segunda-feira, 1 de junho de 2009

não é assim


foto: pain- trying2/flickr

Não. Não é assim
O início de um poema
Que se diz
Feliz....
Não é assim
O fim...assim seco,
Assim asséptico,
Assim desinfetante:
É muito mais pesado
É sujo, é descarado,
É dolorido
É impactante falar de dor
De inicio e de fim
Não é nada leve
Nem breve
Como a canção que morre
No ar.
Nem deixa rolar
Que a lágrima não rola,
Saca?
A dor é muito mais imensa
E o buraco é muito mais embaixo
E os ficares não pressentem
Jamais
A temporada de dores
E estações nos infernos
Que podem caber nos versos
Dos poemas mais simples
Dos poemas mais sórdidos
Dos poemas mais plácidos:
A dor não escolhe lugar.

sábado, 30 de maio de 2009

NOTAS ÁTONAS


foto: Old boat - flickr/today is a good day


As notas são átonas
E soam como caos
Como cães que ladram
Sem caravanas que passam.
Passam as notas
Aos nortes
E hordas de truculências
Atacam, atracam
Nos portos
E derrubam as portas
Das cidades
Antes das madrugadas.
Cavalos de tropias,.
entropias
E helenas
Ensimesmadas e opacas
Descolorem madeixas
E desfiasm queixas ao luar:
Nada há a fazer
A não ser
Se lançar ao mar
Buscando outros portos
Trópicos
Nada a fazer
A não ser
Circunavegar
Acima e além do mar
E buscar o caos
um outro tipo de ordem
a reger as naus.

quarta-feira, 27 de maio de 2009


foto: Lembranças azuis- Paulo Côrtes/flickr

a última vez que vi malu ainda era primavera e a gente brincava dizendo assim o que é que há onde você está com a cabeça que não vê as flores na varanda do chalé nem sente as cores que se abrem junto e que derramam aromas de amoras e amores sobre nossas cabeças e narinas e esses cheiros eu carrego até hoje não sei se isso passou nem sei se isso aconteceu ou se foi apenas uma miragem imagem de um sonho ou cena de um filme ou...

a última vez que vi malu era o inverso da primavera era um inverno frio e nós dois como ursos hibernados dentro de um chalé no meio das montanhas geladas era serra do cipó ou eram os montes urais ou era no canadá nem sei só sei que as manhãs eram geladas e as maçãs não floresciam nem eu podia falar nem ela pois as mãos enregelavam quando a gente tentava apanhar as palavras saídas da boca e que se transformavam em cubos de gelo quebradiços que batiam no chão e ploft se acabavam em água fria sólida e nada ficava de sólido nem de nós no ar apenas aquela solidão indesejada aquele estar ali e de repente não saber estar e aí...

ai ai ai- da última vez que vi malu era um outono desses nostálgicos desses que bota a gente todo troncho pensando ah, outonos são aqueles do hemisfério norte em que as arvores envelhecem as folhas vermelhas que caem e formam tapetes lindos vegetais nos parques limpos e calmos ah, que nostalgia é essa desses outonos que a gente nem viveu? nosso outono era aquele dos ipês e dos apês a gente enrubescendo com sol e se arroxeando como os ipês que nos escandalizavam com a beleza insolente e crescente dos buquês coloridos só flores sem folhas aquela coisa linda e então...

da última vez que vi malu era verão e o sol ardia- ah! era verão aquela estação das propagandas, das cervejas, dos corpos nus ou quase, das caminhadas na praia, dos sol-nascentes e poentes policromáticos, das viagens a itacaré a jeri a caraíva ah...verões de sol em brasa e corpos idem mas da última vez que vi malu naquele verão não havia nada disso isso era apenas um conceito uma idéia nós estávamos atazanados com teses de mestrado e trabalhos finais e não tinhamos nem tempo de sair de casa para tomar uma cerveja com os amigos e eu me lembro de ter visto a malu ali linda com os braços cheios de livros e eu dei uma trombada nela e ela deixou cair os livros no chão tipo cena de cinema eu me agachando apanhando seus objetos ela sorrindo diáfana e...

não me lembro da última vez em que vi malu.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

BendiTEOfruto!


foto: fruto da esteva- flickr/valter jacinto-Portugal


BendiTEOfruto
Do teu ventre,
Mãe- poesia
A nos jorrar promessas
E impropérios
Da mais dura lábia
E dos mais puros lábios
Virginais:
Vadiai, palavra, vadiai
Em busca dos novos
cAis!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

BRILHO DA CARNE


foto: jesse gaardner/flickr


iris -descendo brilhos crus
em carnes fastiadas
verdeflamejantes arcos
encarnados:
a carne,mesmo putrefável,
capta luzes
como sóis
de vagalumes.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

TESÃO DA PALAVRA


FOTO: aslleponasunbean/FLICKR - cor

Abaixo a palavra-livro
estanque, estática,
Quero a palavra livre
Leve
Quero la palabra
Parabolé
parábola
parangolé
desdobrando enigmas
palabra-oboé
buscando novos tons
de híbridos sentidos
Quero a palavra-prima
prisma
crème de la crème
Quero a palavra-ave
Ensaiando voos
Quero a palavra
Eva
E seus contrários
Dando início à vida
Palavrávida
De outros caminhos
Palagrávida
De luz & lilazes
antikamikazes
Nas estepes frias
Quero a palavra-uva
chuva magenta
A escorrer sacrosumos
Pelos cantos da boca
Quero a palavra
Ava
Diva em technicolor
Derretendo celulóides
Quero a paalavra-ova
Ovo
o novo que se levanta
A anarquia
Contra as vãs hierarquias
Quero a palavra word
sword espada afiada
a talhar gargantas frouxas
Quero a palavra larva
das borboletas
Do vir-a-ser
Quero a palavra Love
Estampada escancarada
Arreganhada nas caras
Nas pernas nos braços
Tatuadas
Nos muros e murros
Quero a palavra urro
Em contraste aos silêncios
Sepulcrais
Sem choros, sem ais,

Quero a palavra
...


Um poema para ser lido em qualquer direreção.

domingo, 19 de abril de 2009

CADERNOS DE VIAGEM


foto: palmeiras psicodélicas- flickr/Eli K. Hayasaka


Rasgar a alma
Deixar cair a máscara
Que nos atordoa e fere a face
A fera face à fera
Fareja
Olha as sombras e a luz
De Lang
Sangue de nosfera-trues
Derretendo os degraus:
Fellini ferino
perdido entre as brumas
De rimini
italiamamma
E entre os rimels
De Magali
Forte, farta, linda.

Entre Renoir e beauvior
Eu navego
A mente clara
Entre os ratos rotos
Que sacolejam sobre necrópoles
E brócolis
Encharcados de carne
Restos
De um banquete que não foi.
O banquete dos mendigos
E ópera dos vinténs:
Lembro Brecht e bunuel
Meditativo, iconoclasta,
Entre tristanas, viridianas e nazarins
Contando a miséria humana.

E viajo na mente
Entre luzes e sombras
De goya, de Pasolini
Perdido em divagações
Sobre o ser humano
E o sexo:
Que foi que nos uniu?
O que foi que nos
Zuniu?
Sumiu daqui aquilo que era sacro
Ou profano
Os lírios, olhai os lírios
Do campo
Os líricos lívidos divididos
Lírios entre o bem e o mal
E os hipocampos, perdidos,
Flutuando, espumas, sobre um céu
Sereno
De âmbar e de safira
Pira, pira, queima na pira
Os desvarios e os delírios
Queima na pira
A pura loucura.

Navego
Nos oceanos do espírito
E da matéria:
Átomos, nêutrons, partículas
Quânticas
Quantas perguntas ainda
A serem feitas
Quantas?

O mundo gira, entre
Luzes e sombras
Entre assombros
Entre escombros
O homem se esquece
Perdido, nas estrelas.
Portal de venturas.

Aquarius, aquarius,
Deixa o sol entrar
E destruir o mofo
Que enregelou as almas
Como pedras de gelo
Dos himalaias!

Tudo se evaporou
Todo sólido
Derramou-se em líquidos
E vapores
Que se esfacelaram no ar.

Nada ficou do antes.
E eu que tinha
Pretensões do belo
Tentações de poeta
O que é que faço agora?
O que é que eu canto agora?


sobre a obra:
iimaginárias memoristórias de viagens

sábado, 18 de abril de 2009

DILACERADO


foto: Pip...Hopeless - by Occhiovivo/Flickr

O soco na boca do estômago
Um chute no saco
Uma porrada na cara
Um tapa no ouvido
A garganta ressecada
E a boca que fede
Na ressaca da orgia:
A foda in fault
O fogo fátuo
O passo em falso
Nada disso dói
Tanto como a palavra
Atirada assim, ao léu,
Farpa afiada
Adaga impiedosa
Faca enferrujada
Que corta o sonho
E a possibilidade
Do vir a ser.

Dilacerado
O poema explode
Como um grito no ar
Cromo-um corpo que cai
Em vertigem assimétrica
Pelos tombadilhos
Dos navios.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

TANGÍVEL


foto: círculos tangentes, por sidi guariachi- flickr

Meu pai foi plenilunio
cometa foi
de brilho intenso e raro.
Páro, hoje,
a relembrar
seu tempo
e as nuances lúdicas
do seu estar no mundo.

Meu pai foi nascedouro
e foz
fez
de águas nunca represadas
estuário de emoções
e sentimentos.

Foi palavra, foi canto,
foi música do vento
foi poesia, voando
no tempo.
Trazia
encantos de luar
em asas de borboletas
e cantos de passarins.

Meu pai foi verso,
foi verbo,
foi verbena e rosa
um ser de estirpe impar
desses que habitam este
e os outros mundos.

Foi. É.
Meu pai será
para sempre
presença tangivel
nas águas do meu rio
que se desloca,
em círculos concêntricos
buscando repetir
a sua imensidão..

in memorian do meu pai, no 11º aniversário de seu falecimento

terça-feira, 7 de abril de 2009

TORQUATEANDO


foto: Toillete angoisse - flickr/Gómez

Torquateando afogo
o coro dos contentes
ateando fogo às vestes
engulo o vweneno das vespas
e das vestais
Que auguram paz.

Torquateanas
loucalúcidas
bocas túrgidas
que beijam o caos
E trepam
com o infinito:
que sensações buscadas
nas entranhas
das entrelinhas
te trouxeram
o asco da existência?

Torquateando
incendeio estrelas
e escancaro sóis
obscuros, nas trilhas
dos caracóis:
não chore, baby,
a vida é assim:
É fim.

Ensaio
no trono dos tolos
atirando tijolo e pedra
nos costados dos navios
pavios
para o inconsciente.

Cogito.Existo.Resisto
e insisto no caminho
ainda e apesar.
Torquateando fogo
na mesmice
e flertando,
obliquamente
com o caos e anarquia
absorvo metáforas
absolvo metástases
e respiro palavras
na busca do sentido.


um mínimo cantanárquico para o poeta destoante do coro dos contentes

sábado, 4 de abril de 2009

TEMPO LÍQUIDO


foto: Relógios- flickr/Luciano Di Segni

O relógio liquido
não conta as horas
que passam.
É um pássaro
apenas
suas penas se liquefazem
como liquens
com o passar
do tempo afetivo.

O relógio louco
detona flores
gelatinosas
no arco da memória.
Aide-memoire
a nos lembrar que o tempo
não existe assim, sozinho:
depende de nós
o seu desenrolar.

O relógio mole
se desfaz
e respinga rosas
e odores
de prosa
e poesia
sobre as curvas do tempo:
matéria prima de sonhos
surreais.

O relógio fantasma
registra passos
lassos laços
os compassos
das odes ao espírito
E os cânticos à matéria
de gentes que foram,
que são, que virão.
gentes que são
causa e consequencia
de qualquer poesia.

O relógio poema
liquidifica-se em nuvens
brancas de algodão
quando tocado
Por inábeis mãos:
suas cores são palavras
tácteis
são fractais de tempos
que flutuam, indiferentes
na névoa da eternidade:
só o poeta é capaz
de tocá-las
e transmutá-las
em coisas tangíveis.

terça-feira, 31 de março de 2009

PAS DE DEUX


foto ACASO por deadoll/flickr

Poema inspirado nos textos de Compulsão Diária

Pela janela observo
no jardim
a bailarina e o gato
num pas de deux
com odor de jasmim
alva malva
salmo de luz
e carmim.

Passos lépidos
corpos tépidos
os passos do gato
e o vôo da baiilarina
sobre a grama do jardim.

Agora o gato repousa
no colo da bailarina:
gato branco, colo alvo,
cheiro de malva e jasmim
aura de alma lavada
enlevada,
simples,assim.

Da janela, olho a cena
plena.
e a janela emoldura
a ternura,
a janela é moldura
para o doce sentimento
que embala
o gato e a bailarina:
cena rara,
que se expressa,
entre um gato andando a esmo
e a alva bailarina:

E o repouso do gato
seu corpo esguio
no colo da bailarina
é a expressão do absoluto
que não cabe
que não sabe
num retrato.

segunda-feira, 30 de março de 2009

INSTANTANEO- 3x4


foto: flickr/seier+seier+seier

A solidão se assentou
na praça dos três poderes
e pôs-se a olhar os pombos
e seu indeciso vôo
num céu vasto, sem pouso.

A solidão se acentuou
nos rostos das pessoas,
como ovelhas desgarradas
perdidas na praça perdida
no cerrado perdido
no planalto central
descomunal
perdido no mundo.

A solidão aumentou
no solo, nos bancos,
nos rostos,
nos restos de brinquedos,
de comida,
deixados, quando morreu o dia
e os pombos voltaram aos pombais.

A solidão adentrou
os peitos, os olhos,
e os corpos caminham,
rumo às luzes
do setor comercial,
das asas do sul, do sal,
e do suor,
das asas da morte, do norte,
buscando um fato novo,
a ruptura,
a rachadura e a assimetria,
a nota destoante, o palavrão,
a cachaça, os bares, companhias,
para enfrentar a barra
destas noites escuras e vazias
desta solidão descomunal
que cresce, se avoluma,
sob a sombra
de um eixo monumental.

domingo, 29 de março de 2009

Sede da Palavra


foto: Era só - flickr/L

Como peixes sedentos
em pleno aquario
como aves cansadas
em repouso no ninho
como serpentes que morrem
do seu proprio veneno
como versos imperfeitos
que regurgitam a poesia
que não se compreendeu
assim me sinto eu:
poeta perdido
em meio à imensidão da palavra
E de suas consequencias:

Como encontrar as trilhas
as medidas
em meio a tantas midias
e maravilhas?
Como andar no prumo
e equilibrar-me
no fio da navalha?
a palavra explode
em meu peito
cala-me cego
o olho que não vê
meu braço cansado
de pesado fardo
passo e não sinto
o cume das estrelas
nem adormeço o sonho
da flor amanhecida
no jarro seco:

Como peixe sedento
em pleno aquario
minha sede não se mata
minha fome não se sacia
antes, se renova,
mais faminta, mais sedenta,
a cada dia.

sábado, 21 de março de 2009

flor e concreto


flor-estrela - foto by Nekrun/flick

Contra os céus de concreto
e o chumbo das cidades
explode a flor:
a beleza se insinua
nua
contra a miudez
e mudez
dos cinzas antropomórficos.

Flor:
que rompe o concreto
e entre frestas
invade
a rudeza do cimento
e a crueza de uma vida
acinzentada
conclamando
à batalha contra o tédio
contra o néscio
contra os vícios
e os ócios
contra os sócios
do escapismo:

Flor: epifania sagrada
Que nos remete
Ao divino.

No céu de buñuel

foto - "un chien andalou" by swan of kennet/flickr

A navalha
no olho
o corte
a lua lhena
plena
morta
a sombra
torta
o vortex
o redemoinho.

No fio da navalha
da canalha
na falha do inconsciente
o gesto insano
da mão demente.

E o olhar vazado
esgazeado
turvo como a lua
eclipsada
pelo sangue da nuvem
em sua Iris branca.

um poema inspirado pelo filme " un chien andalou" de buñuel e dali"

quarta-feira, 18 de março de 2009

ANARQUIPOÉTICA


FOTO POR jORGEMEJIA/FLICKR - !Viva la Poesía!

Hoje amanheci poeta e estou entardecendo perdido na prosa. Prosear sobre poesia, sua natureza e exigências, sua dependência do poeta assim como o poeta depende dela, assim como o poeta depende do ar para respirar e da palavra para se expressar em meio às multidões apressadas, ensimesmadas e sem palavras para com aquilo que a rodeia.

A Poesia é uma musa exigente e premente e nuca se sabe quando chega ou quando vai. Coloca-nos em eterna vigília, a buscar a senda das maravilhas e das palavras inauditas, encantadas, novíssimas em sua formulação e em seu entendimento, como diamantes recém- convertidos de um carbono abrupto. A poesia é assim, ataca-nos de repente, ata-nos as mãos do fazer diário e se instala, sorrateira e brejeira, em nossa mente e coração, que fica lírico a buscar revelações e encantamentos. E nos atracamos com ela, enrolados em seu leito de lírios e rosas, de cheiros e luzes, plenos de imagens que querem se traduzir aos olhos outros pela construção e encontro da palavra perfeita, da palavra que traga a luz, ao mesmo tempo tragando a luz que brilha em nossa mente.

A poesia é isso: uma busca pela tradução, mais que perfeita, dos sentimentos imperfeitos, das nossas contradições, das antíteses que somos e nunca queremos deixar transparecer. A poesia, para isso, depende do poeta e o poeta depende da poesia,e muito mais, da plena liberdade, aquela gritada a plenos pulmões, daquele ar que escapa do escafandro deixando o mergulhador à mercê da água que lhe rouba os sentidos...

A poesia necessita liberdade, incondicional e irrestrita, para que seja gestada e resgatada do limbo a que muitas vezes a condenamos. Por isso, rima não com burocracia, mas com anarquia e com apostasia. A poesia é avessa aos controles, às planilhas, às escotilhas, às camarilhas, às escolas, às escolhas, é avessa aos sistemas e regimes; o que a poesia busca é a pura tradução da beleza, este ser abstrato que se oculta nos mais inusitados lugares... Por isso, o poeta não deve e nem pode, enquanto poeta, preocupar-se com números frios, mapas de controle, perfis produtivos, gráficos e estatísticas. Vamos sim, nos preocupar com o pranto não chorado, a palavra não dita, os matizes ao invés de matrizes algébricas, com o homem e a mulher, enquanto seres iluminados e antenados com o universo no qual vivem.
Por isso, enquanto poeta, não busco o raciocínio dos números e a frieza das estatísticas. E registre-se que, paralelamente, trabalho com números, que no contexto adequado, também possuem sua beleza... aliás, esta já é outra praia pois, para os matemáticos, os números são plenos de luz, beleza, incertezas e inesperado e isso, diga-se de passagem, também é pura poesia.

No entanto, quero aqui celebrar a liberdade e o dever do poeta de trabalhar sempre a palavra, como o fruto de uma lavoura não árida, de uma lavoura fértil, de onde brotem os sentimentos e as sensações apreendidas enquanto homens, dominados e dominadores, senhores e irmãos da natureza.
E para isso, sejamos anárquicos e deixemos que as palavras nos transportem aos mundos exteriores e interiores, e façamos dela nossa arma e nossa alma, faça-se a luz ordenou Deus, faça-se a sua tradução por meio da poesia, conclamou o poeta.
E sejamos assim, teses( como nos poemas-conceito, matrizes para outros e outros e outros poemas), antíteses ( como nos poemas barrocos, contrastes perfeitos para a natureza humana, sua luz e escuridão), sínteses( como nos poemas concretos e haicais, equações líricas e pequenas flores de cor e forma intensas). Sejamos menestréis medievais, cantando barcarolas, sejamos clássicos, em sonetos formais, sejamos parnasianos, buscando a jóia perfeita da rima e do conceito, sejamos simbolistas, dando voz aos nossos elementos interiores, sejamos naturalistas, dadaístas sem um sentido aparente, sejamos surrealistas transmutando as palavras em imagens sinestésicas e sensuais, sensações pictóricas, sejamos sintéticos e prolixos, sejamos modernos, reeditando 22, sejamos enfim, eternos, e assim estaremos sendo contemporâneos, expressando os medos, vozes e vórtices do nosso tempo, esse tempo que não é só cronológico, mas também sentimental emocio-lógico, baseado em nossas idiossincrasias e relacionamentos com o mundo e as gentes.

Vamos pois, poetas, construir nossos opus de luz, mesmo em meio ao pus, ao pó, mesmo em meio às descrenças e desavenças, lançar nossas sementes de beleza que um dia, quem sabe, contaminarão a todos, tal qual uma pandemia, um pandemônio , uma ode à alegria de viver!

RAW-WAR


foto: No a La Guerra - flickr/Macfacizar

Canto I
A palavra se cala
estupefata
diante da putrefata
crueza da morte
que assola os sentidos.

A palavra cora
envergonhada
diante da tinta
da fúria
que assola
e tinge o cenário.

Canto II

Terra devastada
em que se digladiam
irmãos de sangue
em mãos cruzadas
morrem os homens
apagam-se os sonhos
gotejando sangue
coquetéis vermelhos
gosmentos,
grudentos,
sangue novo
sangue antigo,
sangue cíclico
na terra devastada
nos desertos erráticos
longe dos oásis
e das calmarias
longe dos jacintos
e dos lilazes
de abril
só tenazes
apertando as gargantas
tantas.

Escorrem mundos
pelos dedos
pelos medos,
pelos becos,
pelas bocas correm escarros
escamas de sangue: bombas
da paz, explodem
sôfregas, trôpegas,
a morte
sorrindo, insidiosa,
sedenta, e o diabo
que se veste de cordeiro
esbanja escárnios.

E o sangue corre, escorre,
Explodem corpos e ossos
Se esfarelam:
É o sonho da paz
Que volta ao pó.
É a sanha do ser
Que não se entende
em nome de deus.
É destino ou desatino
Essa insensatez?

Canto III
A terra devastada
apenas observa
com olhos enevoados
e choram as pedras
e se empedram os cantos
e secam os cântaros
por perdas, por danos
e pela dor dos homens
que ficam
a espiar horizontes
com olhos caninos.

E o mar, ao fundo,
em seu azul de safira
sugere a paz:

Que paz?


um cântico em homenagem a T.S.Eliot e seu poema "The Waste Land"

quinta-feira, 12 de março de 2009

UROBORUS


imagem: Uroborus- flickr/Leo Reynolds

Caminho no precipicio
entre o fim
e o inicio
em jardins
e delícias
e atinjo mundos
fundos
de poços
intransponiveis.

Sou translúcido
ou obscuro
opaco ou hialino
plácido ou fescenino
conforme o mote
caminho na luz
e no escuro
e me penduro
nos fios da navalha
nestes enduros
por trilhas
Ignotas.

Somos todos assim:
avis raras
dos paraísos perdidos
e proibidos desfechos:
uróboros contemporâneos
restituídos aos mitos
aos gritos primais
mordemos a própria cauda
e destilamos venenos
para nossas próprias almas.

Caminhamos em circulos
em circos plenos de vícios
e buscamos as rosas místicas
as ordens ocultas
e os segredos alquímicos
das transmutações:

Somos todos assim:
e caminhamos, impassíveis,
impossíveis
implausíveis
Rumo ao fim.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ROSAS ÁCIDAS



imagem: Rosas ded inverno- by rodrigo álvarez/rupertt - flickr



Rosas rubras,nuas,
desfolhadas
flácidas,
mas ainda rosas
grávidas de poesia
despencam do céu,
como chuva ácida
e descorrolorem sonhos
enquanto medos medram
nas mentes assassinadas.

Nada é o que parece,
nada nada nada
nada a favor da corrente
a semente não floresce
apenas fenece o feno
que não foi comido em tempo
pelas vacas magras.
mas ainda vacas
prenhes de promessas.

Tudo tudo tudo
nada contra a correnteza
peixes com sede de água limpa
e de ares sem margens
absolutas, perdidas,pendidas,
fendidas buscas perdidos
sonhos em volta do tempo
que tempo?

As rosas rubras enrubescem
ao som dos velhos hits
das estações passadas
onde já não passam trens
ainda tens aqueles passes
para os so(n)hos azuis
da temporada?

As rosas rubras despencam
e não falam: calam
as rosas nos canteiros
certeiros dardos doídos
jogados ao léu ao céu
que céu?

céus de chumbo, céus de estanho,
céus castanhos carregados
de cogumelos estranhos.

As rosas rubras despencam
e se desfazem em espirais
de tempo: sobra vermelho
e sangue, nas alcovas,
nas aldravas, as madressilvas
não cheiram mais:
sobram tristeza e tédio
e ócio
nas manhãs acinzentais
sem quintais.

Mas ainda o sonho
se intromete em meio
ao caos
e promete ressureições:
lázaros redivivos
ícaros renitentes
se elevarão dos escombros:
pássaros de fogo
cometas iconoclastas
vararão as madrugadas
plácidas
das noites ancestrais.