terça-feira, 31 de março de 2009

PAS DE DEUX


foto ACASO por deadoll/flickr

Poema inspirado nos textos de Compulsão Diária

Pela janela observo
no jardim
a bailarina e o gato
num pas de deux
com odor de jasmim
alva malva
salmo de luz
e carmim.

Passos lépidos
corpos tépidos
os passos do gato
e o vôo da baiilarina
sobre a grama do jardim.

Agora o gato repousa
no colo da bailarina:
gato branco, colo alvo,
cheiro de malva e jasmim
aura de alma lavada
enlevada,
simples,assim.

Da janela, olho a cena
plena.
e a janela emoldura
a ternura,
a janela é moldura
para o doce sentimento
que embala
o gato e a bailarina:
cena rara,
que se expressa,
entre um gato andando a esmo
e a alva bailarina:

E o repouso do gato
seu corpo esguio
no colo da bailarina
é a expressão do absoluto
que não cabe
que não sabe
num retrato.

segunda-feira, 30 de março de 2009

INSTANTANEO- 3x4


foto: flickr/seier+seier+seier

A solidão se assentou
na praça dos três poderes
e pôs-se a olhar os pombos
e seu indeciso vôo
num céu vasto, sem pouso.

A solidão se acentuou
nos rostos das pessoas,
como ovelhas desgarradas
perdidas na praça perdida
no cerrado perdido
no planalto central
descomunal
perdido no mundo.

A solidão aumentou
no solo, nos bancos,
nos rostos,
nos restos de brinquedos,
de comida,
deixados, quando morreu o dia
e os pombos voltaram aos pombais.

A solidão adentrou
os peitos, os olhos,
e os corpos caminham,
rumo às luzes
do setor comercial,
das asas do sul, do sal,
e do suor,
das asas da morte, do norte,
buscando um fato novo,
a ruptura,
a rachadura e a assimetria,
a nota destoante, o palavrão,
a cachaça, os bares, companhias,
para enfrentar a barra
destas noites escuras e vazias
desta solidão descomunal
que cresce, se avoluma,
sob a sombra
de um eixo monumental.

domingo, 29 de março de 2009

Sede da Palavra


foto: Era só - flickr/L

Como peixes sedentos
em pleno aquario
como aves cansadas
em repouso no ninho
como serpentes que morrem
do seu proprio veneno
como versos imperfeitos
que regurgitam a poesia
que não se compreendeu
assim me sinto eu:
poeta perdido
em meio à imensidão da palavra
E de suas consequencias:

Como encontrar as trilhas
as medidas
em meio a tantas midias
e maravilhas?
Como andar no prumo
e equilibrar-me
no fio da navalha?
a palavra explode
em meu peito
cala-me cego
o olho que não vê
meu braço cansado
de pesado fardo
passo e não sinto
o cume das estrelas
nem adormeço o sonho
da flor amanhecida
no jarro seco:

Como peixe sedento
em pleno aquario
minha sede não se mata
minha fome não se sacia
antes, se renova,
mais faminta, mais sedenta,
a cada dia.

sábado, 21 de março de 2009

flor e concreto


flor-estrela - foto by Nekrun/flick

Contra os céus de concreto
e o chumbo das cidades
explode a flor:
a beleza se insinua
nua
contra a miudez
e mudez
dos cinzas antropomórficos.

Flor:
que rompe o concreto
e entre frestas
invade
a rudeza do cimento
e a crueza de uma vida
acinzentada
conclamando
à batalha contra o tédio
contra o néscio
contra os vícios
e os ócios
contra os sócios
do escapismo:

Flor: epifania sagrada
Que nos remete
Ao divino.

No céu de buñuel

foto - "un chien andalou" by swan of kennet/flickr

A navalha
no olho
o corte
a lua lhena
plena
morta
a sombra
torta
o vortex
o redemoinho.

No fio da navalha
da canalha
na falha do inconsciente
o gesto insano
da mão demente.

E o olhar vazado
esgazeado
turvo como a lua
eclipsada
pelo sangue da nuvem
em sua Iris branca.

um poema inspirado pelo filme " un chien andalou" de buñuel e dali"

quarta-feira, 18 de março de 2009

ANARQUIPOÉTICA


FOTO POR jORGEMEJIA/FLICKR - !Viva la Poesía!

Hoje amanheci poeta e estou entardecendo perdido na prosa. Prosear sobre poesia, sua natureza e exigências, sua dependência do poeta assim como o poeta depende dela, assim como o poeta depende do ar para respirar e da palavra para se expressar em meio às multidões apressadas, ensimesmadas e sem palavras para com aquilo que a rodeia.

A Poesia é uma musa exigente e premente e nuca se sabe quando chega ou quando vai. Coloca-nos em eterna vigília, a buscar a senda das maravilhas e das palavras inauditas, encantadas, novíssimas em sua formulação e em seu entendimento, como diamantes recém- convertidos de um carbono abrupto. A poesia é assim, ataca-nos de repente, ata-nos as mãos do fazer diário e se instala, sorrateira e brejeira, em nossa mente e coração, que fica lírico a buscar revelações e encantamentos. E nos atracamos com ela, enrolados em seu leito de lírios e rosas, de cheiros e luzes, plenos de imagens que querem se traduzir aos olhos outros pela construção e encontro da palavra perfeita, da palavra que traga a luz, ao mesmo tempo tragando a luz que brilha em nossa mente.

A poesia é isso: uma busca pela tradução, mais que perfeita, dos sentimentos imperfeitos, das nossas contradições, das antíteses que somos e nunca queremos deixar transparecer. A poesia, para isso, depende do poeta e o poeta depende da poesia,e muito mais, da plena liberdade, aquela gritada a plenos pulmões, daquele ar que escapa do escafandro deixando o mergulhador à mercê da água que lhe rouba os sentidos...

A poesia necessita liberdade, incondicional e irrestrita, para que seja gestada e resgatada do limbo a que muitas vezes a condenamos. Por isso, rima não com burocracia, mas com anarquia e com apostasia. A poesia é avessa aos controles, às planilhas, às escotilhas, às camarilhas, às escolas, às escolhas, é avessa aos sistemas e regimes; o que a poesia busca é a pura tradução da beleza, este ser abstrato que se oculta nos mais inusitados lugares... Por isso, o poeta não deve e nem pode, enquanto poeta, preocupar-se com números frios, mapas de controle, perfis produtivos, gráficos e estatísticas. Vamos sim, nos preocupar com o pranto não chorado, a palavra não dita, os matizes ao invés de matrizes algébricas, com o homem e a mulher, enquanto seres iluminados e antenados com o universo no qual vivem.
Por isso, enquanto poeta, não busco o raciocínio dos números e a frieza das estatísticas. E registre-se que, paralelamente, trabalho com números, que no contexto adequado, também possuem sua beleza... aliás, esta já é outra praia pois, para os matemáticos, os números são plenos de luz, beleza, incertezas e inesperado e isso, diga-se de passagem, também é pura poesia.

No entanto, quero aqui celebrar a liberdade e o dever do poeta de trabalhar sempre a palavra, como o fruto de uma lavoura não árida, de uma lavoura fértil, de onde brotem os sentimentos e as sensações apreendidas enquanto homens, dominados e dominadores, senhores e irmãos da natureza.
E para isso, sejamos anárquicos e deixemos que as palavras nos transportem aos mundos exteriores e interiores, e façamos dela nossa arma e nossa alma, faça-se a luz ordenou Deus, faça-se a sua tradução por meio da poesia, conclamou o poeta.
E sejamos assim, teses( como nos poemas-conceito, matrizes para outros e outros e outros poemas), antíteses ( como nos poemas barrocos, contrastes perfeitos para a natureza humana, sua luz e escuridão), sínteses( como nos poemas concretos e haicais, equações líricas e pequenas flores de cor e forma intensas). Sejamos menestréis medievais, cantando barcarolas, sejamos clássicos, em sonetos formais, sejamos parnasianos, buscando a jóia perfeita da rima e do conceito, sejamos simbolistas, dando voz aos nossos elementos interiores, sejamos naturalistas, dadaístas sem um sentido aparente, sejamos surrealistas transmutando as palavras em imagens sinestésicas e sensuais, sensações pictóricas, sejamos sintéticos e prolixos, sejamos modernos, reeditando 22, sejamos enfim, eternos, e assim estaremos sendo contemporâneos, expressando os medos, vozes e vórtices do nosso tempo, esse tempo que não é só cronológico, mas também sentimental emocio-lógico, baseado em nossas idiossincrasias e relacionamentos com o mundo e as gentes.

Vamos pois, poetas, construir nossos opus de luz, mesmo em meio ao pus, ao pó, mesmo em meio às descrenças e desavenças, lançar nossas sementes de beleza que um dia, quem sabe, contaminarão a todos, tal qual uma pandemia, um pandemônio , uma ode à alegria de viver!

RAW-WAR


foto: No a La Guerra - flickr/Macfacizar

Canto I
A palavra se cala
estupefata
diante da putrefata
crueza da morte
que assola os sentidos.

A palavra cora
envergonhada
diante da tinta
da fúria
que assola
e tinge o cenário.

Canto II

Terra devastada
em que se digladiam
irmãos de sangue
em mãos cruzadas
morrem os homens
apagam-se os sonhos
gotejando sangue
coquetéis vermelhos
gosmentos,
grudentos,
sangue novo
sangue antigo,
sangue cíclico
na terra devastada
nos desertos erráticos
longe dos oásis
e das calmarias
longe dos jacintos
e dos lilazes
de abril
só tenazes
apertando as gargantas
tantas.

Escorrem mundos
pelos dedos
pelos medos,
pelos becos,
pelas bocas correm escarros
escamas de sangue: bombas
da paz, explodem
sôfregas, trôpegas,
a morte
sorrindo, insidiosa,
sedenta, e o diabo
que se veste de cordeiro
esbanja escárnios.

E o sangue corre, escorre,
Explodem corpos e ossos
Se esfarelam:
É o sonho da paz
Que volta ao pó.
É a sanha do ser
Que não se entende
em nome de deus.
É destino ou desatino
Essa insensatez?

Canto III
A terra devastada
apenas observa
com olhos enevoados
e choram as pedras
e se empedram os cantos
e secam os cântaros
por perdas, por danos
e pela dor dos homens
que ficam
a espiar horizontes
com olhos caninos.

E o mar, ao fundo,
em seu azul de safira
sugere a paz:

Que paz?


um cântico em homenagem a T.S.Eliot e seu poema "The Waste Land"

quinta-feira, 12 de março de 2009

UROBORUS


imagem: Uroborus- flickr/Leo Reynolds

Caminho no precipicio
entre o fim
e o inicio
em jardins
e delícias
e atinjo mundos
fundos
de poços
intransponiveis.

Sou translúcido
ou obscuro
opaco ou hialino
plácido ou fescenino
conforme o mote
caminho na luz
e no escuro
e me penduro
nos fios da navalha
nestes enduros
por trilhas
Ignotas.

Somos todos assim:
avis raras
dos paraísos perdidos
e proibidos desfechos:
uróboros contemporâneos
restituídos aos mitos
aos gritos primais
mordemos a própria cauda
e destilamos venenos
para nossas próprias almas.

Caminhamos em circulos
em circos plenos de vícios
e buscamos as rosas místicas
as ordens ocultas
e os segredos alquímicos
das transmutações:

Somos todos assim:
e caminhamos, impassíveis,
impossíveis
implausíveis
Rumo ao fim.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ROSAS ÁCIDAS



imagem: Rosas ded inverno- by rodrigo álvarez/rupertt - flickr



Rosas rubras,nuas,
desfolhadas
flácidas,
mas ainda rosas
grávidas de poesia
despencam do céu,
como chuva ácida
e descorrolorem sonhos
enquanto medos medram
nas mentes assassinadas.

Nada é o que parece,
nada nada nada
nada a favor da corrente
a semente não floresce
apenas fenece o feno
que não foi comido em tempo
pelas vacas magras.
mas ainda vacas
prenhes de promessas.

Tudo tudo tudo
nada contra a correnteza
peixes com sede de água limpa
e de ares sem margens
absolutas, perdidas,pendidas,
fendidas buscas perdidos
sonhos em volta do tempo
que tempo?

As rosas rubras enrubescem
ao som dos velhos hits
das estações passadas
onde já não passam trens
ainda tens aqueles passes
para os so(n)hos azuis
da temporada?

As rosas rubras despencam
e não falam: calam
as rosas nos canteiros
certeiros dardos doídos
jogados ao léu ao céu
que céu?

céus de chumbo, céus de estanho,
céus castanhos carregados
de cogumelos estranhos.

As rosas rubras despencam
e se desfazem em espirais
de tempo: sobra vermelho
e sangue, nas alcovas,
nas aldravas, as madressilvas
não cheiram mais:
sobram tristeza e tédio
e ócio
nas manhãs acinzentais
sem quintais.

Mas ainda o sonho
se intromete em meio
ao caos
e promete ressureições:
lázaros redivivos
ícaros renitentes
se elevarão dos escombros:
pássaros de fogo
cometas iconoclastas
vararão as madrugadas
plácidas
das noites ancestrais.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

CLAROCANTO

"Tudo é uma questão de manter
a mente quieta
a espinha ereta
e o coração tranquilo"
Walter Franco



Em silêncio
contemplo a quietude
a beatitude
das coisas claras:
o sol adentrando
os quartos
e espantando a noite
desenhando nas paredes
mosaicos de luz.

As paredes brancas
são meu espelho
a transparência
da minha alma

O silêncio murmura
em mim
suas exigências:
estar assim
mudo
assim
quieto
assim
zen
assim sem
sobressaltos.

Como pássaro
no raro instante
do pouso.

Um tributo à poeta do mar e das claridades

Deixai-me limpo
o ar dos quartos
E liso
o branco das paredes.
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio.

Sophia de Mello Breyner Andresen
De "Livro Sexto II" (1962)

sábado, 7 de fevereiro de 2009

C-O-R-R-E-N-T-E


foto: dentro de un viejo ladrillo III - flickr/Flavio camus


somos todos
farinha
do mesmo saco
cacos do mesmo
azulejo
beijo de toda boca
bica de frescas águas
mágoas de muitas dores
cores de todos os tons
sons de todas melodias
meio-dias de todas as tardes
mar de todos os oceanos
anos de todas as vidas
dúvidas de todos os destinos
vinhos de todas as vinhas
linhas de toda urdidura
curas de todas as dores
flores, florestas, cores,
cuore, cordis, corazon
couer, heorte,
sempre fortes
somos cor e ação.

todos somos
sumus,
húmus vivos do universo
versos de todos os poemas
temas de todas as musas
fusos de todas as rocas
tocas de todos os bichos
nichos de todos os santos
cantos de todas as raças
graças de todos os deuses
berceuses
adeuses de todas as mãos.

somos elos
da cadeia universal
de qualquer fé
raça,graça,
reza,
leveza,
beleza
e mansidão:
o mundo é vasto
o tempo
é nosso irmão!

sábado, 31 de janeiro de 2009



foto flickr/ fábio pinheiro

O universo vibra
suas cordas
em suave diapasão
contrai-se ou se distende
preguiçosamente
como as palhas do coqueiro
se movem
à brisa do verão.

As cordas do universo
em movimento
movem os elementos
água,terra,fogo, ar
num jogo de instrumentos
que compõe os tons
colore os sons
da sinfonia maior
da canção
indescritível.

Das cordas do universo
em vibração
nascem árias de sopranos
e os sons guturais
dos palatos
e cordas vocais:
sons de metais,
tons de veludo,
tudo
se transformando
e criando harmonias
em múltiplas dimensões
de espaço-tempo
de brisas,de ventos...

O universo toca
em suas cordas
a contínua melodia
que se expressa no verso,
no reverso,
que reverbera
em ciclos
em nosso plexo solar

O universo todo é pura,
rara música,
nestas cordas intangíveis
Inaudíveis aos ouvidos dos humanos
que não a sabem escutar.

Mas as palhas do coqueiro
à beira mar
ouvem os cânticos
quânticos
do universo
que se insinuam
nos ventos alísios,
nas ondas,
no azul profundo
Do infindável mar

sobre a obra:
O universo pulsa nas cordas quânticas, em dimensões inimagináveis aos olhos humanos... e a poesia pulsa nos versos arrancados do peito e das cordas dos instrumentos.

ORA DIREIS, VER UNICÓRNIOS!


Poema inspirado pelo conto do autor americanoJames Thurber, " Um unicórnio em seu jardim"
foto " Unicórnio II" no site Flickr/Ferran

O unicornio passeia
no jardim
sua implausibilidade.
Entre os jasmins
e rosmarins
passeia, plácido,
o unicórnio
pastando rosas
e lírios
delírios
de quem o vê.

È impossível estar ali
aquele unicórnio
ímpar
mítica imagem
como seus irmãos
centauros
e minotauros
a torturar retinas
camufladas
em paredes
de pedra.

É-lhe impossível
estar ali
pastando musgos
e rosas
em plácida postura.
No entanto
Ele ali está
desafiando os olhos
que teimam em decretar
sua inexistência.

O unicórnio pasta
no jardim
comendo rosas
e lírios.
Sim. Ali está
E ai de quem não o vê
Com os olhos do coração.
Perderá a razão
Do sonho
E o sonho da razão.

E só lhe restará
A camisa de força
do real
Que aí está,
todos os dias,
em toda página
de jornal.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

mais do mesmo (did u remember Zeppelin? )


foto: flickr/francisco(gifted)- por da lua (cheia)

Perguntas-me, meu amor,
porque caminho a esmo
sobre as trilhas
sobre as linhas
por que volteio
e por que sempre retorno
ao mesmo
velho tema
que teima em arder
no peito
no jeito, no pincelar
das palavras
com pincéis de cores
ora fortes
ora neutras
em que afloram os sentidos
e os sentimentos insones
desejos subterrâneos
buscando vir à luz.

Perguntas-me meu amor
que poemas são esses
de uma rima só
em que se repete,
indefinidamente,
a mesma velha cantiga
muda cena do poeta
que já não morre de amor
nem de cólera
ou de tuberculose
ou de overdose
morre-se de tédio
nestas tardes mornas
sem perspectivas
sem saídas
sem entradas
ou bandeiras
ou ideologias.

E eu penso no tempo:

lembras-te, meu amor,
como nos velhos tempos
ficávamos, horas a fio,
madrugada a dentro
lentos, calmos, plácidos
como as auroras
discutindo os poemas de amor
de Éluard, de Vinicius,
de verlaine
os êxtases de Tereza
e as múltiplas faces
das pessoas de Pessoa
em cujo país havia o Tejo
e o tédio
que se buscava matar
na tabacaria
e nas infindáveis odes
devaneios marítimos.
E olhávamos a lua, as luas,
quantas luas se passaram?
quantas cheias, minguantes
ou novas luas passaram
enquanto nós discutíamos
o amor na poesia
e os curtos poemas-concretos
Objetos
Abjetos
dejetos
dos surrealistas
e os líricos
telúricos cânticos
à humanidade
do irmão Whitman!

Ah! meu amor
contigo viajei
nas estradas dos sessenta
um poema na mão, a flor
na cabeça
e o sonho dirigindo
digerindo vidas
delineando a estrada
aos riffs sonoros das guitarras
e vozes rascantes
de ídolos
que tinham pés de barro.

Perguntas-me, meu amor,
quanto tempo, tanto tempo
se foi e a ainda canção
continua a mesma?
Quantas luas, quantas quedas,
tantas pedras
quantos precipícios
quantos inícios
tantas flores mortas,
estradas tortas
sonhos desfeitos
e a canção ainda
é a mesma?

E eu te digo, meu amor,
é a mesma canção
que nos embala
como bebês-mandala
girando na roda
do véu de Maia:
o tempo passa,
o tempo não passa
o tempo desfia
a meada do novelo
desafia a memória
e se reconstrói
como fênix.

Por isso, os poemas
a busca pela palavra
e por sua magia
pelo seu poder
de luz
que seduz
e se traduz
em versos, urdidos pelo tempo,
que pairam, depois de lidos,
como imagens de um universo
paralelo
onde pairam
bandos bêbados de poetas:
bêbados de beleza
bêbados de encantamento
bêbados, contemplando,
os novos bêbados
de poesia
que se entregam
ao doce ofício
De sugar das palavras
todas possibilidades
que pulsam, entre céus
e infernos,
eternas,
ao alcance daqueles
que souberem mergulhar
Em seus cânions
nervos, carne
e sangue:
o verbo que se faz
carne.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

sobre/nomes

o poema fala
a música
dos seus próprios nomes.
Nominar o inominável
Gravar o indelével
Penetrar o inescrutável
é querer dar nomes
aos que fazem da palavra
sua lavoura diária.

Ouvir bilac, de seu parnaso,
ouvindo estrelas
in extremix
ninar bandeira
com seus versos
meninos
Roubar de drummond
a memória do ferro
das minas que não
há mais.

Cantar com cecília
as canções eternas
daquilo que é efêmero
e com adélia
os cantos sacro-profanos
deixados nos panos
de prato, das canções.

Sofrer
com florbela
Com plath,
Com clarice
as dores femininas
do amor
não amanhecido.

Penetrar nos infernos
em todas as estações
nos odores dos jardins
de baudelaire
e amar as musas loucas
de appolinaire
e subir aos montes
e descer
aos vales
e savanas
com verlaine
e rimbaud
tudo que se amou.

Como lautreamont
gozar os gozos impensados
e se atirar às alturas
e às profundezas
como blake.

Nominar os sentimentos
num onomástico rol
de onomatopéias
que possam traduzir,
para cada poeta,
suas epopéias
na busca
pela palavra perfeita
a definir
suas vidas em sonhos
num mundo imperfeito.

Difícil feito.

Blablablá

o que há
no espaço
entre o beijo
e o abraço?
o amor é longo,
é curto,
é um surto, que cabe
no ritmo de um respiro.

é um suspiro, o amor,
que vidra o olhar
e penetra a retina
amarfanhando a rotina
como se amassam os lençóis
ao calor dos corpos nus
aos sóis de cada dia.

pura magia.
puro encantamento
esse momento
em que estamos,
estáticos,
almas nuas:

um cromo
a se guardar para sempre
como vivas sempre-vivas
numa página de diário.

esse momento é o que há.
O resto,
bem, o resto
é blablablá.

assim é, se lhe parece

assim é,
se lhe parece:
prece
súplica
revelação
a poesia, que penetra
surdamente
no reino da imaginação
e busca
em silêncio,
em sussuros e cicios
a alegoria e a metáfora
da sua própria essência.

Poesia. pão
chão
que se pisa sobre o vento
tão
silenciosa
quanto o canto
quanto o pranto
que mesmo à menor vertigem
provoca arroubos
e assombros
de tambores,
soando
no peito do mundo.

nos quatro cantos
do mundo.

poesia
força motriz
matriz de idéias
matiz de aquarela
arcoírica
anarquilirica
nutriz
de seios túrgidos
de leite bom.

poesia
aquela que se busca
no fusco-fusco da tarde
que arde,
fogueira em brasa
ou em brisa refrescante
como hálito de fadas.

faz da poesia sua casa
sua festa
sua fresta
para o infinito:
faz da poesia
a matéria iridescente
incandescente
do seu silêncio
e do seu grito.

exercí (cio) da palavra

sei que sou pouco lido
ou quase nunca lido.
é com a palavra que lido
e não me intimida
este falar
para ouvidos surdos
ou para urzes bíblicas:
a palavra é minha lida
minha vida
é lapidá-las
como jóias raras
e tecer-lhe iluminuras
em tessituras
de sonhos
urdindo-lhe tramas
e teias
veias
de veludo
e âmbar
na maciez
de pétalas
e pelicas.

a palavra fez em min
sua morada
e minha alma
é a sacrossanta casa
da poesia
que arrepia a pele,
que brota,se avoluma
como flor,no cio
de explodir
em fruto.

por isso, não me assustam
os versos não lidos
Os olvidos
os verbos não ditos.
assustam-me, sim,
a grandeza e a força
da palavra
desta lavoura arcaica
que, no entanto,
sempre é preâmbulo
do novo:

palavra-ovo
em explosão
de vôo.

domingo, 30 de novembro de 2008

ANARQUIPOESIA

Hoje amanheci poeta e estou entardecendo perdido na prosa. Prosear sobre poesia, sua natureza e exigências, sua dependência do poeta assim como o poeta depende dela, assim como o poeta depende do ar para respirar e da palavra para se expressar em meio às multidões apressadas, ensimesmadas e sem palavras para com aquilo que a rodeia.
A Poesia é uma musa exigente e premente e nuca se sabe quando chega ou quando vai. Coloca-nos em eterna vigília, a buscar a senda das maravilhas e das palavras inauditas, encantadas, novíssimas em sua formulação e em seu entendimento, como diamantes recém- convertidos de um carbono abrupto. A poesia é assim, ataca-nos de repente, ata-nos as mãos do fazer diário e se instala, sorrateira e brejeira, em nossa mente e coração, que fica lírico a buscar revelações e encantamentos. E nos atracamos com ela, enrolados em seu leito de lírios e rosas, de cheiros e luzes, plenos de imagens que querem se traduzir aos olhos outros pela construção e encontro da palavra perfeita, da palavra que traga a luz, ao mesmo tempo tragando a luz que brilha em nossa mente.
A poesia é isso: uma busca pela tradução, mais que perfeita, dos sentimentos imperfeitos, das nossas contradições, das antíteses que somos e nunca queremos deixar transparecer. A poesia, para isso, depende do poeta e o poeta depende da poesia,e muito mais, da plena liberdade, aquela gritada a plenos pulmões, daquele ar que escapa do escafandro deixando o mergulhador à mercê da água que lhe rouba os sentidos...
A poesia necessita liberdade, incondicional e irrestrita, para que seja gestada e resgatada do limbo a que muitas vezes a condenamos. Por isso, rima não com burocracia, mas com anarquia e com apostasia. A poesia é avessa aos controles, às planilhas, às escotilhas, às camarilhas, às escolas, às escolhas, é avessa aos sistemas e regimes; o que a poesia busca é a pura tradução da beleza, este ser abstrato que se oculta nos mais inusitados lugares... Por isso, o poeta não deve e nem pode, enquanto poeta, preocupar-se com números frios, mapas de controle, perfis produtivos, gráficos e estatísticas. Vamos sim, nos preocupar com o pranto não chorado, a palavra não dita, os matizes ao invés de matrizes algébricas, com o homem e a mulher, enquanto seres iluminados e antenados com o universo no qual vivem.
Por isso, enquanto poeta, não busco o raciocínio dos números e a frieza das estatísticas. E registre-se que, paralelamente, trabalho com números, que no contexto adequado, também possuem sua beleza... aliás, esta já é outra praia pois, para os matemáticos, os números são plenos de luz, beleza, incertezas e inesperado e isso, diga-se de passagem, também é pura poesia.
No entanto, quero aqui celebrar a liberdade e o dever do poeta de trabalhar sempre a palavra, como o fruto de uma lavoura não árida, de uma lavoura fértil, de onde brotem os sentimentos e as sensações apreendidas enquanto homens, dominados e dominadores, senhores e irmãos da natureza.
E para isso, sejamos anárquicos e deixemos que as palavras nos transportem aos mundos exteriores e interiores, e façamos dela nossa arma e nossa alma, faça-se a luz ordenou Deus, faça-se a sua tradução por meio da poesia, conclamou o poeta.
E sejamos assim, teses( como nos poemas-conceito, matrizes para outros e outros e outros poemas), antíteses ( como nos poemas barrocos, contrastes perfeitos para a natureza humana, sua luz e escuridão), sínteses( como nos poemas concretos e haicais, equações líricas e pequenas flores de cor e forma intensas). Sejamos menestréis medievais, cantando barcarolas, sejamos clássicos, em sonetos formais, sejamos parnasianos, buscando a jóia perfeita da rima e do conceito, sejamos simbolistas, dando voz aos nossos elementos interiores, sejamos naturalistas, dadaístas sem um sentido aparente, sejamos surrealistas transmutando as palavras em imagens sinestésicas e sensuais, sensações pictóricas, sejamos sintéticos e prolixos, sejamos modernos, reeditando 22, sejamos enfim, eternos, e assim estaremos sendo contemporâneos, expressando os medos, vozes e vórtices do nosso tempo, esse tempo que não é só cronológico, mas também sentimental emocio-lógico, baseado em nossas idiossincrasias e relacionamentos com o mundo e as gentes.
Vamos pois, poetas, construir nossos opus de luz, mesmo em meio ao pus, ao pó, mesmo em meio às descrenças e desavenças, lançar nossas sementes de beleza que um dia, quem sabe, contaminarão a todos, tal qual uma pandemia, um pandemônio , uma ode à alegria de viver!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

NO RIO CAUDALOSO DOS SENTIDOS

ART MIRROR/flores de vapor by Guiprimola(guiprimola@yahoo.com.br)


Como quem
não quer
nada
Nado
Nudo
No rio caudaloso dos sentidos
Na cauda dos cometas e dos mitos
Poetas malditos.
E mergulho. Sem escafandros
Nos meandros da palavra
Que engendra versos
Que medra sonhos
Em meneios
De vozes
E de sombras.
E mergulho. Buscando
A luz mais que perfeita
No verso desconhecido.
Como o calor de corpos
De amantes amalgamados
Em camas e escamas
Subaquáticas.
Os céus derramam verdes
Frutos sobre a terra
E os troncos crescem,
Alçando-se ao léu.
Ao longe, dentes de leões
Ameaçam despedaçar-se
Ao sabor dos ventos
Mas se acalmam
Ao ver os azuis ensandecidos
Das musas de Picasso
E de Matisse
Matizando os cromos
Do arco-íris
Que se deita, estático,
Estético,
Na íris dos olhos
E dos lilazes.

E eu mergulho, assim,
A nado,
nudo,
Mudo
No reino silencioso
Das palavras
Que tecem casulos
E venenos
E nos conduzem
A píncaros e precipícios.