domingo, 28 de fevereiro de 2010

voz


imagem: levanta la voz- flickr/Daquella manera

pra adriana godoy

e o verbo se fez voz
e habitou entre nós.
voz:
foz de rios interiores
que nos faz
mós de moinhos
catapultas de ventos
cataventos
sonhando precipícios
aos quatro ventos.

voz.
música da palavra
escava em nós
nós cegos e desatados:
e mesmo sós
encadeamos cantos
sonoras explosões
de unos sentidos.

voz.
foz e estuário
santuário
veludo e uivo
sussurro e grito
da poesia
da palavra
tornada livre.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

o oco do mundo


imagem: tetsuo the iron bird- flickr/

há um artefato na porta principal
há artefatos na porta lateral
nas velhas portas frontais
e secundárias
onde se esconde o oco
do mundo:
os artefatos ocultam teses
e riem de nossas crenças
de crianças impúberes e imberbes
que se pensam livres e leves
em meio ao caos:

estão aí, em todos
Os lugares
e o mundo gira e os augúrios medram
medos
nos corredores mudos
midas tocam tudo: querem ouro
ou seus simulacros:
memórias préhistóricas
nos causam asco:
o que é a vida?
O que é arbítrio?
O que é sonho
Senão matérias
De pura poesia?

Minha avó e as profecias

E estava escrito. E assim devia ser.
Que aquele menino iria carregar nos ombros opeso de mil gerações, o preço de mil pecados, iria carregar em suas costas o peso de vidas inteiras que se desviaram.
E eu ria gostosamente das lindas lendas, lendas da velha minha vó que me assutava às vezes nas noites de raios e trovões com suas profecias loucas e suas estórias alucinadas.
E vivia eu relativamente bem um burguês acomodado acostumado às coisas bodas da vida , geladeira televisão e amore que adorava literatura de vanguarda, cinema de arte bares da moda e vernissages.
Que dormia de dia e vivia de noite.
Um pequeno burguês pequenino, como tantos outros.
E vivia eu assim, confortavelmente feliz e acomodado, sem saber que o destino traça linhas incongruentes e inconcebíveis em nossos cérebros, sem saber que o destino tem algo de bestiologico, sem saber que não há lógica nos caminhos do mundo.
E vivia eu confortavelmente bem, sem me lembrar da velha minha vó, que tantos anos já havia passado desde suas estórias loucas e suas profecias fantásticas, que tantos anos já havia passado que a memória não conseguiu guardar.
E foi assim que naquele belo fim de noite eu senti apavorado e abestalhado( beatificado) as coisas me acontecerem..
Naquele lindo fim de noite de lua de uísque e de embalo foi que eu comecei a compreender as linhas invisíveis e incompreensíveis.
Eu caminhava de encontro ao descanso do corpo quaqndo senti a minha primeira punhalada.
A segunda punhalada. A terceira.
Senti o sangue ir escorrendo pela calçada, pela calça, o meu carro a poucos metros de mim, e eu sem poder ao menos alcançá-lo, e a sofrer a agonia das punhaladas pelas costas, as punhaladas que me penetravam até os ossos, e me faziam sofrer as piores dores imagináveis.
E meu carro a poucos metros de mim, a salvação a poucos metros de mim.
A vida, a poucos instantes de mim. E eu, me perdendo pouco a pouco.
Foram entretanto essas apenas as primeiras revelações. O sangue fez ao meu redor uma poça vermelha, e eu continuava no chão, sem compreender o porque, mas compreendendo que alguma coisa mais forte e mais verdadeira do que a minha verdade estava acontecdendo.
E foi nesse exato momento de reflexão que os pássaros desceram do céu com seus bicos de metal e suas asas de chamas vermelhas. E começarqam a bicar-me os olhos, queimar-me o corpo com o fogo suas asas.
Matavam-me, entoando hinos imcompreensiveis aos meus ouvidos.
Foi aí que eu penetrei naquela realidade suprarreal. me lembrei dos meus velhos tempos em que minha vó me contava as velhas profecias, e me contava que eu não era um menino comum.
Eu não morri. Fiquei vivo ali no chão, com o fogo, o aço, o sangue e os punhais.
Percebendo todo o horror proibido dos velhos tempos, eu vi:
Estavam se cumprindo as profecias.

belo horizonte -1978


sim, os portais estão cheios de signos
e os homens se persignam frente aos idolos
e se desmancham em lágrimas
em coitos afoitos
pelos quatro cantos:
entoam cânticos, revivem mitos
e se deixam abduzir
pela poeira de estrelas:

as canções de gesta, os romanceslíricos,
o amor idilico,
a lirica poética
tudo conspira, tudo inspira, tudo incita
e excita os homens.

que ainda patinham na lama
que ainda amargam
nas ruas
que ainda aspiram a rosas
tendo sangue nos dentes.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

no labirinto


imagem: Labirinth/ MorganTar-Flickr

Nada a fazer
a não ser
Sair prá ver o mar. a mer
da é que o mar não traz
Paz ou poesia. é sujo,
como os becos fétidos,
fedendo a mijo, ao relento. tento
os degraus do céu.

estranhas me chamam
aos leitos desarrumados
Com marcas de outros
e me rendo ou não
às cantadas das sirenas?
Gozar, gozar enquanto a seiva flui
E a carne free-me.
no labirinto. sinto a santa
chama quente
do absinto ardendo
as entranhas. estranhas chamam
e me perco
no lusco-fusco. há saída?
a saída
onde é a saída?

sábado, 6 de fevereiro de 2010


imagem: in a dream - flickr/magicattic88

I have had my head bent for truth and treason.
I'm the fox of reason.
I'm an eagle in the whirlpool.

* * *

Michael mcclure –

hum

sei. Sou a sombra de mim e dos outros
e suporto fardos que pesam as dores
do mundo mundo que não sabe
o que carrego dentro
desta mochila estradeira
dos anos sessenta.

saudades não de ddesbotados
serafins coroando anjos e deuses
no olímpico nirvana
de ioguins e iogurtes
de sonhos brancos e canções
enjoadas
de liras mormacentas. quero, sim.
muito mais de ti e de mim muito mais
do que se apresenta.

as viagens clandestinas
A lisergia do poema que não se perdeu
nos anos setenta
a loucura insana e crua de ser
homem num planeta belo
e destinado
ao pó.

quero sim,o útero de estrelas
tudo, tudo, enquanto
canto enquanto ando
enquanto grito uivo escarro
enquanto sangue e carne
persistirem em mim-

quero ser tradução
da poesia doida e desvairada
que deve nortear
todos os passos.


humms

Sei. Sei que sou a sombra
de mim e dos outros
e que carregar mundos nos ombros
é fardo fácil, é doce oficio
quando nos encantamos
com a grandeza dos pequenos
E nos espantamos
Com a apequenez dos grandes.

há ordem no caos, há uma ordem caótica
que rege os mundos pequenos
e a árdua batalha das espécies
que se enfrentaam nos subrterrâneos.
Não essas batalhas rudes e campais
das coisas grandes. Mas aquelas
de asas de boboletas, de pios de pássaros,
de húmus, de minhocas, de vermes,
de formigas e outros nossos irmãos
menores.

sei.O universo sé um mimo,
um brinquedo,
um pedaço de estrela
na ponta do alfinete, e nós somos tão tolos
e inúteis, nesse mister.

prá que pisar flores
e arrancar as asas dos insetos?
prá que querer ser mais
do que insossos mortais?

ora direis, olhar estrelas-
ora direi, olho as estrelas,
ouço as estrelas
e sei
que o mundo é brinquedo sim,
Como bola de sabão
E de repente, ploft- bum- vupt
Se desfaz...

domingo, 24 de janeiro de 2010

desanoiteceres


imagem: ombres chinoises I - flickr/doozzle

prá nina rizzi



é que andei aprendendo a desanoitecer pesadelos enquanto lia prá dormir, de noite, contos de poe de lovecraft ah aqueles monstros infames, subterrâneos, Cthulhu aterrorizando corpos e destroçando almas- eu aprendi ali, com poe , a desamanhecer pesadelos e engendrar sonhos lilazes que não apertavam gargantas nem cuspiam cacos de vidro ensanguentados- só exalavam perfuames de lirios e águas de colônia... eu de há muito tempo havia perdido a vontade de sonhar com as coisas quando as coisas começaram a sonhar comigo: eu ia soooooozinho e atarantado em meio ao caos e à neblina de rimini fellini desnorteado no sertão e eu era parte dos sonhos das coisas: que coisas? coisas do mundo,coisas que a gente ia acumulando ao longo da vida feito seixos rotulados nos rios amontoando-se ao longo das veredas e dos caminhos e tantos buracos e tantas capoeiras nas matas e os olhos verdes da figura ainda me olhavam do alto de seus metros de alturas- ai, grande sertão de diadorim e riobaldo rosa tosa rosa guimaraneando os sentimentos e garimpando vozes e sentimentos lá no fundo da alma que rosa mineiramente sabia de todas as coisas que coisas? as coisas que nos sonham, as coisas que acontecem enquanto a gente vai vevivendo soinhos moinhos moribundos- marimbondos voam em minha direção e me ferram no pescoço: a dor é lancinante, é funda, e eu acordo no meio deste caos emocional poético remissivo e caio do rocinante- eu- quixote de araque- um araquiri poéstoico me aflora à mente- e eu nem sei mais do que estava falando: de rosa, dos sertões, dos marimbondos, de lovrecraf e de poe- ah, poe, edgar allan- poeta dos grandes- teus poemas me iluminam,

assim,devagar, desamanheço pesadelos
e anoi-teço sonhos
em noites cor de açafrão:
há luzes, há terracotas
há ervas finas
e finais
felizes
há corações empedernidos
e canções de meninar monstrinhos.
antes, muito antes do dom
eu não era assim:
adormecia pesado
e aos roncos e barrancos
atravessava a noite
como um destinado
à barca de caronte
mas hoje, meu sono é leve
como penas de gansos
e garranchos de criança
rabiscando folhas
de papel;
desamanheço pesadelos
e brinco
no branco do olho
no romã da boca
no seio macio
e no dedo em riste
que me aponta: quem
é o intruso
que se introduz assim
em meu reinado?
nada nada nada é o que digo:
minha intromissão
é jugo leve
fardo sem peso
é pluma no ar:
desaprendi pesadelos
e navego-
no mar de ulisses
voltando para ítaca
imune às sereias
e aos cantos mortais.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


imaagem: bored if you dont- flickr/otherthings

porque a solidão é uma parede branca
caiada de ausências
e brinca
brusca
dançando nua
na nebulosa do quarto
um lânguido
tango argentino.
desmoronaram muralhas
de flores mortas
sobre a praça das horas
e as heras verdes
invalidam as frestas
despedaçam janelas
e luzes
e se instaura
como cacos
de caos
a dança não cansa
a música tosca a
parede é branca
é preta
é púrpura e ocre
a vida incolor reclama
de tanta palavra e adjetivo
é apenas merda
na privada
sangue nas seringas
e o que mais?

Que temos nós a ver
Contudo?

tudo é um surto. um susto.
um curto-circuito
um circo
a cicuta de Sócrates:
tudo é fogo-
fátuo
tudo é enfado.

as horas dançam
e nos tomam como pares:
os copos nas mãos
brindemo-nos
brinquemo-nos
enquanto a vida flui.

sábado, 16 de janeiro de 2010

do not


imagem: Pool(s) - ceesjw/flickr

Do not translate
this poe-m:
or swall
the words
swords
iced
fiords
let the poem
fly, like flies
and lies

say good-bye
as a shining
in a acid sky.
i... am a anonimy
try poetry
try poe
and break ties

but let the words
and the poems
rest in peace
like bread and butter
one only body
on thew tableau
any language
all the tongues:
sing the songs
of yourself:
o sangue das canções
tatua-se na pele
como ideogramas:
血液中的歌曲
休息
語言熱!
deixe o poema viver
na minha, na sua,
em nossas línguas,
mãe!,,

sábado, 19 de dezembro de 2009

: e sigo

imagem: Go ahead- flickr/stephcarter

i

:porque antes era assim- havia sonhos - que se sonhavam juntos como morangos vermelhos nos cestos amoantoados sob os pés das árvores- eram outros tempos e sonhos ainda havia quando nos juntávamos em grupos e a bagunça era geral o som comia solto e havia amor, também: falo de amor de corpos que se tocavam falo de simbiose de estar prá lá de bagdá me dá suas bocas me dá suas coxas me dá sua vida e tudo era assim: havia um quê de tudo o mais havia aquele ar flor e amor e ah- via-se tudo então com olhos de olhar prá dentro de prescrutar íntimos desejos e loucas travessias de egos e ei olha aí o ovo do início olha o gênesis e emerson lake e palmer olha aí os cantos rústicopoéticos jethro tull aqualung deus criado à maneira dos homens ei ...hey...

ii

na primavera\ já estivemos lá. era estação de flores, de florestas roxas rosas de cerejeiras em flor lá no japão de flores sem fim no sem fim do mundo. era estação de amores vãos-fúteis amores que se roçavam bocas que se tocavam braços que se aninhavam-mas era tudo tão rápido e tão jovem que a saudade não tinha e o tempo não passava e a gente esteve lá- abraçando, beijando, trepando feito loucos no cio mas era tudo muito romântico- e a primavera, porra, e não tinha tempo prá chorar: era tudo leve e solto e era isso aí.

iii

no verão a estória já era outra: corpos suados sarados malhados molhados agarrando-se nos amontoados das praias e das ruas e dos shoppings e era tudo tão bom tão up tão jovem- peles brancas, morenas, negras, de todas as cores e de todos os modos se entregando alí- e tome luas e luaus e tome sexo e alucinações e também ainda era tudo tão rápido que nem havia tempos de saudades ou de solidão? solidão? que solidão?

iv

depois as folhas começaram a cair e também as fichas: era outono., sabe? aquela estação estrangeira de folhas vermelhas e troncos nus que por aqui não combina, é tudo muito defasado, mas a angústia já se instalava e um frio já vinha descendo pela espinha nos momentos mais precários quando uma mão tocava meio gelada a nossa nuca e ei, que é isso porra que mão fria é essa? solidão- ah, já se sentia só-assim um pouquinho- nas noites mal dormidas- nas companhias que não ficavam, nas moças que iam embora, nos restos deixados nos copos, nos cigarros abandonados nos cinzeiros...

v

é, o inverno é foda: deixa-nos muuuuito tristes- e enrolados em cobertores de lã a gente se sente estranho no ninho: quando foi que saí de casa:

Quando saí de casa

Eu fiquei lá:

Quando me vim

De mim

Deixei crateras expostas

Portas fechadas,

Feridas,

Deixei pedaços espalhados

Espelhos quebrados, nos caminhos,

Nas fendas das grotas,

Nas curvas do tempo,

Deixei partes inconciliáveis

Quando eu me vim

A este mundo outro:

Os bichos ficaram lá:

Amoitados, amontoados

Num cantinho qualquer

De uma cidade antiga:

Latidos, miados, urros

Gritos e uivos- todos silenciados

Num pedaço de memória

Que teima,vez em quando,

Em uivar pra lua:

Meu, minha,

Teu, tua,

É a vida dando tapas,

Coices em nossas caras

Civilizadas.

Morre-se de fome,

De dores, de guerra,

De tédio

E daí?

A vida é assim. .

é, quando deixei a primavera da infância, aqueles sonhos rosados todos, quando foi que perdi aquele tesão de junventude braço bocabeijo bocejo bundas rebolando peitos ofegantes e sexo muito sexo e trepadas mil e gozos e nada de sonhos- ah..esse inverno é mesmo merda, frio como o alto do himalaia e aqui é o cu do mundo e eu nem sei mais o que estou sentindo será o peso da idade será o ar de chumbo da cidade será que será? a solidão- sólida como pedra rocha voadora que veio se abater aqui, no meio do meu coração branca como parede de cal soprando ausências:i

A solidão é uma parede branca

Caiada de ausências

Que germinam no corpo

Rememorando dores:

Tudo o que podia ter sido.

Não foi.

É uma ária de Bach

Adejando os ares

Num stradivarius

Sem ouvintes:

Antes, o corpo dançava

Ao som de estrelas

E os lençóis amassados

Eram nosso presente

De natal.

Hoje, não má marcas

Nos panos ou no pscoço

Beijos, flores mortas,

Murtas secas, no jardim:

A solidão é uma parede caiada

Branca de ausências

Onde a luz reflete

Promessas vãs:

A solidão.

vi

Porra, acho que deliro

em lírios mortos:

foda-se: estou vivo

e sigo.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

drums

imagem: into abstraction- flickr/robert in toronto

,do começo

ao fim

tropeço

nas esquinas

de mim,

domingo, 29 de novembro de 2009

cru


imagem: the beggar- flickr/clownbastard

meu verso é cru,
é avesso
meu poema é escroto
é abjeto meu objeto
lírico:
dorme nos bueiros, nas cânulas
transita pelos becos
fede,
fode,
escondido nos cantos
dos viadutos.
mas fala de vida- disfarçada em morte
ou de morte em vida-tanto faz:
meu poema é incapaz
de se sentar em cadeiras estáticas:
é fugaz
e se esconde do neon.
...ao redor da mesa
dormem as cadeiras.
estáticas e sem êxtases
as palavras furtivas
não se furtam ao tato. mas
não há quem as recolha
E perecem.como frutas
podres, em odores
fétidos.
Não há quem as colha
em sua plenitude:
dormem os homens
ao redor das cadeiras.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

anarquipoesia

imagem: Poesia.jpg by bidari/flickr


ave, pablo!

Hoje amanheci poeta e estou entardecendo perdido na prosa. Prosear sobre poesia, sua natureza e exigências, sua dependência do poeta assim como o poeta depende dela, assim como o poeta depende do ar para respirar e da palavra para se expressar em meio às multidões apressadas, ensimesmadas e sem palavras para com aquilo que a rodeia.A Poesia é uma musa exigente e premente e nuca se sabe quando chega ou quando vai. Coloca-nos em eterna vigília, a buscar a senda das maravilhas e das palavras inauditas, encantadas, novíssimas em sua formulação e em seu entendimento, como diamantes recém- convertidos de um carbono abrupto. A poesia é assim, ataca-nos de repente, ata-nos as mãos do fazer diário e se instala, sorrateira e brejeira, em nossa mente e coração, que fica lírico a buscar revelações e encantamentos. E nos atracamos com ela, enrolados em seu leito de lírios e rosas, de cheiros e luzes, plenos de imagens que querem se traduzir aos olhos outros pela construção e encontro da palavra perfeita, da palavra que traga a luz, ao mesmo tempo tragando a luz que brilha em nossa mente.A poesia é isso: uma busca pela tradução, mais que perfeita, dos sentimentos imperfeitos, das nossas contradições, das antíteses que somos e nunca queremos deixar transparecer. A poesia, para isso, depende do poeta e o poeta depende da poesia,e muito mais, da plena liberdade, aquela gritada a plenos pulmões, daquele ar que escapa do escafandro deixando o mergulhador à mercê da água que lhe rouba os sentidos...A poesia necessita liberdade, incondicional e irrestrita, para que seja gestada e resgatada do limbo a que muitas vezes a condenamos. Por isso, rima não com burocracia, mas com anarquia e com apostasia. A poesia é avessa aos controles, às planilhas, às escotilhas, às camarilhas, às escolas, às escolhas, é avessa aos sistemas e regimes; o que a poesia busca é a pura tradução da beleza, este ser abstrato que se oculta nos mais inusitados lugares... Por isso, o poeta não deve e nem pode, enquanto poeta, preocupar-se com números frios, mapas de controle, perfis produtivos, gráficos e estatísticas. Vamos sim, nos preocupar com o pranto não chorado, a palavra não dita, os matizes ao invés de matrizes algébricas, com o homem e a mulher, enquanto seres iluminados e antenados com o universo no qual vivem.Por isso, enquanto poeta, não busco o raciocínio dos números e a frieza das estatísticas. E registre-se que, paralelamente, trabalho com números, que no contexto adequado, também possuem sua beleza... aliás, esta já é outra praia pois, para os matemáticos, os números são plenos de luz, beleza, incertezas e inesperado e isso, diga-se de passagem, também é pura poesia.No entanto, quero aqui celebrar a liberdade e o dever do poeta de trabalhar sempre a palavra, como o fruto de uma lavoura não árida, de uma lavoura fértil, de onde brotem os sentimentos e as sensações apreendidas enquanto homens, dominados e dominadores, senhores e irmãos da natureza. E para isso, sejamos anárquicos e deixemos que as palavras nos transportem aos mundos exteriores e interiores, e façamos dela nossa arma e nossa alma, faça-se a luz ordenou Deus, faça-se a sua tradução por meio da poesia, conclamou o poeta. E sejamos assim, teses( como nos poemas-conceito, matrizes para outros e outros e outros poemas), antíteses ( como nos poemas barrocos, contrastes perfeitos para a natureza humana, sua luz e escuridão), sínteses( como nos poemas concretos e haicais, equações líricas e pequenas flores de cor e forma intensas). Sejamos menestréis medievais, cantando barcarolas, sejamos clássicos, em sonetos formais, sejamos parnasianos, buscando a jóia perfeita da rima e do conceito, sejamos simbolistas, dando voz aos nossos elementos interiores, sejamos naturalistas, dadaístas sem um sentido aparente, sejamos surrealistas transmutando as palavras em imagens sinestésicas e sensuais, sensações pictóricas, sejamos sintéticos e prolixos, sejamos modernos, reeditando 22, sejamos enfim, eternos, e assim estaremos sendo contemporâneos, expressando os medos, vozes e vórtices do nosso tempo, esse tempo que não é só cronológico, mas também sentimental emocio-lógico, baseado em nossas idiossincrasias e relacionamentos com o mundo e as gentes.Vamos pois, poetas, construir nossos opus de luz, mesmo em meio ao pus, ao pó, mesmo em meio às descrenças e desavenças, lançar nossas sementes de beleza que um dia, quem sabe, contaminarão a todos, tal qual uma pandemia, um pandemônio , uma ode à alegria de viver!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

adagio

imagem: water drop - adagio art/flickr

não há lucidez na dor.
nem calma no romper de laços.
há braços que despencam
corpo abaixo
buscando abraços
que já não há mais.
há bocas que mordem o vento
imaginando clausuras.
o leite derramado
não se bebeu:
tragou-o a dureza da terra.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

corpacorpo

imagem: sex bomb/flickr-ilovepie

não te querer assim: sonhadora, romântica, buscando alhures o que aqui não se encontra: o sonho martelava idéias sobre a cabeça e o coração enquanto o corpo apenas se jogava inteiro naquele jaogo de sedução avacalhado: mão na mão olho no olho pele na pele calor e tesão: um avanço, um recuo, outras idas e vindas, lindas as palavras ditas e os sussurros gemidos ao pé do ouvido gargantas secas bocas sedentas mordidas lambidas salivas lânguidas escorrendo pelos cantos sumos o corpo em explosão busca o saciar-se o engendrar-se o fundir-se:

Colado
Calado
Selado
Suado
Su (surrado)
O corpo encontra outro corpo:
Porto inseguro
Augúrio do velho
Do mesmo tema:
Janela vedada
velada
A alma se guarda
Em qualquer redoma:
O corpo não: faz-se
e se refaz
Entre Dioniso e Eros
Erra quem busca
alguma coisa mais?

longe daqui, desta cama macia com lençóis brancos e travesseiros cheirando a erva-cidreita pairam os sonhos: sonhos românticos dos poetas cor-de-rosa que queriam e não queriam estar aqui assim num tempo assim nesta empreitada doce e imaginada: amar a amada,assim, sem mais conversas, jogar-se sobrre o leito e desfrutar a carne, o desejo explodiindo, os corpos em êxtase, tudo tudo e as palavras soltas ditas assim sem mais rodeios muitomais que o te amo muito mais do que te adoro muito mais do que as pérolas de chuva e do que as rosas vermelhas sobre a mesa muiito mais: os sentidos e sua jornada noite adentro gozo gozo gozo corpos embolados enroscados: amor?
Não te querer assim, lírica, leve, mística, rósea: te querer assim: crítica, cítrica, inteira no seu torpor e no seu gozo múltiplo: amor?

Sob o cisne afoita,
leda cisma
enquanto frui
o instante:
será amor
a alquimia dos corpos
ou pura anarquia
do desejo?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

doze tulipas

tulips, red - jcolman/flickr

as doze tulipas vermelhas brilhavam no vaso sobre a mesa: ainda estavam frescas, vieram de Amsterdã eu mesmo trouxe na minha bagagem de mão no gelo só pra você sentir a energia e a beleza dessas flores- e eu fico olhando essas tulipas tão vermelhas e tão brilhantes gotas de água ainda pairam sobre suas pétalas e o sol atravessando as folhas dão ainda mais realce a este brilho sim que bonitas estão as tulipas... a energia irradiada não atinge no entanto seu objetivo pois ela eu nós estamos todos muito down- não sei se o efeito estufa se o calor maluco deste verão não sei se o cansaço das coisas o descompasso da vida não sei se os momentos que viemos- nada me diz nada, não sei para que serve tanta beleza essas flores vermelhas doze sobre a mesa doze místicos corações atravessados por setas de dúvidas doze míticos heróis atarantados querendo lutar contra um mal que se vê mas que não se vê um mal de almas e de mentes um mal enraizado um mal estar que não se corrige- esses homens de hoje nós e nosso tempo- um tempo em que se insiste em matar a poesia e calar os poetas e dizem pra quê? Pra quê tanta palavra tonta tenta outras tintas fala do real dos tiros dos atabaques das balas perdidas das minas gostosas se jogando ao vento fala do sexo que é bombombom- não sei pra quê tanta poesia esse tempo nublado não combina pra quê falar de bicho do mato de flor que perfuma de pores de sóis e de luas cheias brancas flutuando sobre nossas cabeças é só a lua é só mais um no céu céu ah que céu estrelado lindo essa via láctea se derramando sobre nós esse sentimento queimando no peito epa! Olha a poesia se infiltrando disparando seus dardos não sei se vou resistir a estas belas doze tulipas vermelhas brilhantes sobre a mesa... sim, sei que elas vão secar, murchar, apodrecer e enfim virar pó- sei, mas é assim: a vida é assim, assim é a poesia- o sentimento do perene e do efêmero. E quando nos dissermos relaxa meu bem é só sexo o que nos une lá no fundo sabemos que não: há qualquer coisa no ar.

há pétalas que antecedem o caos
há petalas que sobrevivem ao caos
há pétalas que fenecem no caos.
o homem não.

sábado, 14 de novembro de 2009

ps

foto: unscripted post scriptum/ flickr/patrizia ferri


:a deus

há deus?
adeus..

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

poecacto

foto: cactus/flickr/L Lemos

a poesia fere,corta,
machuca,retalha,
dói e estraçalha.
mas guarda em si
a seiva
a água fresca
que mata a sede do poeta
nos desertos estéreis.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

iv


foto: neurone de mer - allaletre(like a foll on the hill)/flickr

pois a luz iridescente da poesia
Me atropela pele e poros:sou
Pura síntese, osmose
De cromakey
Antítese do velho:
Cristais de quebrar
Safiras & esmeraldas
a poesia
Deflagra em mim
Ultrajes e lambidas
Êxtase
Eu te quero, poesia,
Avassaladora em mim
É pra ti que canto
Estes cantos
crus
e insensatos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

fábula


foto: fruit and fly - shioshvilli/flickr

Pois eu danço
E bebo e canto
Até que brusca mão
Me espanta.
(William Blake – A Mosca
)


Eu,pecador, absoluto em meu pecado, todo poderoso construtor dos meus desvarios, confesso-me a mim. Persigno-me, persigo-me, prossigo nesta impossível impassível jornada, trama indecifrável. Eu, pecador, crivado pelas setas e espinhos da dúvida, indivíduo no mundo, persigo meu sonho. E meu sonho intromete-se em minha vigília, soltando no ar os seres que povoam minha mente.

...Assim estava, assim pensava ele, abandonado ao tépido calor daquele vinho, naquele fim de tarde, jogado sobre a poltrona, quase a dormir, naquele profundo retalhar de coisas antigas, de crenças antigas, naquele ato de dissecar as próprias dúvidas, a própria vida.
De repente, ouve um zumbido e o barulho de vida próximo a ele. É uma mosca, que ronda o ar, ao redor da fruteira. Ali estão as peras, que adormecem e apodrecem seu marasmo , lassidão, solidão e abandono. A menos que uma mão faminta tome-as, levando-as à boca para saciar a fome, elas ali permanecerão, eternamente em seu marasmo, apodrecendo.
Ele observa a mosca, que zumbindo em círculos aproxima-se da fruteira. E se admira ao ver seu vôo bonito, concêntrico, o brilho refletido em suas asas azuis quando o sol rebate nelas diretamente. Acompanhando com o olhar vê quando ela, finalmente, pousa sobre as frutas. Como que magnetizado, sente-se penetrar na realidade daquele inseto, que agora passeia sobre a superfície dourada da pêra; ele agora é a própria mosca e passeia sobre a fruta, sentindo toda a carícia do veludo sob as patas, a tepidez dourada provocando arrepio nos pelos.

Prepara-se para sugar todo o seu sumo, sua seiva. E exatamente quando começa a gozar as delícias de sua empreitada, desvia os olhos para cima, deparando-se com um magnífico azul violáceo , um sol que a convida a viagem rumo a outros ambientes. E ela imagina milhares e milhares de novos frutos, antecipando delícias de paraísos inimagináveis. E se divide: não sabe mais se se entrega ao doce ofício de sugar a seiva da dourada pêra ou se levanta vôo em busca de outras paragens. E se debate entre, e se confunde, não percebendo a pesada m~´ao de alguém que se abate sobre ela, que agora está tombada, inerte sobre a fruta.

... Quando sentiu a tragédia, voltou a ser ele próprio, sentindo as forças esgotarem-se nos estertores da morte. Novamente é ele o observador, e observa a cena: as peras continuam na fruteira, no mesmo lugar a mesa e a toalha, as flores, a sala, ele e seus olhos. Tudo permanece, como sempre, apenas a mosca está morta e já não faz mais parte do ambiente. E no entanto, nada mudou. Todo o conflito que viveu, todo o seu angustiante dividir-se, tudo é acabado. O mundo permanece, indiferente à sua morte, à sua queda. O seu pequeno mundo, feito de uma sala, de uma mesa e de uma fruteira cheia de peras, que continuam adormecidas, apodrecendo sua solidão e seu marasmo nas tardes quentes.

Silenciosamente, pé ante pé, como se cumprisse um ritual, ele se levanta e se aproxima da fruteira. Com a ponta dos dedos retira cuidadosamente o inseto, e sem uma sombra de qualquer sentimento no rosto, atira-o na cesta de lixo, seu último reduto.

Eu, pecador, absoluto em meu pecado, todo poderoso construtor dos meus desvarios, confesso-me a mim. E jogado sobre a poltrona, nestas tardes monótonas e quentes, pressinto e antecipo a queda da próxima mosca, e o ranger de dentes das peras, deixadas solitárias na fruteira.

Do Livro “ O DEVORADOR DE PALAVRAS” -Brasília, 1982

terça-feira, 27 de outubro de 2009

tu do nada

foto: wake up dead man- flickr/just.Luc

..tu do nada vieste
Tudo é nada
O nada de que te revestes
Ao querer ser tudo.
Tudotudotudo
Nada
Contra a correnteza:
O nada até te abisma
Por conter em si
O tudo
O totem
os tutti
quanti
rios vazios
vasos sem flores
e mares sem ondas
ou peixes.

O nada me assombra
Como sombra. Soçobram
Em mim
Suas tristes memórias.
Só me sobram
O medo e o enfado
esses fardos
Nesse fado.

Tu do nada vieste
Tu do pó surgiste:
Dedo em riste,
Corpo ereto,
Cavernoso, te eriges
À tua própria imagem
E desessemelhança:
És nada, entretanto,
E nenhum canto,
qualquer pranto,
nenhum mantra
Nem encanto
É capaz de salvar-te
Da tua condição:

Pó de estrelas
De luzes morrentes
Há quantos bilhões
De anos-luz?
Veste-te
De tua insignificância
E aproveita o tempo
Que te é dado viver:

Sorva a poesia
Como quem bebe água fresca
No deserto das idéias.
Pois...

domingo, 18 de outubro de 2009


foto: depressed wander-flickr/hybrid756

cena I
paisagem se desdobra à minha frente
feita de brilhos e barulhos matinais.
Mas não me importo. Não me interessam
estas mornas tardes outonais.
Em meu peito chove. Rugem vendavais.

CENA II
Ela não. sente-se sozinha senta-se no vão da escada e começa a pensar. pensar.
“Eu me perco na minha própria perdição. Ando muito desligada, buscando trilhas, maravilhas e não vejo a vida que corre ao meu lado, cobrando, cobrando, feito cobra serpenteando ora fria ora quente o bote armado... Nada me importa e a viagem não tem fim. Fui. Fim. “

Ela lembra os velhos filmes e os desgarrados personagens de Nazarin e os figurantes do banquete dos mendigos. Putas, abandonados, cães vadios saídos dos becos de Brecht, gente sofredora que desfila por seus olhos pedindo uma chance de se mostrar, de se revelar, de poder soltar os seus clamores.

CENA III
Ele deitado. Na cama um tédio sem remédio. Ontem foi sexta e ele só chegou no sábado noite selvagem sexo sexo sexo foi amor foi paixão? Não, foi só tesão acumulado, desejo de outro corpo, desejo estimulado pela mídia e pelo vício álcool na veia paraísos artificais que luta o que é que eu busco afinal onde é que eu vou para que estou aqui? São tantas e tontas perguntas e a vida corre, sorry. a vida corre, a noite escorre, o mundo é um grande porre, cadê as adocicadas lovistoris onde é que eu entro nesta história? Cansei, dancei.nem sei. Penso e lanço meus medos ao espaço e meus medos me invadem e se materializam e voam, soltos nos ares, feito vampiros feito nosferatus desilsudidos e desesperados querendo sangue mas muito mais que sangue querendo afetos e afoitos se desintegram aos primeiros raios de sol e aos mínimos sinais de carinhos ou caricias em suas faces túrgidas e lívidas de habitantes da noite. Ah, que pesadelos são estes que agora me atormentam?

CENA IV
Ela no vão da escada. Ele, deitado na cama, em seu tédio sem remédio, ouvindo canções que não se usa mais, valsas vienenses, bosques de imperadores, se esta rua fosse minha ah, eu mandava te buscar... foda-se, eu quero e gosto das canções antigas... ah, que tédio estes baticuns de hoje em dia....

Ela se levanta do vão da escada, borra boca de baton. Vermelho vivo, como a vontade de se entregar ao primeiro cara que encontrar pela rua. Ela se levanta e vai ao encontro do destino. Que destino? Ele, o cara do tédio sem remédio, das músicas que não se ouve mais do sexo selvagem que não tem a ver com paixão e com amor? Ele mesmo.
Ele, a esmo, sai da cama e se veste, feito um robô. Bota a bermuda. A cena muda.

CENA V
Um encontro romântico nos bosques de Viena ao som de strauss longos vetidos brancos rodopiando sonhos enquanto vampiros negros nosferatus e dráculas sobrevoam os salões guardiões do cara do tédio. Ele. Ela. Eles. E daí?
Daí, há de sair alguma coisa de concreto sangrando a cena, alguma carícia mais afoita, uma noite de prazer, duas ou três noites de trepadas, sim, e daí? A vida é só isso aí?
Onde ficam os sonhos, os devaneios, as buscas, a esperança, a estrada de tijolos amarelos e os castelos de sissi e o palácio de esmeraldas e os poderes do anel?
Onde os poetas podem colocar seus versos e seus segredos se não perdurarem sonhos e paragens outras, além, muito além?
Não podem.
Ele. Ela. Eles.
E ávida a vida é assim. Seca.
Nua. Crua.
Assim.