limpo
o ar dos quartos
E liso
o branco das paredes.
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.

Sophia de Mello Breyner Andresen
De "Livro Sexto II" (1962)



Em silêncio
contemplo a quietude
a beatitude
das coisas claras:
o sol adentrando
os quartos
e espantando a noite
desenhando nas paredes
mosaicos de luz.

As paredes brancas
são meu espelho
a transparência
da minha alma

O silêncio murmura
em mim
suas exigências:
estar assim
mudo
assim
quieto
assim
zen
assim sem
sobressaltos.

Como pássaro
no raro instante
do pouso.
instante


Um poema-tributo à poeta portuguesa Sophia Andresen

domingo, 6 de julho de 2008

BARROCO


Sou um poeta barroco
e pendo
entre céus e infernos
entre verões e invernos.
Navego
cego
no brilho opaco do olho.
Colho flores do espírito
nos jardins do Eden
e frutos sensoriais
nos rastros da serpente.

Sou barroco
e me entrego
aos prazeres do corpo
buscando saciar a alma
que derrapa, inconseqüente
entre o quente da carne
e a calma da chama
que arde, eterna.

É terno meu caminhar
mas são volúveis meus passos
que passam
às vezes lentos
às vezes tensos
entre vicios e virtudes
entre luzes e sombras
numa zona cinzenta
de idéias indefinidas.

Oscilo
entre o vazio e o pleno
entre o puro e o obsceno.
Aceno
ao ubíquo
e ao ambíguo
desejo obliquo.
Divago
entre a superfície e o fundo
entre o agudo e o obtuso.
Intruso
indecifro-me
no âmago da escuridão
buscando as imensidões
da sombra e da luz.
Sou paz, sou pus
componho-me e decomponho-me
numa antítese imperfeita.

Em um mundo óbvio
sem mitos e metáforas
sou palavra em transe
transmutando-me
em multiplicidades.

Sou um anjo torto
de asa quebrada
e sorriso morto
sem norte, sem porto.

Sou anjo barroco
que sobreviveu
às intempéries
e que busca um caminho
um destino num mundo
onde anjos já não tem vez
nem voz.

Bsb, 06/07/2008 sobre a obra

segunda-feira, 19 de maio de 2008

MANTRA

s OM os
s UM us.
E em nós,
húmus
nus,
a poesia do cosmo
faz-se em luz.


sobre a obra
o homem e o universo, num abraço cósmico, num poema de múltiplas leituras.